o autoretrato fotográfico como instrumento de intervenção psicossocial

Evelyn Ruman [1]  e Virgínia Baglini [2]

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 “... a Fotografia é o aparecimento de eu próprio como outro, uma dissociação artificiosa da consciência de identidade” [3]
 

Apresentamos um recorte do trabalho fotográfico de EVELYN RUMAN que desenvolveu oficinas de autoretrato com mulheres e adolescentes no Chile (1993-95 e 1997) e Brasil (1999-2000) [4] . Quando utilizada como instrumento de intervenção psicossocial, a produção da auto-imagem tem o propósito de reabilitar a auto-estima e a confiança das mulheres e adolescentes internas em instituições de reabilitação social e ampliar a percepção que elas têm de si mesmas. De um modo geral, tanto este trabalho como as produções de autoretrato da última década constituem um campo de representações que revela, especialmente, no cenário das grandes metrópoles, um processo contínuo de fragmentação do indivíduo [5] . O autoretrato problematiza a busca de sentido na experiência do cotidiano nos grandes centros à medida que coloca a possibilidade da desconstrução e construção de personagens como “meio ver-se a si mesmo, [que] à escala da história, é um ato recente” (BARTHES, 1989:28).

CANTON (1999:68) esclarece que, enquanto no Renascimento havia uma procura pelo registro de pessoas e famílias de forma popularizada, no final do século 19 ocorre uma “...liberação da busca da verossimilhança da imagem humana, e as novas pesquisas trazidas pelo pós impressionismo e, posteriormente, pelo cubismo na primeira década de 1920, o retrato e o auto–retrato readquirem força e comportam formas e conceitos inovadores”. O autoretrato não se configura apenas como uma representação narcísica, mas como uma forma de representação da própria identidade, incluído aí o próprio estranhamento característico do homem contemporâneo, que pode ser ilustrado na sensação de se olhar no espelho sem ser reconhecido. Trata-se de uma situação marcada por transformações em diferentes níveis, inclusive na estrutura do sentimento, em um processo contínuo de fragmentação do contexto urbano e das paisagens culturais que invade o século XXI. Como explica STUART HALL (2000:9), “(...) estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um sentido de si estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma crise de identidade para o indivíduo”. No contexto da construção do conhecimento, esse conjunto de transformações que afeta o modo de vida do homem contemporâneo assume, para alguns pensadores, contornos de um novo paradigma diante da falência do projeto modernista, este fundado no avanço tecnológico, como possibilidade de autonomia e de liberdade humana, e que caiu por terra, especialmente, com a experiência das duas grandes guerras. A esse estado de coisas, em que impera a maleabilidade das aparências, em que a sociedade já não se conforma apenas por uma disciplina estratificada entre classes, para alguns, trata-se da passagem para a pósmodernidade. Ao contrário, DAVID HARVEY (1994) reconhece o pós-modernismo como uma condição histórica, cujas mudanças não indicam o surgimento de uma nova sociedade, seja pós–capitalista ou pós–industrial, mas sim transformações superficiais no modo de organização do capitalismo e uma forte desestabilização econômica, política e cultural. Essas transformações nos grandes centros e as interferências no cotidiano do homem urbano já eram discutidas na década de 70 por RABAN acerca de Londres quando anunciava que “(...) as próprias qualidades plásticas que fazem da grande cidade o liberador da identidade humana também a tornam especialmente vulnerável à psicose e ao pesadelo totalitário” [6] . Pode-se dizer que esse cenário está representado na produção recente do autoretrato, quando na captação de auto-imagens investiga-se a busca de sentido em meio à fragmentação do indivíduo. É nesse contexto que está inscrita a produção do autoretrato, com destaque para o trabalho de RUMAN.


[1] Fotógrafa e Socióloga

[2] Mestre em Sociologia – PUC São Paulo.

[3] BARTHES (1989 : 28).

[4] Além de mulheres e meninas, Rumam desenvolveu trabalhos com meninos com Síndrome de Down, no Colégio Integrado de Santiago do Chile (1996) e com pacientes do Centro de Atenção Psicossocial – Caps Professor Luiz da Rocha Serqueira - São Paulo (1999/2000). Atualmente desenvolve oficinas com público da terceira idade no Sesc Pompéia – São Paulo.

[5] Uma mostra da produção do auto–retrato desde o  final do século 19 e início do 21 foi apresentada na Exposição “Auto–retrato: espelho de artista”, na Galeria do SESI, Centro Cultural FIESP & MAC Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (mar./jul. de 2001). Para uma análise mais aprofundada de alguns dos trabalhos expostos ver CANTON (2000).

[6] RABAN, Jonathan  apud HARVEY (1994 : 18).


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