“Memórias antropológicas” em torno de um álbum fotográfico : 
Fotografia, morte e história III

Etienne Samain*

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Segundo Percurso: 
o modo menor da realidade, o “obtuso” e o “simbólico” de Barthes

Para terminar, proponho-lhes que revejamos algumas das fotografias e descubramos, nelas, o que chamei de dimensão obtusa, ou modo menor da realidade, presente em todo registro fotográfico.


 A. As “sentinelas”[9]

 

Comentários:


B. “Para não dizer que não falei das flores”

Comentário:

Intrigante, esta mulher que participa do cortejo. Pequeno detalhe: ela observa tudo e terá motivo suficiente para dizer muito mais do que um álbum de fotografias poderia dizer. Dirá que não somente ela estava presente, mas que viu o que o fotógrafo não soube registrar. Ela contará novas histórias aos seus filhos. Falará bem ou mal de seus parentes. Contará outras histórias: até de flores que, no entanto, não existiam... neste momento do ano!


Concluindo:

“Se considerarmos a comunicação do ponto de vista privilegiado da linguagem, vamos descobrir que a imagem visual é sem igual no que diz respeito à sua capacidade de despertar; que a sua utilização para fins expressivos é problemática; e que, reduzida a si-mesma, a possibilidade de se igualar à função enunciativa de linguagem lhe falta radicalmente”[10].

Diria até mais. A fotografia, tanto como a história oral (e, esta última, muito melhor ou, pelo menos, diferentemente da história escrita) por ser, a primeira, uma visualidade “suspensa no tempo e no espaço”, e a segunda, uma “memória reativada” e uma “enunciação suscitada” pela contemplação de um registro visual (uma fotografia, um desenho...), deveriam nos lembrar o que constitui e alimenta toda e qualquer emergência do pensamento humano. Nossos órgãos sensoriais, por um lado; o que nos é dado para ver e contemplar, por outro. Na interseção, enfim, a sempre necessária enunciação e nomeação, que haveremos de fazer daquilo que tivermos observado pessoal ou coletivamente.

Sem negar, assim, que as “imagens” do mundo, dadas a ver ao homem, possam lhe chegar já estruturadas internamente (forma, volume, movimento, cores...) pelo próprio dispositivo visual, resta salientar que a enunciação dessas imagens me parece fundamental para explicar a passagem dos “perceptos” aos “conceitos” e, conseqüentemente, a constituição de um pensamento no sentido mais estrito do termo. As imagens são aparentemente silenciosas. Sempre, no entanto, nos provocam e nos conduzem a uma infinidade de discursos em torno delas. Deste ponto de vista, valeria a pena se perguntar por que o que “foi visto” no sonho, imperativamente apela a “fala” do sujeito do sonho (e do analista), na tentativa, precisamente, de dar sentido a essas construções do real, do imaginário, do consciente e do inconsciente humano.

O que nos permite tanto hoje como nos primórdios do mundo, passar desses “perceptos”, dessas percepções, sensações e emoções vividas, a “conceitos”? Ou seja: o que permite formalizar nossos pensamentos? Essencialmente, penso, as imagens mediadas pelas falas. Entre as imagens e as histórias orais existem uma conivência e cumplicidade uterinas.

Barthes tinha razão ao falar do “óbvio” e do “obtuso”, procurando reencontrar a imagem da mãe que o ensinou a descobrir, dizer e pensar as coisas deste mundo; Gregory Bateson tinha razão ao procurar, sempre, a “estrutura que liga” os seres vivos, a natureza e o pensamento. O “Vovô” tinha razão, no alto dos seus 86 anos de humildade e percepção da condição humana, ao assinalar que “estava fazendo sua última e muito bela viagem”. Todos nós, de fato, estamos apenas de passagem.

Campinas, Julho de 2000


* Professor do Programa de Pós-Graduação em Multimeios e Coordenador Científico do Centro de Memória  (CMU), ambos da UNICAMP. 


[9]  “Sentinela”: velório no interior de Pernambuco, Alagoas, Ceará, Quarto de Paraíba e Rio Grande do Norte e também no Ceará, onde ainda denominam Guarda, o mesmo que em S.Paulo , onde é conhecido por Guardamento, citado por Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro, vol.2, Brasília, INL – Ministério da Educação e Cultura, 3ª ed., 1972, p.798.

[10] GOMBRICH, Ernst. “L’image visuelle”,.In: ______.  L’écologie des images.  Paris:  Flammarion, 1983.  p.323-349, aqui, p. 323.


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