“Memórias antropológicas” em torno de um álbum fotográfico : 
Fotografia, morte e história II
Etienne Samain*

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Proponho-lhe uma dupla trajetória. Cabe contemplar primeiro essas 19 fotografias, na ordem de apresentação do álbum concebido e organizado pelo fotógrafo. Eis o que chamarei de modo maior da realidade, isto é, o registro das cenas e das etapas que pontuam um efetivo ritual de passagem: o ritual que separa o morto da comunidade dos vivos e, paralelamente, o ritual de sua reintegração necessária à comunidade dos mortos. O ritual do enterro é um ritual de passagem, na medida em que o defunto já não pertence mais à comunidade dos vivos, mas não é ainda membro pleno da comunidade dos mortos. O morto vive, por assim dizer, à margem de duas realidades antagônicas: a vida e a morte. É necessário, portanto, resolver essa ambigüidade: o morto tem que deixar o mundo da cultura e voltar ao mundo da natureza. Ele deve deixar a sua casa para voltar à terra. O que veremos num primeiro percurso é a dimensão óbvia do registro fotográfico.

Num segundo momento, convidarei-os a descobrir o que chamaria de modo menor da realidade[7], a saber esses pequenos detalhes, aparentemente sem importância que, entretanto, trazem consigo um peso adicional de significações. Esta será a dimensão obtusa dos mesmos 19 registros fotográficos.

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Fabi08 Fabi09 Fabi10 Fabi11 Fabi12
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Primeiro Percurso: um ritual de passagem, o “óbvio” de Barthes

O álbum termina aqui. Ele não nos apresenta o que aconteceu depois do enterro. Mas posso dar-lhes essas informações complementares. De modo geral, sobretudo por ocasião da morte de um avô querido, a família reservava um local (restaurante, albergue) na cidade para receber todos os parentes e amigos presentes e participantes do enterro. Uma boa sopa quente era servida, logo após o enterro, quando os parentes próximos, ainda inconsolados, rememoravam as facécias do defunto. Sem sabê-lo, faziam um exercício de história oral de primeiro grau. Mas, pouco a pouco, o clima de luto, também, se dissipava. Reunidos em torno de uma grande mesa, parentes e amigos reencontravam-se e, com a ajuda do vinho ou da cerveja, estreitavam novos laços de afeição e de ternura. O “Vovô” tinha morrido, mas conduzia a festa: escondido para sempre debaixo da terra, “vovô” trançava os pequenos nós de que lhes falei, a “estrutura que liga”, as alianças que se ofereceriam, um dia, a outros amantes da vida e da estrutura que liga a natureza, o afeto e o pensamento.


* Professor do Programa de Pós-Graduação em Multimeios e Coordenador Científico do Centro de Memória  (CMU), ambos da UNICAMP. 


[7]Devo a expressão “modo menor da realidade” a Albert Piette, um jovem sociólogo, atualmente Mestre de Conferências na Universidade de Paris VIII e membro do Centro de Estudos Interdisciplinares dos Fatos Religiosos do CNRS-EHESS. Ele é autor de vários livros: Les Jeux de la Fête (1988), Les Religiosités séculières (1993) mas, também, Le Mode Mineur de la Réalité. Paradoxes et Photographies en Anthropologie, Louvain-La-Neuve, Peeters, 1992 e Ethnographie de l´Action. L´Observation des détails, Paris, Métailié, 1996). Essas duas últimas obras me interessam particularmente na medida em que formulam propósitos audaciosos, semelhantes aos de Balinese Character de Gregory Bateson e de Margaret Mead [1942] e, ao meu ver, suscetíveis de proporcionar uma reflexão muito interessante para a antropologia visual.

Resumidamente: o autor apresenta o modo menor da realidade como algo que se interpõe de maneira sutil entre a estrita conformidade e o que seria uma total ruptura do indivíduo com as normas sociais. Mediações do comportamento social que transitam entre a regra e a não-regra, o modo menor são as identificações laterais, uma certa zombaria (dérision), uma certa indeterminação entre “pegar” e “largar”. Atenção distraída, atitudes insignificantes, conivência de situações a priori incompatíveis, mas sempre carregadas de significação. Este campo carece de um quadro teórico e de uma metodologia adequada, e é neste sentido que as obras de Piette se desenvolvem. Nelas, a noção de paradoxo é apresentada como o fundamento de uma problemática teórica e conceitual, e a imagem fotográfica, como suporte metodológico apropriado à observação e análise, já que se adequa bem ao registro do efêmero. O modo menor da realidade constitui-se, desta maneira, em um amplo campo de observação etnográfica, que ocupa, entretanto, um papel secundário, insuficientemente explorado nos estudos tradicionais.


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