“Memórias antropológicas” em torno de um álbum fotográfico : 
Fotografia, morte e história I
Etienne Samain*

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Para Godelieve .
Seu avô continua cantando feliz

É possível que os leitores, conhecendo a obra de Barthes (do segundo Barthes, o autor do A câmara clara) e minha admiração com relação a esta obra, pensem que falarei da fotografia na sua relação com a morte, da fotografia enquanto “golpe e corte” no tempo e no espaço (Philippe Dubois[1]), da fotografia enquanto momento de ruptura decisiva entre um “isto é” e o “isso-foi” de Barthes[2]. Não será este o propósito desta comunicação.

Retomarei, sim, Roland Barthes, quando estabelece a sua famosa distinção entre o studium e o punctum da fotografia. Trata-se da distinção entre a fotografia enquanto algo que se apresenta ao meu intelecto como campo e objeto de estudo, como terreno de um saber e de uma cultura que posso compreender, desvendar e enunciar nos moldes da ciência (o óbvio da fotografia) e, por outro lado, a fotografia enquanto algo que se oferece ao meu afeto como um detalhe que me transpassa existencialmente, me fere, me comove ou me anima, como um silêncio que me fascina e me perturba ao mesmo tempo (o obtuso da fotografia).

Sabemos que em A câmara clara, o studium, isto é o “óbvio” da fotografia, não interessava diretamente a Barthes. Este procurava entender e elucidar, sobretudo, a questão do punctum, do “obtuso” presente na fotografia (o “detalhe”, mas também e sobretudo, o “tempo”, presentes na fotografia). Gostaria, todavia, hoje, ao retomar essa dupla categorização barthesiana, de ver em que medida a distinção entre studium e punctum, transposta para o campo da antropologia, poderia adquirir e carregar-se de novas significações, que não se restrinjam apenas a uma dicotomia e oposição entre, por um lado, “o que se apresenta ao meu intelecto” e, por  outro, “o que se oferece ao meu afeto” através da fotografia[3].


 Roland Barthes (1915-1980)[4] e Gregory Bateson (1904-1980)[5]

Para tanto, apresentarei um álbum de família, álbum um tanto singular na medida em que vai retratar, visual e seqüencialmente (num movimento quase cinematográfico) o cerimonial de um enterro. Como antropólogo, debruçar-me-ei, efetivamente, sobre um “tema/objeto de estudo”, ou como diria ainda Barthes sobre um claro studium fotográfico e, consequentemente, sobre o que o autor teria qualificado de “óbvio” da fotografia. Antes de realizar esse percurso e de lhes apresentar este “óbvio”, quero, todavia, introduzir três questionamentos:

1) O que seria o óbvio na seqüência que veremos? 2) Será que esse óbvio é tão óbvio assim? 3) Será que existe um óbvio que não seja, por necessidade, atravessado por algo obtuso? 4) Será que o obtuso deve ser reduzido ao que “se oferece ao meu afeto”, em oposição ao que “se oferece ao meu intelecto”?

Não se trata de fazer uma apologia a Barthes, menos ainda criticá-lo. Creio que Barthes tinha razão, em 1980, ao levantar a distinção entre o “óbvio” e o “obtuso”, entre o studium e o punctum na fotografia. Ao fazer essa distinção, Barthes jogava novas luzes sobre um  mundo de trevas. Fino observador e, neste sentido, um antropólogo nato, delineava em A Câmara clara apenas o prelúdio de um empreendimento que teria sido muito maior, não fosse a morte que o levou. Refiro-me à tentativa (segundo a bela expressão que atravessa toda a obra de um outro grande pensador: Gregory Bateson) de “procurar a estrutura que liga”, na fotografia, o óbvio ao obtuso, o intelecto ao afeto, o pensamento ao imaginário, mas, também, fora dela, eles (os seis elementos) a ele (Barthes) e o próprio Barthes a nós todos, seus leitores e, nós todos, à mãe que o autor não conseguia nos mostrar.

Para descobrir essa “estrutura que liga”, Barthes (como Bateson) deve, num primeiro momento, ter, a meu ver, refletido necessariamente sobre a natureza singular dos pólos (cognitivo e afetivo) que, tanto na fotografia como no ato de contemplação da fotografia, se encontram engajados e, por assim dizer, entrelaçados, constituindo a estrutura subjacente a toda fotografia.

Uma estrutura profunda (cognitiva e afetiva) presente em toda fotografia mas, ao mesmo tempo, uma estrutura profunda que excede e ultrapassa o mero “campo” material da própria fotografia, coligada que está, por sua vez, a outras estruturas relacionais e comunicacionais, externas a ela própria: o operator e o observator, aquele que fez a fotografia e aquele que observa a fotografia, Barthes e cada um de nós, nós todos e nossas histórias particulares, as nossas histórias singulares e as histórias de nossos pais, a história do feto que Barthes e vocês, leitores, foram, um dia e – antes disso – a história do nascimento da animalidade e a história da emergência da vida e da morte; mas ainda a história do nascimento da sombra e da luz, a história dos seus olhos que aprenderam a ver e a não poder ver, a história das representações humanas e da perspectiva, a história das imagens que fabrico e das imagens que vocês concebem para tentarem se entender. Todas essas histórias estão inscritas em mim e em vocês, mesmo que elas não sejam imediatamente legíveis dentro de nós, de Barthes ou de Bateson.

É neste quadro reflexivo e existencial da “estrutura que liga” que me proponho a lhes mostrar, agora, um álbum de fotografia, numa perspectiva, todavia, menos abrangente do que aquela à qual acabei de me referir, já que a minha perspectiva/o meu ponto de vista será o de um antropólogo.

Fabi02Recebi há pouco mais de cinco anos esse pequeno álbum de família. Um álbum de família, é verdade, singular, já que trata de uma seqüência de 19 fotografias, P&B, no formato 10,5X15, realizadas por um fotógrafo profissional, na Bélgica, no inverno de 1957, a pedido da família.

FabiSobre a capa dura preta do álbum aparecem impressos, em letras prateadas, os seguintes dizeres: “Ter Nagedachtenis” (o que, em língua flamenga, significa: “Em memória”, “Em lembrança”). Trata-se, em suma, de uma “reportagem” fotográfica do enterro do avô da minha esposa, um homem de pouco mais de 86 anos de idade, que gostava muito de cenouras, sobretudo de cenouras refogadas[6].

Numa manhã fria de Janeiro de 1957, ele foi ver a sua horta e, possivelmente, sonhou, pela última vez, com a sua futura safra de cenouras. Pois ao voltar para dentro de casa tinha contraído uma pneumonia e iria morrer. Como era católico e recebia, a cada primeira sexta-feira do mês, a eucaristia, os seus parentes, ao ver que o seu estado físico piorava, chamaram o pároco para lhe dar a unção dos doentes. Seja dito de passagem, o bom vigário veio e, para reconfortar o velho homem, disse-lhe: “Senhor Viktor, o senhor vai ficar bom outra vez, viu!”. Mas como os agonizantes são sempre muito mais lúcidos do que os vivos, a resposta foi, também, muito clara: “Não, seu vigário... vai ser a minha última viagem e vai ser muuuito boa!”. E assim que se foi o “Vovô” Viktor.

Se vocês me perguntarem como se desenrolava o cerimonial do enterro, quarenta anos atrás, na Bélgica, confesso que teria muita dificuldade para lhes responder com precisão. Por meio da seqüência de fotografias que descobriremos a seguir, é possível, entretanto, efetivamente reavivar com nitidez camadas inteiras de lembranças e de emoções escondidas na escuridão da minha memória. Mais ainda, essas fotografias, como veremos, vão nos conduzir à descoberta de associações e de significações que, mesmo se eu tivesse estado presente no enterro do “Vovô” Viktor, quarenta anos atrás, não teria conseguido estabelecer e fixar na época.

Em outras palavras: as velhas lembranças que as fotografias do enterro do “Vovô” Viktor fazem aflorar dentro de mim hoje não são meras recordações. São recordações e lembranças que, passando e perpassando outras camadas de um saber adquirido no intervalo (no meu caso, toda uma formação antropológica e teológica), chegam a mim carregadas de um peso adicional de significações, de outros pequenos nós (cognitivos e afetivos) que participam dessa “estrutura que liga” que a fotografia, mais do que outros suportes comunicacionais, permite ressuscitar e recompor. A fotografia - e, muito fortemente, também, a história oral - tem o privilégio de reavivar, com particular vigor, blocos de lembranças enterradas nas nossas memórias. Ao ressuscitarem essas lembranças, tanto a fotografia quanto a história oral nos levam a refletir sobre esse passado a partir de outros horizontes vivenciais adquiridos no ínterim: o que vivemos, o que aprendemos; em suma: a nossa história individual e coletiva.


* Professor do Programa de Pós-Graduação em Multimeios e Coordenador Científico do Centro de Memória  (CMU), ambos da UNICAMP. Agradeço encarecidamente a Fabiana Bruno e Fraya Frehse. A primeira é responsável pelo trabalho técnico referente à edição deste ensaio. A segunda, pela revisão crítica, sempre lúcida, deste.


[1] DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros Ensaios.  Campinas : Papirus Editora, 1994.

[2] BARTHES, Roland.  A câmara claranota sobre a fotografia.  2. ed.  Rio de Janeiro : Editora Nova Fronteira, 1984.

[3] Para ser completo, é bom lembrar que ao lado do studium (o “óbvio” da fotografia), ao lado do punctum (o “obtuso” da fotografia), Barthes realçará um terceiro nível presente em toda fotografia: o nível simbólico. Ver Barthes, Roland. “Le troisième sens. Notes de recherche sur quelques photogrammes de S..M. Eisenstein” [1970], artigo publicado in O óbvio e o obtuso, Lisboa, Edições 70, 1984. No segundo percurso que faremos das fotografias deste álbum, teremos  a oportunidade de desvendar concretamente esse outro nível simbólico.

[4] Sobre o semiólogo Barthes, ver a biografia assinada por Calvet, Louis-Jean. Roland Barthes. Uma biografia, São Paulo, Editora Siciliano, 1993 [or.1990].

[5] O antropólogo inglês Gregory Bateson permanece insuficientemente conhecido do público brasileiro. Este gigante e refinado intelectual trabalhou, de 1950 até sua morte, as questões da comunicação humana de um ponto de vista antropológico. Ver Winkin, Yves. A nova comunicação. Da teoria ao trabalho de campo, Campinas, Papirus Editora, 1998.

[6] Viktor Schilders (* 28.10.1870 – † 17.01.1957).


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