Fragmentos dos diários escrito e fotográfico de Cardoso de Oliveira na região dos Ticuna do Rio Alto Solimões.
João Martinho de Mendonça

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Introdução

(...) E nem sequer podemos confiar em nossa visão de desterrados: a própria vontade de partir tem seus motivos pessoais, que podem alterar o testemunho. Esses motivos também precisarão ser ditos, se quisermos justamente ser verdadeiros; não porque a etnologia seja literatura, mas porque, pelo contrário, ela só deixa de ser incerta se o homem que fala do homem não traz por sua vez uma máscara. (...)

M. Merleau- Ponty, in Signes, Paris, Gallimard, 1960 [1]

O presente trabalho é uma parte de minha dissertação de mestrado, defendida no departamento de Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp, sob a orientação do professor Etienne Ghislain Samain. Esta dissertação procurou revelar a importância histórica e antropológica do acervo fotográfico de Roberto Cardoso de Oliveira, etnólogo que iniciou suas pesquisas etnográficas nos anos cinqüenta com os índios Terena do Mato Grosso e com os índios Ticuna do Rio Alto Solimões, passando posteriormente a se dedicar à vida acadêmica como professor, sendo hoje amplamente reconhecido por sua produção intelectual no campo da hermenêutica. Ao longo de sua trajetória ele constituiu uma rica coleção imagética, doada em fins dos anos oitenta ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), localizado na Unicamp. Nosso interesse por suas imagens fotográficas propiciou a abertura de um diálogo, aqui disponibilizado na íntegra, mostrando as reflexões partilhadas com ele sobre os temas tratados na dissertação. Além da entrevista (disponível para download), apresentamos agora um exercício de rememoração acerca da expedição de 1959, reunindo fotografias e trechos de seus diários de campo entre os Ticuna.

Diário da expedição de 1959: Texto e imagem

Apresento a seguir algumas passagens escritas por Cardoso de Oliveira sobre a ocasião e os resultados de sua pesquisa na região do Rio Alto Solimões, cuja área está assinalada no mapa. 

Tanto os textos dos diários como as fotografias estão datados e são apresentados obedecendo a seqüência original. As fotografias eventualmente relacionadas a passagens dos diários estarão próximas ao referido texto em miniatura clicável. Para ler a legenda relativa à imagem e vê-la ampliada basta clicar sobre ela. 

Vale lembrar, enfim, que este exercício é experimental e seu objetivo é sugerir outra eventual maneira de reutilizar as fotografias do acervo. Assim, as identificações, quanto às datas das fotografias e quanto aos seus temas, não são exatas e servirão apenas para situar melhor as imagens vistas. Um etnógrafo especializado nos Ticuna (ou o próprio autor das imagens), por exemplo, certamente enriqueceria em muito o material apresentado, mas isto seria outro trabalho. Basta, por ora, mostrar imagens e texto de forma a tornar possível o questionamento dos papéis recíprocos de ambos na pesquisa e na reflexão.


FRAGMENTOS DOS DIÁRIOS ESCRITOS E DO DIÁRIO FOTOGRÁFICO

“Decidi-me pelos Ticuna por duas razões básicas. A primeira é que eles se encontravam numa área de fronteira e eu acreditava que isso tornariam ainda mais complexas as relações entre índios e brancos, que estariam marcadas não apenas pela etnicidade, mas também pela nacionalidade. A segunda razão bastante forte era que se tratava de um grupo indígena razoavelmente conhecido, especialmente devido à monografia de Curt Nimuendaju, texto que certamente iria ser da maior utilidade para a realização de uma pesquisa de campo de tempo curto, pois a verba disponível pouco dava para dois meses de campo.”

 “Ticuna/ 1959. Excertos de um diário de campo” Op. cit.  (1998).

“Examinemos os índios de igarapé. Acham-se eles congregados, em sua maioria, nos igarapés Belém, Tacana e São Jerônimo, que deságuam na margem esquerda do Solimões, entre Benjamim Constant e São Paulo de Olivença. Nesses rios todos os Ticuna estão engajados no trabalho de extração do látex para três grandes proprietários da região. Dois deles (o do Belém e o do São Jeronimo) residem na sede de suas respectivas empresas, na boca dos igarapés; o terceiro, residente na cidade de Manaus, conta com um empregado para administrar seus interesses no Tacana. Os três igarapés têm suas cabeceiras em território colombiano, o que dá para os Ticuna neles residentes uma oportunidade de escaparem do controle das empresas, quando isso se faz necessário, seja para vender melhor os seus produtos, seja para fugirem aos maltratos recebidos dos empregados do Seringal. Toda produção indígena, por sua vez, é canalizada quase compulsoriamente para o barracão, e as relações de trabalho engendradas por esse sistema assumem as mais variadas formas, todas, entretanto, marcadas por um conflito potencial. A falta de autonomia dos Ticuna dos seringais dá-lhes um status de “nação ocupada” – se nos é lícito usar o paradigma.”

O índio e o mundo dos brancos, Op. cit. (1996), p. 75.

“Não há talvez situação interétnica mais propícia para a plena fomentação de preconceito “racial” do que a encontrada no Alto Solimões; e os casos demonstrativos dessa asserção poderiam ser enumerados ad nauseam .”

Ibid. (1996), p. 156.


[1] Tradução de Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira: Signos, São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1991, p. 130.


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