Era assim a folia de Momo
Olga Rodrigues de Moraes von Simson

 Carnaval Veneziano   |   Folião carnavalesco   |   Breque da esperança

Textos de Olga Rodrigues de Moraes von Simson sintetizados pela jornalista Marília Balbi para D. O. leitura/cultura, nº 167, São Paulo, fevereiro de 1998, Imprensa Oficial do Estado – Secretaria de Estado da Cultura.

Você me conhece? Era uma brincadeira típica do carnaval no século passado, conhecido como entrudo - primeira manifestação carnavalesca que existiu em nosso pais. Era um conjunto de folguedos típicos das aldeias da Península Ibérica ligados às práticas sócio-culturais da Europa pré-cristã e para cá transplantados pelos colonizadores lusitanos.

A brincadeira era comum em pequenos aglomerados urbanos: um fantasiado tipo dominó, usando máscara no rosto, capuz e luvas, ao se encontrar com um parente ou conhecido começava a relatar, numa voz de falsete, aspectos íntimos da vida do interlocutor para, no final das descrições e insinuações soltar a frase: "você me conhece"? e afastar- se rapidamente.

Outra brincadeira de entrudo descrita pelo viajante John Mawe na cidade de São Paulo em 1807: "... homens e mulheres se divertiam atirando uns sobre os outros limões e laranjas de cera, cheios de água perfumada". Salientavam as batalhas aquáticas com seringas ou bisnagas ou até mesmo baldes ou tinas, quando os ânimos se exaltavam. Esta série de brincadeiras que formavam os jogos do entrudo eram realizadas nos três dias que antecediam o início da Quaresma, além do consumo de comidas típicas. Homens e mulheres brancos participavam igualitariamente da brincadeira. Um período usado pelas mulheres de família para expressar suas preferências amorosas de maneira mais clara e direta. Provavelmente muitos namoros e

casamentos tiveram seu início nessa fase mais liberal do ano. Enquanto as mulheres negras escravas preparavam os limões e as laranjas de cheiro e serviam de alvo para os banhos e enfarinhamentos produzidos pelos homens negros e não podiam reagir a esses ataques; as únicas atitudes que restavam era a fuga ou usar roupas velhas e desbotadas nesses dias festivos.


Carnaval Veneziano

 A partir de 1855 uma nova maneira de festejar os dias de Morno foi introduzia em nosso país. Copiando costumes europeus (franceses e italianos), homens das camadas mais abastadas, principalmente estudantes universitários, profissionais liberais e ricos comerciantes, fundaram as Sociedades Carnavalescas, associações destinadas a promover grandes cortejos pelas principais ruas e praças dos centros urbanos e bailes luxuosos em hotéis, teatros ou em suas próprias sedes com a intenção de divertir o povo. Mas, tanto durante os desfiles formados por grandes carros alegóricos, animados por bandas e músicos, como nos animados bailes de máscaras as mulheres de família não podiam tomar parte ativa, ficando como espectadoras da folia de Morno. Postadas nas janelas dos grandes sobrados ou nos camarotes dos teatros para "assistir ao Carnaval", recebiam flores, doces, confeites, homenagens e bilhetinhos, mas não podiam participar ativamente da folia; embelezavam o cenário, como ainda é hoje, um foco de endeusamento por parte dos membros masculinos das associações, mas não tinham chance de se tornar "partners" ativas nas mascaradas.

O romancista José de Alencar, um dos promotores e grandes entusiastas dessa nova forma, "mais civilizada", de se brincar o carnaval, parece ter recebido reclamações de mocinhas de família, aliadas dos novos folguedos, pois em 1855 prometeu a elas: “que os diretores do Cassino iriam fazer um baile de máscaras, no qual elas pudessem tomar parte e não ser simples espectadoras como nos teatros" - em Encida - História do carnaval carioca.

As grandes folionas do carnaval à veneziana foram as "mundanas" (prostitutas e artistas de teatro), principalmente as de origem estrangeira que, já tendo algum conhecimento desse tipo de folguedo em seus países de origem, funcionaram como "professoras da folia" introduzindo os paulistanos rústicos, recérn-enriquecidos pelo "boom cafeeiro", nas novas formas europeizadas de festejar o deus Morno. Eram elas que, ricamente fantasiadas, adornavam os carros alegóricos nos préstitos carnavalescos e mais tarde dançavam e ceavam com os membros das Sociedades Carnavalescas nos bailes dos teatros ou dos hotéis de luxo. A propaganda carnavalesca publicada pelas sociedades nas vésperas do Morno nos jornais da época (Correio Paulistano, A Província de São Paulo e O Commercio de São Paulo entre 1885 e 1915) convidava carinhosamente as mundanas: "Diletas filhas do amor; Alai pois borboletas! Nymphas aia!! Vinde a nós todas! Filhas do pecado! Corre!, voa! aos nossos braços... ao prazer sem fim!"

As mulheres jovens das famílias abastadas, entretanto, não se conformaram por muito tempo com esse papel de deusas passivas da folia e nos primeiros anos do século atual caleças e tílburis começaram a desfilar levando grupos de mulheres fantasiadas pelas principais ruas, praças e avenidas da cidade, nas tardes dos dias de Carnaval. Em São Paulo esse costume era conhecido como "fazer o giro do Triângulo", isto é, percorrer as ruas principais do centro urbano paulistano (ruas Direita, XV de Novembro e São Bento) ricamente fantasiadas, participando da folia sem, no entanto, se misturar com as camadas populares, pois o veículo mais elevado as mantinha isoladas e em nível superior. Mas como diz Jorge Americano, em São Paulo naquele tempo (1895-1915): "Durou pouco o corso na cidade. Entre 1910 e 1915 foi transferido para a Avenida Paulista". Na primeira década do século XX esta já começava a se definir como a artéria elegante da cidade. Ampla, arborizada, permitindo dupla mão de direção, abrigando os ricos palacetes de alguns fazendeiros e principalmente os dos imigrantes recém-enriquecidos, foi o palco escolhido pela burguesia para seu desfile carnavalesco, no qual as filhas casadoiras, ricamente fantasiadas, eram destaque sobre as capotas arreadas dos carros, as quais eram recobertas de belas colchas bordadas. A proteção familiar ao rebanho aparecia nitidamente, pois pais ou irmãos mais velhos, além do chofer, se faziam presentes em todos os automóveis.

Essa manifestação carnavalesca tinha para os membros da burguesia uma dupla função: permitia demonstrar publicamente, tanto para seu próprio estrato social, como para o povo em geral, seu poderio econômico expresso no carro importado, ricamente enfeitado com flores e ricas colchas bordadas e nas fantasias das mulheres que ocupavam a posição de destaque do desfile. Maior liberalidade no folguedo propiciava o início de relacionamentos amorosos com a ajuda do lança- perfume, do confete e da serpentina, embora sob os olhares vigilantes da família.

Mais para o final do século XIX e já no inicio do XX, começaram a surgir os bailes populares em salões e teatros, onde os homens pagavam uma pequena taxa, mas a entrada das mulheres era geralmente gratuita. Esse era o grande divertimento das mulheres jovens de vida mais livre da camada popular; para as mulheres "de família" dos estratos mais simples só restava o papel de espectadoras dos desfiles burgueses ou o perseguido brinquedo do Entrudo, no período que antecedeu o aparecimento e o reconhecimento institucional dos folguedos populares.


Folião carnavalesco

O primeiro folguedo carnavalesco de caráter lúdico popular dos "negros crioulos", apesar de haver se originado das antigas procissões coloniais e não apresentar nenhuma mulher em sua estrutura, está ligado aos Caiapós - uma dança para representar a morte e a ressurreição do pequeno cacique caiapó.

A encenação foi realizada ao longo dos séculos 18 e 19, durante as pomposas procissões coloniais, ocasião em que a população normalmente dispersa do burgo paulistano se reunia na cidade para assistir aos cortejos que, por essa época, possuíam um caráter misto profano-religioso. A dança dos Caiapós, apesar de ser realizada pela população pobre e negra, era aceita nesses cortejos solenes e colocada como abertura nos mesmos, porque funcionava como atrativo reunindo a população para assistir e acompanhar as procissões.

Mas, em meados do século 19, seguindo orientação da Metrópole, o divertimento foi banido dos cortejos religiosos porque não condiziam com o espírito de tais manifestações, e os Caiapós foram proibidos de desfilar nas procissões paulistanas. E foi encarada como coisa de "gente ruim", tendo de buscar um novo espaço no calendário festivo da cidade. Assim, os "negros crioulos" da Paulicéia transferiram sua dança, a partir da década de 1890, para o período carnavalesco. Por volta de 1910 o folguedo desapareceu da cidade, mas permanece até hoje em centros urbanos das zonas mais pobres do Estado durante o Carnaval, como em Ilhabela, ou nas Festas de Natal, Reis, Divino Espírito Santo e Sábado de Aleluia em Ubatuba, Piracaia, Mairiporã, ltapetininga ou São José do Rio Pardo.

Por volta de 1914 surge o primeiro cordão carnavalesco chamado de Grupo Carnavalesco da Barra Funda, denominado popularmente de Camisa Verde. Os cordões logo se viram obrigados a registrar-se na Secção de Divertimentos Públicos da Prefeitura Municipal.

Mas dançar fora do período carnavalesco era atividade malvista e reprimida pela polícia. Seu Zezinho do Morro da Casa Verde, sambista que vivenciou este período, conta como eram os carnavais daquela época: "Antigamente, quando eu aprendi a tocá, eu era vagabundo. Não podia pegá no violão que era vagabundo. Só vagabundo que tocava, não é? Não se podia formá... cordão ou bloco... Então era tudo vagabundo e a polícia chegava e arreava o pau... Então a gente corria. A polícia aparecia lá, tinha que debandá todo mundo. Se deixasse os instrumentos eles rasgavam... Os cordões, os blocos eram exclusivamente negro. O branco não podia entrá porque eles ficava afetado... a própria polícia, quando via um branco no samba ficava olhando o branco de lado, já premeditando que o branco... quer dizer é ladrão, é vagabundo, essa coisa toda... Então nóis corria. Mas tinha um lugar que eles não ia, era justamente na Vitorino Camilo, lá no fim... com a Conselheiro Brotero. Lá era tudo esburacado, então era lá que nóis fazia samba".

Durante o período carnavalesco os desfiles só eram realizados no domingo e na terça-feira gorda pois a segunda-feira de Carnaval era dia normal de trabalho. Além disso não havia um espaço definido para a realização dos folguedos da população negra da cidade. Eles saíam dos seus bairros de origem (Barra Funda, Bexiga e Baixada do Glicério, Vila Esperança) e andavam pela cidade, buscando os locais onde as brincadeiras estavam mais animadas, o que lhes garantia segurança de que podiam desfilar sem sofrer repressão policial. Iam para a Avenida Paulista, onde o corso burguês realizava seu desfile, mas só andavam pelas calçadas, porque o centro da rua era reservado aos automóveis que levavam as famílias ricas, com policiamento impedindo o acesso ao espaço central de populares e de comerciantes de artigos carnavalescos.

Os grupamentos de origem africana tinham de obter de maneira informal o seu espaço, só se sentindo realmente seguros nos “salões da raça", entre seus iguais. Nesse período, como os folguedos africanos não eram reconhecidos oficialmente pelo poder público, não havia qualquer tipo de subvenção ou ajuda financeira por parte da Prefeitura ou outro órgão público. Para reunir recursos para a montagem do desfile saíam a percorrer o centro da cidade, nos fins-de-semana do período pré-carnavalesco, angariando contribuições financeiras para cobrir os gastos do Carnaval. Era necessária a autorização dos delegados do bairro para os blocos saírem às ruas fora do período carnavalesco. E quando o tema apresentado pela agremiação no desfile carnavalesco tinha um caráter de crítica política, o próprio cortejo carnavalesco podia ser disperso com espancamento de seus integrantes.


Breque da esperança

Foi necessária uma resistência cultural, social e mesmo física para que aos poucos os negros fossem construindo suas próprias identidades. Um personagem é fundamental na conquista desse reconhecimento oficial do Carnaval de origem africana: a Escola de Samba Nenê da Vila Matilde. Os fundadores da escola de samba eram freqüentadores assíduos dos bailes de gafieira, conheciam e tinham amizade com outros negros de bairros diversos da cidade e já haviam acompanhado os desfiles carnavalescos de outros grupos no centro da cidade. Assim, embora economicamente fossem mais limitados do que seus vizinhos descendentes de espanhóis, possuíam, em termos de vivência carnavalesca, maior experiência e riqueza, o que lhes permitiu criar algo diferente e ousar, logo de início, uma integração ao universo mais amplo da folia momesca do centro urbano paulistano.

Luta e resistência, somadas às pequenas conquistas, até a oficialização do Carnaval há 30 anos no governo Faria Lima, em 1968. É que em setembro de 1967, já estruturados numa federação, que contava com urna diretoria, com gente da rádio e jornais mais populares da cidade, e com um conselho, integrado pelos sambistas da velha cepa (Seu Nenê, Inocêncio Tobias, Dona Eunice, Bitucha e Pé-Rachado), foram em comitiva solicitar ao prefeito Faria Lima (um carioca que compreendia e simpatizava com os folguedos carnavalescos populares) o apoio e a ajuda financeira necessários para a realização dos desfiles carnavalescos de 1968.

A grande força da Nenê da Vila Matilde era, até então, a sua bateria, introdutora da batida carioca no carnaval paulistano e especialista num tipo de samba cheio de "breques" que empolgava a torcida durante os desfiles. Foi com seus breques inesperados que a "Nenê", durante os anos 60, derrotou muitas vezes a Lavapés e a Unidos do Peruche. Nenê introduziu o ritmo e batidas cariocas, captados por Seu Nenê em visita ao Morro da Mangueira.

As escolas ao serem reconhecidas oficialmente são também transformadas em carnaval-espetáculo, capitalizado politicamente pelas autoridades e consumido pelos meios de comunicação, perdendo muito de sua autonomia. O padrão carioca, já testado com sucesso, é imposto pelas autoridades e a entrada no desfile, na década de 70, de novas escolas dirigidas por elementos brancos acentua o caráter de espetáculo hollywoodiano, em detrimento das raízes afro-brasileiras.


* OLGA R. DE MORAES VON SIMSON é professora de Sociologia na Unicamp, com doutorado na USP sobre As raízes socioculturais do carnaval paulistano - livro que será publicado ainda este ano. (N.T. este texto foi escrito em fevereiro de 1998).


Referências Bibliográficas:

Americano, Jorge. São Paulo naquele tempo (1895-1915). São Paulo : Ed. Saraiva,  1957.

Eneida. História do carnaval carioca. Rio de Janeiro : Ed. Civilização Brasileira, 1958.