Etnografia na rua e câmera na mão

Cornelia Eckert [1] e Ana Luiza Carvalho da Rocha [2]

| 1 | 2 | galeria | bibliografia |

Influenciadas por obras científicas [3]e literárias [4] sobre o deslocamento na cidade, tanto o caminhar quanto o passear, a idéia de desenvolver "etnografias de rua" nasceu com a proposta de projeto de pesquisa [5] intitulado «Estudo antropológico de itinerários urbanos, memória coletiva e formas de sociabilidade no mundo urbano contemporâneo». No decorrer de nossas experiências etnográficas na rua, no bairro, na cidade, a introdução de instrumentos audiovisuais como a câmera fotográfica e/ou a câmera de vídeo passa a fazer parte do nosso olhar e atitude de coleta de dados de pesquisa: o exercício de etnografia de rua, inclui então, "a câmera na mão".

A pretensão de aprofundar uma prática de "etnografia de rua", ou talvez fosse melhor dizer etnografia «na» rua, segue igualmente a proposta singular de observation flottante, como Colette Pétonnet [6] denominou o exercício de observação de pesquisa na rua.

Segundo advogamos na pesquisa sobre memória coletiva, narrativas e formas de sociabilidade, seja na cidade de Porto Alegre, seja na cidade de Paris, a técnica de etnografia de rua consiste na exploração dos espaços urbanos a serem investigados através de caminhadas «sem destino fixo» nos seus territórios. A intenção não se limita apenas a retornar o olhar do pesquisador para a sua cidade por meios de processos de reencantamento de seus espaços cotidianos, mas capacitá-lo às exigências de rigor nas observações diretas ao longo de ações que envolvem deslocamentos constantes no cenário da vida urbana. Um investimento que contempla uma reciprocidade cognitiva como uma das fontes de investigação, a própria retórica analítica do pesquisador em seu diálogo com o seu objeto de pesquisa, a cidade e seus habitantes. Uma vez que tal retórica é portadora de tensões entre uma tradição de pensamento científico e as representações coletivas próprias que a cidade coloca em cena, o pesquisador constrói o seu conhecimento da vida urbana "na" e "pela" imagem que ele com-partilha, ou não, com os indivíduos e/ou grupos sociais por ele investigados.

Deslocamentos marcados por uma forma de apropriação dinâmica da vida citadina, mas cuja apreensão pauta-se pela freqüência sistemática do etnógrafo em uma rua ou uma avenida, em um bairro ou uma esquina etc. Neste sentido a etnografia "na" rua consiste no desenvolvimento da observação sistemática em uma rua e/ou em ruas de um bairro e na descrição etnográfica dos cenários, dos personagens que conformam a rotina da rua e bairro, dos imprevistos, das situações de constrangimento, de tensão e conflito, de entrevistas com habitués e moradores, buscando as significações sobre o viver o dia-a-dia na cidade.

Fruto de uma adesão irrestrita do etnógrafo a uma ambiência urbana, escolha movida por amor ou ódio, à primeira vista ou não, pouco importa, a etnografia de rua, por insistência recorrente à poética do andarilho, ao inventariar o mundo na instabilidade do seu movimento, descobre um patrimônio intangível de formas que tecem as interações sociais num lugar. Assim, o ato simples de andar torna-se estratégia para igualmente interagir com elementos da população com os quais cruzamos nas ruas. Habitués, freqüentadores, ou simples passantes, todos eles motivam o etnógrafo a perfilar personagens, descrever ações e estilos de vida a partir de suas performances cotidianas. E todos são bons momentos para se retraçar os cenários onde transcorrem suas histórias de vida e, a partir deles, delinear as ambiências das inúmeras províncias de significados que abrigam os territórios de uma cidade.

Através da técnica da etnografia de rua, pode-se argumentar, o antropólogo observa a cidade como objeto temporal, lugar de trajetos e percursos sobrepostos, urdidos numa trama de ações cotidianas. Percorrer as paisagens que conformam um território, seguir os itinerários dos habitantes, reconhecer os trajetos, interrogar-se sobre os espaços evitados, é evocar as origens do próprio movimento temporal desta paisagem urbana no espaço. Mas para se apreender a cidade como matéria moldada pelas trajetórias humanas, e não apenas como mero traçado do deslocamento indiferente de um corpo no espaço, o antropólogo precisa recompor os traços aí deixados por homens e mulheres. Uma etnografia de rua não se sustenta como prática antropológica de investigação sem contemplar, desde seu interior, uma reflexão sobre o forte componente narrativo que encerra os deslocamentos humanos.

Para se atingir um tal componente narrativo, o etnógrafo precisa contar com o tempo como amigo, pois ele só o atinge quando a densidade de sobreposição cumulativa dos tempos vividos ao longo de um trabalho de campo, aparentemente fadado à «perda de tempo», se precipita diante dos seus olhos. Horas de um trabalho persistente de escritura depositadas na tela do computador, fitas de vídeo, películas fotográficas ou folhas de papel, sempre na tentativa do investigador aprisionar o efêmero, são, finalmente, recompensadas e encontram, enfim, uma gama de sentidos desvendados por um leque de conceitos.

Neste sentido, no âmbito do desenvolvimento de um projeto sobre estudos de narrativas como fonte de pesquisa para documentários etnográficos sobre a memória coletiva em Porto Alegre (desde 1997) e em Paris (2001), recorre-se à técnica de "etnografia na rua" como mais um exercicio que permite ao etnógrafo não apenas reconhecer e interpretar o "nativo", mas igualmente interpretar o seu si-mesmo no contexto do diálogo com o Outro.

Se a etnografia de rua se apoia no uso de recursos audiovisuais, como câmeras de vídeo ou fotografia, o olhar do antropólogo por vezes assume um lugar de destaque. Se em muitos momentos é a situação de interação a que irá introduzir o uso do equipamento audiovisual no trabalho de campo, em outros é a câmera de vídeo ou a máquina fotográfica que irá inserir o antropólogo no seu lugar de pesquisa.

No primeiro caso, o equipamento confirma o gesto da pesquisa naquilo que é captado como vivido humano no presente, seja o seu próprio, seja dos nativos, e mesmo de ambos. No segundo caso, as imagem registradas de instantâneos, quase sempre autorizadas, algumas até mesmo roubadas, não são apenas testemunhas do passado do «eu estive lá» do antropólogo. Elas podem exprimir o desejo expresso do nativo de ver-se «lá», eternizado na imagem capturada pelo olhar do antropólogo.

Atentas à questão ética em torno da fixação do olhar etnográfico pela imagem fotográfica e/ou videográfica, pode-se dizer que o uso de recursos audiovisuais durante uma etnografia de rua é uma intervenção que ora faz parte da caminhada de reconhecimento do antropólogo do seu lugar de pesquisa, ora configura-se como um momento de intervenção consentida pelos personagens já contatados. Sob este ângulo, o potencial interpretativo da imagem etnográfica já se apresenta no próprio contexto de interação que cria a sua situação de captação uma vez que o triunfo da imagem, fotográfica ou videográfica, no trabalho de campo revela este frágil instante em que o pesquisador ousa inscrever uma ruptura na interação com o Outro.

Imagem impressa em um negativo, acomodada em um papel ou transferida para a memória do computador, fotos coloridas ou preto e branco, decisão de enquadramentos, definição da velocidade (tempo), regulagem do diafragma etc., a técnica exige um aprendizado que não se processa sem que haja por parte do etnógrafo mediações conceituais. Em ambos os casos, fotografia ou vídeo, o processo posterior da descrição etnográfica, no diário de campo, associado ao da decoupage e edição das imagens, torna-se um rico processo de avaliação reflexiva da própria estética das imagens, distorcidas ou não, que habitam os pensamentos do antropólogo em situação de pesquisa de campo.


[1] Professora Dep. Antropologia e PPGAS/UFRGS, atualmente realizando pós-doutoramento, Bolsista Capes, Univ. Paris VII, Denis Diderot, Laboratoire d’Anthropologie Visuelle et Sonore du Monde Contemporain.

[2] Antropóloga do Laboratório Antropologia Social/UFRGS; atualmente realizando pós-doutoramento, Bolsista Cnpq, Univ. Paris VII, Denis Diderot, Laboratoire d’Anthropologie Visuelle et Sonore du Monde Contemporain.

[3] Referimo-nos entre outros a Walter Benjamin, Claude Lévi-Strauss, Colette Pétonnet e Pierre Sansot.

[4] Citamos entre outras as obras literárias de Charles Baudelaire, Marcel Proust, Henri Beyle Stendhal, Georges Perec e Italo Calvino.

[5] Projeto integrado Cnpq desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social na UFRGS, desde 1997, e que alimenta com dados de pesquisa o projeto Banco de Imagens e Efeitos Visuais, por nós coordenado, no âmbito do PPGAS/UFRGS, sediado no ILEA/UFRGS.

[6] Pétonnet, 1982.


| 1 | 2 | galeria | bibliografia |