Etnografia na rua e câmera na mão - II

Cornelia Eckert e Ana Luiza Carvalho da Rocha

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UMA CAMINHADA NA BABEL PARISIENSE

Em Paris, foi a oportunidade de desenvolver um programa de pós-doutoramento (2001) que nos possibilitou seguir nossas motivações iniciais de nos aventuramos em longas caminhadas pelas ruas que nascendo na Place de la République seguem em continuidade até o limite da cidade: Rue Faubourg du Temple e Rue Belleville.

Mapa na mão, livros de história da cidade e do bairro, folders turísticos, álbuns de fotografias publicados, fichas de documentários assistidos sobre o bairro [7] , visitas à Internet a partir da palavra-chave "Rue de Belleville", recorremos a estes como instrumentos importantes para dar os contornos e contextos etnográficos iniciais dos traçados a serem percorridos.

Sistematicamente nossas caminhadas iniciavam-se na Place de la République onde o trajeto da Rue Belleville tem o nome de Rue Faubourg du Temple e deste ponto, subindo em direção ao morro de Ménilmontant, sob os traços da linha de metrô Chatelet/Porte de Lilas, carrefour entre os arrondissement Xe, XIe, XIXe e XXe. Nos limites desta linha de metrô situam-se várias estações, inclusive a estação de Belleville, território nos arredores do qual podemos ainda descobrir pequenos fragmentos da ambiência antiga do vilarejo que ali existiu, preferido por artistas e poetas desde o século XVIII, encantados com o ar «mais salubre» e as habitações mais populares que existiam no local.

No trecho em que esta rua traz o nome de Rue Faubourg du Temple, ela concentra inúmeras moradias residenciais misturadas a uma paisagem pontilhada de várias casas comerciais que se sucedem, tais como boutiques tipicamente francesas, açougues, um clube de lazer privado, cafés, padarias, frutarias, livrarias, um cinema com filmes alternativos, lojas de aparelhos eletrônicos etc. Na altura do Canal San Martin, esta mesma rua torna-se mais estreita. Na esquina da direita, um restaurante MacDonald's e, na da esquerda, um café tipicamente parisiense parecem um pórtico de entrada para um mundo "das mil e uma noites". O comércio passa a ser dominado por proprietários de origem árabe com quinquilharias que avançam pela calçada buscando chamar a atenção do potencial cliente, além de algumas casas de produtos típicos do Paquistão, das Antilhas e da África.

Nestas lojas de "quinquilharias", vendem-se mercadorias diversas por unidades. Torna-se extremamente difícil manter os passos de forma regular posto que, ao longo do percurso, somos surpreendidas por produtos que invadem as calçadas, disputando espaço com os pedestres. Calçadas sempre lotadas, seja em horário diurno ou noturno, deslocar-se nesta rua é estar no meio de uma pequena multidão que se acotovela e a palavra «pardon» é escutada aqui e lá.

A divisa entre a Rue Faubourg du Temple e a Rue de Belleville situa-se no cruzamento com as grandes avenidas denominadas Boulevard de la Villette e Boulevard de Belleville (esta última conhecida por abrigar o ponto turístico do Cemitério Père-Lachaise). Um olhar mais atento às fachadas das casas comerciais confirma o multilingüismo como marca local. Ao lado do nome do estabelecimento boulangerie «X», pâtisserie «Y», coiffeur «Z» escrito em francês, noblesse oblige, encontramos regularmente as informações traduzidas na escrita chinesa, árabe, turca etc. Fechar os olhos nesta encruzilhada e escutar os sons em diversas línguas, uma polifonia de vozes, nos desvendam atores dialogando em francês, árabe, chinês, africano, português, nos fazendo lembrar da noção maussiana de mana na obra sobre a dádiva de Marcel Mauss, pois certamente este é um território onde se misturam as almas e as coisas.

Desde o início do empreendimento do exercício, portanto, fiéis à idéia de aprofundarmos as reflexões em torno da "etnografia de rua" como técnica destinada ao estudo dos itinerários urbanos e da memória coletiva no mundo contemporâneo, insistimos em caminhadas pela Rue de Belleville. Com estas intenções, nos deixamos levar por idas e vindas em ruelas que nos conduziram a belas e boas surpresas, como foi o caso da descoberta do Parque de Belleville, cujo acesso por uma pequena ruela, a Rue Piat, bordada à direita, com algumas antigas árvores herdadas das velhas alamedas ali existentes, esconde dos passantes a «bela vista» da cidade de Paris que dali se pode ter, sem precisar disputar com nenhum turista, o melhor ponto de visão.

Mantivemos caminhadas constantes na tentativa de se descobrir um bairro «no tempo de outrora» mas cujos indícios nos ligassem à atual Belleville. Esta foi a forma como tomávamos contato com os pequenos pedaços de paisagem que são quase invisíveis se comparados com a agitação da Rue de Belleville, como foi o caso da Rue de l'Hermitage. Nesta rua de traçado irregular, quase um beco, e que se situa à esquerda de quem desce a colina de Belleville, ainda se podem observar diminutos conjuntos arquitetônicos formados por aglomerados de antigos casarios, com seus jardins apertados por prédios de apartamentos. Todas estas casas baixas foram adaptadas às atividades de seus novos donos e/ou moradores, em geral artistas, num sinal da permanência da aura através da qual este pedaço tornou-se conhecido na memória da cidade.

Nos deslocamentos constantes, nos divertíamos com o fato de estarmos ora no XIXe arrondissement, ora no XXe arrondissement, uma alteração de posição no mundo que dependia de onde estávamos situadas, se de um ou de outro lado, à esquerda ou direita de quem desce a Rue de Belleville. Uma divisão administrativa que não alterava a paisagem da rua, e muito menos a feição do próprio bairro, assim como não produzia nenhum efeito de marcas diferenciais entre os estilos de vida dos moradores locais.

Retomando-se os diários de campo para fins de análise, somos atraídas pela cultura polifônica tratada por Bakhtin [8] e pelo seu conceito de heteroglossia para dar conta, aqui, da capacidade de convivialidade plural em Belleville, das questões de identidade étnica, das tensões inerentes à multiplicidade de línguas, dialetos e sotaques falados, dos arranjos nas formas de sociabilidade locais e das inúmeras formas estéticas que se tecem segundo as múltiplas e complexas formas de interação, eventos efêmeros ou eventos cotidianos e habituais que nos apresentam os referentes urbanos em que o contexto social se ancora.

Em especial, no que se refere a uso dos recursos audiovisuais, nossa opção foi, nesse momento, fotografar com uma câmera digital as cenas, personagens, situações e dramas que compunham a paisagem urbana de Belleville.

O uso sistemático da câmera fotográfica ou da câmera de vídeo nas caminhadas por estas ruas objetiva a reconstrução de uma narrativa a partir da própria temporalidade do registro da imagem no instante em que o acontecimento se desenrola sob nossos olhos, o que desencadeia a presença de outras imagens que nos habitaram em momentos e situações anteriores quando o olho que registrava não era o da câmera, mas o olho humano repleto de pequenas impressões mnésicas, experiências sensoriais, evocação afetiva de imagens de outras cenas urbanas, em outros bairros, cidades e países.


[7] Agradecemos à coordenadora de Assuntos Culturais do Forum des Imagens (Paris), Mme. Elise Tessarech, pela permissão concedida para pesquisarmos neste centro.

[8]   Bakhtin. 1992.

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