Aconteceu em Göttingen...

Clarice Ehlers Peixoto *

... a Conferência Internacional Origins of Visual Anthropology: Putting the Past Together, entre os dias 20-25 de junho, organizada pelo Institut für den Wissenschaftlichen Film/IWF e sob a coordenação dos antropólogos visuais Beate Engelbrecht e Rolf Husmann, que reuniu os grandes nomes da antropologia visual. Sem dúvida, um momento histórico, já que este foi o primeiro reencontro do grupo que participou da Conferência Internacional de Antropologia Visual de Chicago, em 1973, organizada por Paul Hockings e estimulado por Margaret Mead .

O evento foi inteiramente coberto pelas inúmeras câmaras videográficas e aparelhos fotográficos empunhados pelos estudantes do IWF e, é claro, pelos vários participantes. Essas imagens registraram a satisfação e a emoção da maioria dos palestrantes, principalmente de Paul Hockings, que fez questão de produzir fotografias com os remanescentes do "grupo de Chicago" e com o "novo grupo de Göttingen", agora formado pelos pioneiros e seus seguidores. Daquele encontro de Chicago, só não vieram os mortos (Margaret Mead, John Collier Jr., Timothy Asch, Edmund Carpenter, para citar os mais conhecidos) e aqueles que, por diversos motivos, não puderam comparecer (Jean Dominique Lajoux, Johanna Scherer, Faye Ginsburg ...).

Apesar das ausências, a Conferência de Göttingen reuniu aproximadamente 52 conferencistas, distribuídos em painéis e mesas-redondas nos quais se discutiu sobre os precursores do filme documentário, sobre os diversos métodos, estilos e abordagens, sobre os campos da antropologia visual e sua transformação em uma disciplina acadêmica, entre outros. Contudo, o que predominou foram as homenagens e biografias, entremeadas de muitas estórias de encontros e desencontros temperadas de humor, exaltação ou crítica severa nos momentos de maior controvérsia.

Os americanos formavam o maior grupo (vinte), o dobro dos alemães que sediavam o evento. Dizia-se nos bastidores que muitos deles foram financiados por suas próprias universidades. foto6Vindos das mais diferentes escolas americanas, ficou patente que não formam um grupo homogêneo no que concerne aos approaches da disciplina, a não ser no embate com os francofones! Estes formavam um grupo bastante reduzido: cinco somente. Os australianos eram o terceiro grupo mais numeroso (oito), se incluirmos o casal Judith e David MacDougall e Patsy Asch que agora vive e trabalha por lá. Além desses, participaram ainda ingleses, canadenses, dinamarqueses, um húngaro e um russo e nenhum italiano! Na platéia, quatro brasileiras !

Os debates deixaram transparecer a eterna querela, nos vários campos de conhecimento, entre anglofones e francofones e que, evidentemente, se estende à antropologia visual. Entre uma e outra alfinetada, os australianos procuravam passar panos quentes, assinalando as contribuições de uns e outros. Os debates apontavam para as diversas abordagens e métodos que caracterizam a interdisciplinaridade da antropologia visual e, principalmente, para as escolas em que se desenvolvem. Assim, não foi por acaso que o programa da Conferência dedicou uma sessão para a escola européia (francesa e belga, sobretudo) e outra para a escola americana. Ainda que ambas declarem possuir as mesma raízes - Robert Flaherty - os caminhos que trilharam tomaram rumos diversos: cinéma-vérité e observational cinema. Para Paul Hockings, o que diferenciaria uma escola da outra é que o observational cinema surgiu e se desenvolveu no mundo universitário (principalmente na University of California Los Angeles/UCLA), mantendo assim uma relação estreita com as ciências sociais, sobretudo com a antropologia. Por isso, prega a realização de planos mais longos que permitam observar mais finamente as atividades filmadas. Desenvolvido na UCLA por ele, Colin Young, Richard Hawkins e Mark McCarty, esse estilo de cinema antropológico é marcado pela forte implicação do antropólogo-cineasta na relação com as pessoas filmadas, pois "ele se dirige a elas" durante a filmagem. Já o cinéma-vérité, criado por Jean Rouch e Chris Marker, teve grande repercussão junto aos documentaristas europeus e americanos, mas não necessariamente se expandiu no mundo universitário europeu, exceto em uma ou outra universidade francesa.

O subtítulo da conferência - Putting the Past Together - já indicava um retorno às origens: Paul Hockings falou sobre o período crucial da antropologia visual (1967-1974), Luc de Heusch discorreu sobre a pré-história do filme etnográfico e Peter Crawford analisou a passagem do "filme etnográfico à antropologia visual". Mas, esse (re)encontro foi, fundamentalmente, uma exaltação aos fundadores da disciplina, vivos e mortos. Assim, desfilaram no palco da consagração Flaherty e Vertov, Margaret Mead e Gregory Bateson, John Collier Jr., Edmund Carpenter, John Grierson e vários outros. Homenagens controvertidas, pois nem sempre elas eram compartilhadas por todos como, por exemplo, o trabalho de Robert Gardner - apresentado por Karl Heider, seu parceiro em alguns filmes - e as referências a E. Richard Sorenson. Nesses momentos, o debate ficava mais acirrado e a temperatura do auditório do Instituto Max Planck aumentava ainda mais!

Richard Leacockfoto3Nessa seqüência de homenagens, o face-a-face entre biógrafo e biografado era, às vezes, constrangedor. Assim, Richard Leacock falou sobre Robert Flaherty e Christov Decker sobre Leacock, Sarah Elder e Gary Kildea biografaram Timothy e Patsy Asch e Patsy e John Bishop apresentaram o trabalho de John Marshall que, emocionado, contou sobre a longa convivência no Kalahari entre os Bushmen e seu envolvimento como ativista político e defensor da preservação da cultura desse povo. Jean Rouch falou pouco sobre a influência de Flaherty e Vertov e muito sobre suas aventuras cinematográficas, e Marc Piault apresentou o trabalho de Rouch.

foto2foto1Colin Young foi homenageado por Paul Henley e pelo casal MacDougall que, por sua vez, o foi por Ilisa Barbasch (enviou o paper). Ian Dunlop, Asen Balikci e Luc de Heusch também tiveram suas biografias e filmografias comentadas. Esses relatos eram entrecortados de testemunhos e confidências de muitos deles e nos mostraram facetas ocultas de vários deles. Assim, ficamos sabendo que John Collier Jr. perdeu a audição aos 10 anos de idade, ao ser atropelado por um caminhão, que Leacock rodou seu primeiro filme aos 14 anos, na plantação de bananas de seu pai, nas Ilhas Canárias (o filme foi apresentado à noite), que Jean Rouch foi o ultimo a filmar Margaret Mead pouco antes de sua morte, com cenas em que passeia no Central Park de New York, que Leacock foi co-diretor e fotógrafo de Flaherty em Louisiana Story e que John Marshall foi o fotógrafo de Frederick Wiseman em Titicut Folies, e que durante um seminário de antropologia visual (1968) Ian Dunlop e Colin Young acordaram na mesma cama, sem saber porquê, depois de uma noitada em NY.

foto7Muitas outras estórias foram contadas, algumas mais picantes do que as outras. Contudo, todas apontavam para o pequeno mundo da antropologia visual no qual esses personagens, há algumas décadas, circulam e se cruzam em seminários, cursos e conferências, mas também em festivais de filmes etnográficos e documentários. Dessa forma, Colin Young foi professor, na UCLA, da grande maioria dos anglofones (inclusive os australianos) presentes em Göttingen, assim como Jean Rouch foi mestre de muitos franceses.

foto4As noites eram dedicadas à exibição dos filmes clássicos da antropologia visual, seguida de debate com seus realizadores. Dois cinemas estavam reservados para os filmes da Conferência mas, sem dúvida, o Kino Lumière era o mais concorrido. Menos pelos filmes que apresentava (a programação era excelente nos dois cinemas) e mais pelo seu Café Kabale em cujo jardim, muito agradável, eram servidas saladas e sanduíches deliciosos e chope quase gelado, criando uma sociabilidade que o cinema do IWF não proporcionava.

Diria que este histórico reencontro terminou em estilo nada latino: um grande jantar fora da cidade, em um restaurante típico, cujas longas mesas de madeira deixavam pouco espaço para a circulação; passamos a noite conversando muito e fazendo projetos para novos encontros, já que música não havia e muito menos baile...



* Clarice Elhers Peixoto é professora no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (UERJ) e editora do Caderno de Antropologia e Imagem.