Projetos Especiais Studium

Fotografia em curso

Catálogo da exposição

PARALINO

Vanessa Myho

Texto

PARALINO

Existe um espaço entre nós.
Mas eu te vejo e te reconheço amigo, mesmo que nunca tenhamos nos encontrado antes.

Lembro que as crianças costumavam se sentar na cozinha, deitando-se no gelado do piso vermelho que acabaram de varrer, só pra se refrescar do calor comum daquelas tardes. Tem fotos de todos pela casa inteira. No corredor tem outra criança pendurada entre uma parede e outra, que nem homem-aranha, gritando pra papai ver o que ela sabe fazer. E ele está logo ali - ei! papai, veja aqui! - mas está tão concentrado que nem ouve os nossos barulhos. É sempre assim enquanto está fotografando alguma coisa no quintal, mais curioso pela câmera do que pela flor bonita que saiu naquela primavera. Acho que ele pergunta se aquilo tudo está funcionando. Por que ele faz isso? Não sei, e nem ele parece saber o porquê também, mas todos o respeitam com aqueles objetos curiosos, tão diferentes formatos e botões, alguns materiais translúcidos e frágeis, tanta dedicação que me inspira nos domingos. Tempo para sentir o cheiro da gata no tapete ainda morno. Tempo para ouvir a respiração cortada do meu irmão. Tempo para observar as plantas que atravessam o muro do vizinho. Tempo para uma conversa entre as grades. Tempo para revelar alguns filmes no fundo do quintal.

Tudo isso veio como evidência de um passado em que eu não estive, desde que você me deu as câmeras de seu pai. O que fazer com tantas câmeras antigas, ampliadores da Tchecoslováquia e poeira que antes servia para revelar no laboratório do quintal? Eu queria tudo para mim, mas não sabia o que fazer com o tesouro de outra pessoa - ainda havia algo a ser feito para receber tantas lembranças de presente. E havia. Alguns anos depois, descobri um filme dentro de uma das câmeras doadas que o fotógrafo daquelas tardes de domingo deixou. Talvez para uma pausa para o café. Talvez para observar as crianças crescendo.

Como doi crescer. Olho no espelho e procuro algo. Um nariz, uma boca e dois ouvidos que vieram de terras distantes e que também desconheço. Alguns pensamentos surgem e antes que as luzes me expulsem desse breve encontro, minha pupila contrai e relaxa e busco no fundo da alma um canto de mim que não se despedaça. Tão súbito me vem a lembrança das tardes no quintal e as longas esperas do fotógrafo pela imagem que antes estava logo ali, na sua frente. Então, da pausa que ele deixou, retomo o trabalho porque o passado é contínuo.

Escolho um papel, mergulho numa solução e uma imagem se forma

Reencontro no escuro.

Informações

PARALINO

2012. Analógico. Caixa de música manual (32,5cm x 21cm x 18 cm). 6 câmeras fotográficas analógicas. 7 fotografias 10x10cm impressas em papel fotográfico.

Um laboratório fotográfico que se esvazia e chega nas mãos de uma desconhecida. Anos depois sem tocar no material, a descoberta de um filme ainda não revelado e o desejo de descobrir o outro.