Sobre barcos e trens, ou a historia da foto que não fiz. - Luiz Achutti

Sobre barcos e trens, ou a historia da foto que não fiz

Luiz Achutti

Em 1947 um repórter de Nova Iorque perguntou a Cartier-Bresson o que ele procurava através do visor de sua camera fotográfica, Bresson respondeu: "Ce que je ne peux pas mettre en mots. Car si je pouvais, je serais écrivain."

Ancorado o pequeno barco que trouxe para o exílio voluntário em Paris eu, minha mulher e minha filha, passo meu tempo a conhecer outra cultura, a fotografar, a ler, a escrever para poucos amigos, a repensar o que já fiz e a construir o projeto do que farei.

Se eu tiver que falar do tempo - nós fotógrafos estamos sempre à nossa maneira falando do tempo, registrando o desfiar do presente em passado - estarei certamente usando como apoio esta foto dos mecânicos de locomotiva do sul do Brasil, intitulada "a última fotografia".

Em 1996 fomos, um grupo de fotógrafos, Grupo Leica 1 de Porto Alegre (grupo de amigos fotógrafos e amantes da fotografia que se dão ao direito de momentos de sociabilidade fazendo saídas em conjunto para fotografar com Leica e eventualmente organizar exposições), fazer a documentação do trabalho dos mecânicos das oficinas da Rede Ferroviária Federal em Porto Alegre. Sabíamos que a rede estava por ser privatizada, o que resultaria em um processo de desmonte e de desemprego. Aos poucos conquistamos a confiança de alguns trabalhadores e fizemos várias fotografias.

Eu fui imbuído do espirito de Lewis Hine e seus ícones sobre o trabalho no início do século XX. Fui decidido, com meu Tri-x puxado e minha lente normal, a entrar em um universo de trabalho pesado, barulho, tornos enormes, muita graxa e pouca iluminação. Logo descobri o que ainda agora não sei bem descrever, descobri que apesar do trabalho pesado os mecânicos pareciam-se com meninos com seu brinquedo preferido. Toda uma vida ao lado de locomotivas que conheciam pelo nome, as mais antigas tinham apelidos, e a mais antiga de todas, que não era mais usada para puxar os trens, estava lá como um brinquedo de estimação ainda em funcionamento. Os meninos também falavam da potência das maquinas como conversa de homens quando se juntam para falar de sexo. Eram várias oficinas que ocupavam um espaço bem amplo com mecânicos espalhados pelos diversos setores, uma oficina bastante antiga. Trabalhavam como numa orquestra somando suas especialidades, uns ocupavam-se da parte elétrica, outros da mecânica, solda, pintura e assim por diante. Renovada uma locomotiva, ela partiria para fazer mais um longo percurso pelo sul do Brasil, mas eles podiam esperar pela sua volta, iriam revê-la quando estivesse novamente precisando de reparos.

Trem posado copy.jpg (17053 bytes)Optei por quadros fechados, retratos ambientados que levariam à "última fotografia". No penúltimo dia eu tive a idéia de propor uma foto de conjunto, rapidamente num boca-a-boca impressionante estavam todos informados e se dirigindo para o pátio. Era de arrepiar, uns falavam para os outros convocando para "a última fotografia". Eu sabia de todo o amor que eles tinham pelas locomotivas e propus que posassem junto a uma delas. Foi impressionante ver aqueles operários todos, através de movimentos sucessivos e diversos, "tomando de assalto" uma das locomotivas, cada um foi guiado por suas preferências instintivas, alguns disputaram o lugar do condutor, uns preferiram sentar na parte superior, outros ficar em pé encostados ao corpo da máquina. Foi tão impressionante que fiquei olhando e perdi o "momento decisivo" que seria a ilustração do que escrevo neste momento. Perdi o tempo, perdi a foto, restaram os fios de um tecido visual que já fazia parte do passado. Enquanto fazia inconformado a foto posada eu tinha ainda na minha mente nítida e latente a foto que não fizera, pensei então que o desmonte da cena seria algo parecido e que tentaria não perdê-lo. Foi o que fiz na mão, sem motor, naquela ocasião eu não tinha nenhuma pratica com o sistema de foco da Leica, uma vez que toda a vida trabalhara com câmera reflex. O desfecho foi muito rápido, em alguns segundos esperei o suficiente para encontrar um quadro em movimento equilibrado que fosse parecido com aquele que vira antes da pose e fiz a foto, depois fiz mais duas que seriam praticamente inúteis. São quatro fotografias com os mesmos personagens, mesma luz, mesmo filme, mesma câmera, mesmo diafragma, mesma velocidade, feitas apenas com uma pequena diferença de tempo entre cada uma delas. São quatro fotografias completamente diferentes em força e significado, são quatro registros que estão a sugerir que o tempo guarda em si infinitas porções de eternidade.

Fotógrafos de uma maneira geral não gostam de mostrar suas folhas de contato talvez por elas serem um rico material de informação sobre a "démarche" de cada um, seus erros, hesitações, lances de sorte etc. Bresson diz que prefere olhar as fotos de um fotógrafo na folha de contato mais do que em um livro, ele "utiliza a imagem do prego e do pedaço de madeira, a gente começa dando algumas marteladas suaves de todos os lados para bem firmar o prego. Depois a gente martela o menos possível mas com muito mais força, bem de cima, para poder afundá-lo na madeira. Uma folha de contato, pelo menos as verdadeiras, revela a maneira do fotógrafo cercar o seu sujeito antes de apanhá-lo." (Assouline, 1999)

"A última fotografia" foi parar no meu livro de fotografias, editado em 1997, colocada ao final de uma seqüência com alguns retratos dos mecânicos. Um ano após a foto, a rede ferroviária havia sido privatizada como forma de liquidá-la, o Brasil precisava seguir na contra-mão do que é moderno e eficiente, por isso não tínhamos mais necessidade de trens. Também um ano depois a livraria Palmarinca de Porto Alegre mudava de endereço e chamava uma pessoa para fazer a instalação do telefone. O livro estava aberto na vitrine mostrando minha foto dos operários em página dupla. Chegou um homem de meia idade para instalar o telefone, ao encontrar o dono da livraria para tratar da instalação não se conteve e contou um segredo, contou que há pouco havia perdido seu emprego, e chorando disse ser um dos caras da foto do livro que estava na vitrine. Certamente ele havia perdido mais do que um emprego, havia perdido sua identidade, suas referências com o mundo dos homens.

Antes da edição do meu livro eu fiz uma seleção de várias fotografias que foram utilizadas pelo sindicato dos trabalhadores fotografados, infelizmente nem minhas fotos nem a luta sindical surtiram efeito, ficará o testemunho e o registro histórico.

O menino fotografado por Bresson em 1954 em uma das esquinas da rue Mouffetard teve mais sorte do que os "meninos" mecânicos, da minha foto. Um menino que carrega contente duas garrafas de vinho observado a distância por duas meninas. "Depois que uma das colaboradoras de Bresson encontrou a pista do menino que se tornou qüinquagenário, Cartier-Bresson levou-lhe duas garrafas de um "gran cru" no dia de seu aniversario. Bresson ficou sabendo então que os pais do menino, tendo descoberto pela famosa foto que ele fazia compras para os vizinhos para ganhar alguns trocados, tinham lhe dado a maior das reprimendas." (1999:332)

Paris 15 de maio de 2000

Trem posado copy.jpg (17053 bytes) trem movimento copy.jpg (16448 bytes)
trem depois do ponto copy.jpg (16637 bytes) trem bem depois do ponto copy.jpg (15796 bytes)


Achutti é Bolsista (doutorado) CNPq, professor da UFRGS e "chargé de cours" pelo Laboratoire d’Anthropologie Visuelle et Sonore du Monde Contemporain – Paris7.


Obs: Todas as referências a Cartier-Bresson foram traduzidas por Achutti de recente biografia lançada sobre ele. 

Referências Bibliográficas

ACHUTTI, Luiz Eduardo. Fotografias. Porto Alegre : Editora Tomo e Palmarinca, 1997.

ASSOULINE, Pierre. Cartier-Bresson. : l'oeil du siècle. Paris : Plon, 1999.