O diário de um fotógrafo sobre a visita ao mundo das trevas

 O fotógrafo Gordon Parks manteve um detalhado relato sobre o tempo em que esteve com a família Da Silva na favela. Aqui estão alguns excertos desse diário.

22 de Março


Na favela, Parks carrega o bebê Zacarias para o barraco em cima do morro para ser limpo. Ele foi fotografado pelo repórter da Life no Rio, José Gallo, que trabalhou também na reportagem.

Nessa manhã cheguei ao barraco às 7:30 da manhã. O pequeno Zacarias estava engatinhando nu na sujeira do lado de fora. Maria e os outros estavam balançando em uma rede engordurada, esticada de um lado para o outro do quarto. Flávio estava cozinhando feijões pretos e arroz para o almoço. Essas crianças, pelo menos, pareciam felizes em me ver.

Dei um passo pra trás para conseguir tirar a foto dos outros na rede e derrubei o pote de feijões. Isso fez com que todos ficassem histéricos. Flávio, que por causa de sua asma e pulmões fracos só consegue satisfazer sua expressão de felicidade com um amplo sorriso, aproveitou o luxo de risadas reais até que o esforço iniciou um processo de tosse convulsiva. Ele ficou tão fraco depois disso que tive que segurá-lo.

23 de Março

Hoje comecei a dar para as crianças pequenas quantias de dinheiro e já me arrependi. Com exceção de Flávio, não importava quantos Cruzeiros eu dava, eles sempre voltavam para pedir mais. Não menos que cinco deles se juntaram em torno de mim – realmente forçando suas mãos nos meus bolsos, sussurrando “americano, dinheiro, dinheiro, dinheiro americano”[1].

24 de Março


Flávio estava devaneando quando cheguei – olhando pelos casebres, além do campo de futebol, do lago e dos grandes prédios brancos. Embora tenha apenas 12 anos, ele nunca esteve além do pequeno lago no centro do Rio. Nenhuma das crianças de fato já esteve, nem na famosa praia de Copacabana, que está apenas a 10 minutos de distância de seu mundo miserável. Prometi a Flávio que o levaria. Talvez essa pequena viagem pra fora dê mais um incentivo para que um dia ele saia daqui. Posso criar uma vontade impossível de ser realizada, porém acho que vale a aposta. Quando ele está devaneando assim, se sente sozinho. Fiquei parado ao seu lado e depois de um tempo, sem saber como expressar seu sentimento, ele pegou minhas mãos e esfregou continuamente seu rosto no meu braço.

25 de Março

Luzia é muito bonita e precisa saber disso. Ela se lambe para se limpar como um gatinho e pode estar cercada de sujeira e sair disso sem uma mancha. É marcante como consegue ir contra tais probabilidades. Depois que tirei fotos de sua arrumação, ela se tornou particularmente intolerável com Maria. Hoje um vizinho trouxe um peixe que Maria tinha que limpar e ela estava tirando suas partes quando Luzia chegou e tocou o rabo do peixe.

Antes que a pobre Luzia pudesse evitar (e eu focar minha câmera), Maria bateu com o peixe aberto em sua cara. Ao invés de ir atrás de Maria, como eu esperava, Luzia reclamou pra Flávio. Maria sentiu o perigo e começou a correr, mas Flávio levou-a para a cama, virou seu braço até que ela largou o peixe. Maria agarrou a faca e foi na direção das costas de Flávio. Largando a câmera, segurei seu pulso.

Naquele momento me achei num problema, pois ela se livrou da minha mão e foi direto com a faca para o meu estômago. Dei um passo para o lado, a segurei e girei, e tirei a faca de sua mão. Ela enterrou seus dentes no meu braço, mas eu a segurei firmemente por mais um tempo. Para a minha surpresa, ela olhou pra mim e disse: “dinheiro Gorduun! dinheiro dinheiro!”.

27 de Março

Ao contrário de Flávio, as outras crianças são imprevisíveis. Para eles agora eu sou “Gorduun”. E algumas vezes, dois ou três deles mexem debaixo dos meus braços, seguram meus dedos e assim ficam por vários minutos. Ainda assim, não é uma surpresa quando um deles, friamente, me espeta com uma agulha. Ambos os atos são comprometidos com o mesmo sentimento: É como se estivessem testando minhas respostas tanto para o amor quanto para a violência. A mãe deles não tem tempo para dar o amor que precisam – e o pai parece incapaz. Por isso, qualquer mão que os toca com carinho é querida. E ignorá-los por algum tempo é abusar deles. A reação é de raiva ou algum tipo de violência.

28 de Março

Nessa manhã Maria estava emplastrando seu cabelo com uma graxa suja e acinzentada, salpicada de partículas marrons e soltava um cheiro rançoso. Quando descobri que vinha de uma gordura de porco, comprei uma garrafa de óleo perfumado específico para cabelo. Imediatamente ela lavou o outro e mergulhou seu cabelo com o líquido de cheiro adocicado, sorrindo, cheirando e escovando como se fosse encontrar um príncipe lindo. Procurou pelo espelho quebrado de Luzia para inspecionar seus esforços, mas a irmã não deixou, pisou no meu pé, cuspiu e correu. Maria foi até a pilha de panos limpos, arrancou um vestido amassado e o colocou. Depois disso, me beijou e foi pra fora pra deixar suas amigas menos sortudas cheirarem seu cabelo.

29 de Março 

Isabel é uma pequena flor de amargura que gasta cada minuto mordendo e chutando. Tentei de todos as formas imagináveis conquistar seu afeto. Diante de tudo isso ela nunca sorriu. Nenhuma vez. Essa noite ela correu na minha direção, colocou os braços na minha perna e enterrou seus dentes nela. Continuei fazendo carinho no seu cabelo, com a esperança de que ela poderia dar-se por vencida, mas ela começou a chutar minhas canelas. No momento seguinte ela soltou um grito de dor e apontou para seu pé. Levantei-a até o meu colo e procurei no escuro o que a tinha machucado. Um prego fino meio enferrujado tinha entrado e atravessado seu pé. Puxei uma vez, duas. Ela gritou, mas o prego não se mexeu. Na terceira vez, puxei com toda minha força – sentindo sua dor, sofrendo com seus gritos. Estava então na minha mão, manchado de sangue. Sua mãe pegou uma garrafa de álcool e limpou o machucado enquanto Isabel apertava meu pescoço. Depois eu a coloquei na cama. O rosto de sua mãe estava contorcido de preocupação. Mas José, seu pai, nem olhou para o seu machucado, embora estivesse a menos de três pés[2] dali.

4 de Abril

Hoje estava insuportavelmente quente. José, parecendo mais morto que vivo, estava deitado tremendo e com febre debaixo de um cobertor duro. Contorcia-se debaixo das cobertas gemendo, “Deus, o que eu me tornei? O que está acontecendo comigo?”. Enquanto isso, uma aranha preta gigante subia por sua perna e a pequena Isabel, de pé ao lado, ficou olhando até que a aranha chegou ao joelho, aí, dobrando o punho, a esmagou. José gritou e sua mão foi direto para o rosto de Isabel. Ela ficou de pé chorando ao lado da cama até que Flávio a levou até o fogão, pegou umas crostas, mergulhou no café e deu na sua boca. Isso a acalmou por um tempo, mas logo começou a chorar de novo. De repente, sem nenhuma razão aparente, ela foi até Zacarias, o bebê, e chutou sua cabeça. Depois disso, Luzia, em defesa de Zacarias, empurrou Isabel no chão. Flávio parou de varrer o chão para intervir. Mário, na pressa de tentar fugir, foi de encontro com sua mãe que estava entrando pela porta. Ela o agarrou, bateu em sua cabeça e ele caiu no chão gritando. “Por que diabos você bateu em mim?”. A mãe pegou Zacarias e o colocou na mesa onde ela se sentou e enfiou a cabeça nos braços. Isabel, com o olhar irritado na direção de Luzia, sentou melancolicamente no canto. “Biscate! Biscate! Biscate suja!”, dizia. Depois de limpar seu pé com café gelado, Luzia foi para fora, curvou-se e começou a chupar o dedo.

7 de Abril

Esse foi o dia em que prometi a viagem para a praia de Copacabana. Quando cheguei, às 7 horas da manhã, Flávio e Mário já estavam me esperando na entrada da favela, acenando e pulando com excitação. Eles não tinham feito nenhum esforço pra se arrumar e a sujeira de ontem ainda cobre seus corpos. Com exceção da calça esfarrapada e suja, eles estavam nus. Comecei a sugerir que se limpassem um pouco, mas a ansiedade era tanta que desisti. Eles se arrumaram no banco de trás do carro e me pediram pra ir. Enquanto passávamos pelo vale de reluzentes prédios brancos, a mão de Mário apertou a de Flávio e os dois se sentaram mais perto, com os olhos arregalados e em silêncio, no centro do banco – olhando.

De repente, o todo do vasto e curvo beira-mar e da praia lotada surgiram à vista. O carro foi passando lentamente.

“Olha, olha, olha”, Mário gritava. Centenas de guarda-sóis multicoloridos lançavam sombra sobre a longa faixa de areia branca que cegava a vista. Crianças da mesma idade que Flávio e Mário corriam, comiam, riam, brincavam de saltar e soltavam pipas coloridas.


Na praia de Copacabana, onde Gordon Parks os levou, Mário e Flávio brincam na areia. A praia é apenas a 10 minutos de sua casa, mas nenhum dos dois já a haviam visitado.

“Flav”, Mario disse para seu irmão, “isso está aqui o tempo todo?”. “Sim, sim, sim, claro”, Flávio praticamente gritou. A princípio os dois tiveram medo de se deslocar nos largos e expostos caminhos tortuosos e na extensão da areia. Eles só se sentiram corajosos o suficiente para irem em direção da água quando um jato rugiu por detrás dos prédios. Os meninos se abaixaram e encolheram com medo. Depois que o ruído desapareceu, eles deram as mãos e cautelosamente se aproximaram da água. A primeira vez que uma onda chegou à praia, eles gritaram e correram. Mas depois de alguns minutos já estavam pulando alegremente e sem medo da ressaca de espuma.

Mais tarde eles andaram, suspirando diante das vitrines elaboradas das lojas caras do Rio. Comprei comida e eles estavam entusiasmados em comer. Quando finalmente estava na hora de voltar, eles imploraram por uma última volta no beira-mar. Demos meia volta, rodeamos, e Flávio e Mário se sentaram silenciosamente enquanto passávamos pela visão da praia e do mar.

9 de Abril

Hoje foi o dia de me despedir de Flávio e de toda família. “Gorduun, quando você volta?”, ele me perguntou. “Algum dia em breve”, menti. Ou estava mentindo mesmo? “Você volta pra favela pra ver Flávio, sim?”

“Algum dia em breve, Flávio”, eu disse. Agora eu estava dizendo pra mim mesmo que talvez eu pudesse conseguir de algum jeito, até mesmo tirá-lo desse lugar.

Ele caminhou comigo até o carro, segurando minhas mãos. Ouvi um grito e quando olhei pra cima, Maria corria atrás de Mário pelo morro com um pedaço de pau. Flávio estava sorrindo enquanto eu partia. “Não esqueça, Gorduun, americano, volta pra favela, volta”. Depois ele correu rapidamente de volta ao morro e eu o perdi de vista na selva de construções.

 

[1] No texto original, ele escreve como as crianças estariam falando “Money” de forma aportuguesada, “mawny”. 

[2] Três pés é equivalente a 0,9m.