O caso Flávio Pesquisa de Fernando de Tacca

7 - Entre Flávio e Ely-Samuel

Podemos claramente identificar que a reportagem de Gordon Parks estava relacionada diretamente com estratégias mais amplas de veiculação de ideias e valores cujo interesse levava a dois caminhos: sensibilização interna do público norte-americano para as políticas externas do Departamento de Estado em relação à América Latina e, assim, legitimação de ações diplomáticas e militares, e, de outro lado, alcançar também o público latino-americano, demonstrando que os EUA tinham interesse na região, se preocupavam com os problemas sociais e com o avanço dos movimentos populares com tendência de esquerda, assumindo o medo do “avanço comunista”. Ao reproduzir suas reportagens também em espanhol esperava-se uma amplitude dos conceitos das reportagens em países de língua espanhola, e na tangência também o Brasil. Ao abordar temas de países como Cuba, Uruguai, Venezuela, Bolívia e Brasil, a revista Life demonstra uma capacidade de produção jornalística e coloca a América Latina em foco.

A família Silva e o menino Flávio foram exemplos próximos de um núcleo familiar na luta pela sobrevivência e a matéria, explorada no campo sentimental, diferente das outras cujos temas eram mais abrangentes e não tinham foco em situações particulares. Ao trazer a situação dessa família e na forma como a reportagem foi montada o resultado foi além do que esperava a direção da revista norte-americana, e pode proporcionar mais um capítulo em reportagem posterior. Ao atingir o público médio leitor da revista, atingia-se também a classe média e sensibilizava-a para as ações ideológicas frente aos “vermelhos”. A demonização da revolução cubana e de seu líder estava associada à condição de exploradores da miséria e da pobreza, não com compaixão, e sim com interesse em implantar um regime ou criar uma rede contra os interesses norte-americanos. A compaixão foi o motor da ação individualizada que esse leitor médio foi levado a manifestar fazendo doações diretas para a família Silva, através da revista, e assim sentindo-se todos como parte das mudanças das condições sociais propícias para o avanço do maior inimigo norte-americano, a propagação da revolução cubana.

A resposta brasileira focando a família Gonzalez e o menino Ely-Samuel é diretamente vinculada a uma perspectiva jornalística de O Cruzeiro, com seu sonho de se tornar uma revista latino-americana com a proposta de O Cruzeiro Internacional, e com seu orgulho ferido de revista brasileira mais importante. Já havia a experiência de um embate com a revista francesa Paris Match[1], mas, nesse caso, não assumiu uma posição editorial e tornou a questão somente local e regionalizada. O tema das religiões afro-brasileiras em particular, nesse caso, o Candomblé, não foi alçado a uma afronta à cultura brasileira como um todo; assim, a reportagem de Paris Match permaneceu oculta, por trás da própria reportagem de O Cruzeiro, como uma camada simbólica somente para aqueles que sabiam de todo o processo, mas para o grande público passou totalmente despercebida, apresentando-se como uma grande reportagem nos moldes da revista.

No caso do embate com Life, a revista brasileira coloca-se como uma resposta do próprio país e a questão passa a ter uma dimensão nacional. Ao documentar a miséria de uma favela na cidade que até pouco era a capital da República e, ainda, retirando a condição de lugar sinônimo de espaço de famílias negras, ao se centrar em uma família branca, a revista Life aguçou o espírito combativo da revista brasileira. O Cruzeiro já havia superado Paris Match realizando uma reportagem sobre Candomblé muito mais forte e densa do que a revista francesa, que não usou fotos de um fotógrafo profissional e fez um texto pejorativo e até mesmo preconceituoso. Entretanto, a reportagem de Life e as fotos de Gordon Parks seriam muito difíceis de serem superadas em um embate direto, assim, optou-se pelo jogo especular. Ao trazer a diagramação, um modo de fotografar, realizar um itinerário similar e ao mesmo tempo colocar a reportagem de Life em destaque através de boxes, a revista brasileira encontrou uma maneira de ser ao menos igual na forma e no conteúdo, uma existência como semelhança.

O momento brasileiro exalava um sentimento nacionalista e ao mesmo tempo belicoso, com uma comoção política interna instalada e conflituosa depois da renúncia de Jânio no dia 25 de agosto. A articulação entre a UDN e os militares quase conseguiu não dar posse ao vice-presidente, naquele momento em visita à China comunista. João Goulart vinha de uma linha sedimentada no trabalhismo getulista e se aproximava dos movimentos populares; somente conseguiu tomar posse depois de um acordo e de uma emenda constitucional que implantou o regime parlamentarista, em 02 de setembro e, assim, ele assumiu a presidência no dia 07 de setembro, depois de ampla rede de legitimação, apoiado pela opinião pública.

A revista O Cruzeiro responde à Life, então, em meio da constituição de uma intensificação da guerra fria entre EUA e União Soviética, e de contradições políticas internas. Assim, ao trazer a questão da miséria nos EUA, a política editorial de O Cruzeiro estava deslocada de questões ideológicas mais amplas e, sim, buscando uma afirmação jornalística, principalmente através de narrativas imagéticas. O Cruzeiro já estava em uma situação de decadência, perda de público e de vendas, e também situação financeira agravada pela falência do projeto de internacionalização; talvez tenha sido a sua última grande cartada editorial. A reportagem de O Cruzeiro atinge todas as partes que estão em conflito interno e como uma unanimidade nacional consegue legitimidade das Forças Armadas, da UDN, das esquerdas, ou seja, como uma resposta nacional redime a miséria como condição única latino-americana e brasileira e a mostra no coração da cidade mais importante dos EUA. Sem dúvidas, uma ousadia para uma revista terceiro-mundista de alcance menor que a revista americana e uma aventura para o solitário fotógrafo Ballot, sem o apoio de um escritório de representação, como Parks tinha no Brasil.

Ambos os fotógrafos, Gordon Parks e Henri Ballot, são o que Barthes chama de agentes profissionais da morte, mesmo sem consciência de tal situação da qual são portadores na sociedade contemporânea[2]. O brasileiro Flávio e o portorriquenho Ely são dois casos de focos jornalísticos de interesses distintos, mas pautados na imagem trágica ou chocante, como elementos alimentadores de sentimentos e ações ideológicas. A imagem é o lugar efetivo da significação, da sintetização simbólica e do embate mediático entre dois garotos que lutam pela sobrevivência, no qual a ideia de miséria, doença e morte é integrada como um vínculo quase indissociável e indissolúvel.

 

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[1] Ver Imagens do Sagrado, Fernando de Tacca (Editora da Unicamp/Imesp, 2009)

[2] Barthes, Roland. A Camara Clara. (Edições Lisboa, 1989, pág.129).