O caso Flávio Pesquisa de Fernando de Tacca

6 - “Flavio” - O livro[1]

A capa do livro é um recorte da foto não publicada na Life, na qual o pequeno Flávio olha diretamente para a câmera e ressalta-se seu rosto sujo e assustado. Em seu livro, Gordon Parks conta a história de seu encontro com Flávio na forma de reportagem, publica as fotos conhecidas, detalha todo seu envolvimento com Flávio e sua família, desde quando chegou ao Rio de Janeiro, sua volta para buscá-lo, o destino do dinheiro, acompanha Flávio em todas as etapas nos EUA, sua adaptação, sempre documentando a nova vida dele. Nos primeiros capítulos Parks reconta a história de Flávio, republicando o seu diário e acrescentando informações que não foram publicadas na época, relatando seu contato com o jornalista brasileiro José Gallo e as incursões para a favela da Catacumba. Todas as fotos presentes na edição de Life são novamente publicadas, mas sem a diagramação original, dando-nos a ver a imagem completa sem cortes.

Parks também relata suas relações com o escritório de Life nos EUA, publicando telegramas e ressaltando o impacto que sua reportagem ocasionou no público norte-americano. As relações durante a hospitalização de Flávio são detalhadamente relatadas, desde sua resistência em ir ao hospital para fazer exames até as dificuldades naturais de um comportamento diferenciado devido à sua condição social; inclusive, a abertura do capítulo traz um relato médico indicando as dificuldades do caso pelo fato de sua doença ser também aliada à subnutrição, sendo que os casos do hospital não são dessa ordem, fazendo com que muitos profissionais se incumbissem do caso e, claro, seria uma tragédia se não fossem bem sucedidos no tratamento.

José Gallo está presente nesses primeiros momentos para ajudar na adaptação de Flávio e, explica Parks, após a estadia no hospital, Flávio foi morar com uma família portuguesa, os Gonçalves, para melhor adaptação pela facilidade da língua. Entretanto, houve muitas dificuldades pelas diferenças do português de cada país, mas principalmente pela gíria adquirida por Flávio na sua comunidade. As fotos com a família Gonçalves são publicadas e vemos o pequeno Flávio convivendo e tendo uma vivência nos EUA, pescando, jogando beisebol, preparando uma árvore de Natal, frente ao seu bolo de aniversário, no Dia de Ação de Graças com “seu primeiro peru de jantar” e ganhando presentes de Natal. O resgate das imagens de Flávio vivendo com a família Gonçalves é uma espécie de pertencimento a um álbum de família, mesmo temporária.

Parks descreve com muitos detalhes a convivência de Flávio com a família portuguesa, as dificuldades dele na adaptação à escola que passa a frequentar em setembro de 1961 e a decorrente dificuldade linguística, que é acompanhada por uma professora especialmente contratada para ensinar inglês a Flávio. As tentativas de contato com sua família no Rio são por cartas, mas a situação é complicada porque os pais de Flávio não sabem ler e escrever para manterem um contato mais rotineiro, o que traz muita angústia ao menino, segundo Kathy Gonçalez, sua tutora, que escreve para Life, e se diz muito preocupada com o isolamento e a tristeza do pequeno. Em uma carta que sua tutora recebeu de volta, de Ruth Fowler, da revista Life, publicada na íntegra, as dificuldades são potencializadas pelo fato de seus pais não saberem ler e escrever, e demonstra um sentimento de que seu pai não estaria muito interessado em Flávio, que teria “good fortune”. Acrescenta que José Gallo tem muito amor por Flávio, é o contato com a família dele, mas não dispõe de tempo para estar realizando a intermediação de forma cotidiana.

Um dos telegramas que chega a Flávio é publicado: o nascimento de sua nova irmã, chamada de Célia em homenagem à mulher de José Gallo. Quando Flávio partiu para os EUA, sua mãe Nair estava grávida de seu oitavo irmão. Parks realmente se envolve com o menino, acompanha-o em todas as fases vivenciadas em solo americano, demonstrando interesse e solidariedade, enquanto José Gallo mantém contato com a família Silva no Brasil, também relatando as primeiras tentativas de nova vida na nova moradia e no novo bairro. Relatos das novas atividades da família Silva são apresentados, provavelmente escritos com a ajuda de José Gallo. Assim, uma simultaneidade entre a passagem de Flávio pelos EUA e a vida de sua família no Rio é contada, por um lado, com Parks acompanhando Flávio, por outro, por José Gallo visitando a família na nova casa. Também são detalhadas situações relativas ao Flavio’s Fund e às ações que são realizadas na própria favela e com a família, e uma das cartas de José Gallo, endereçada para Ruth Fowler, é também publicada na íntegra. Nessa carta, Gallo relata as ações e, pelo seu tom, podemos identificá-lo como um dos gestores do fundo no Brasil. Como diz o próprio Parks, no livro, o projeto da favela da Catacumba poderia ser um piloto e modelo da Aliança para o Progresso, proposta pelo Presidente Kennedy, ou seja, uma ação estratégica na América Latina. A carta diz:

“O projeto Catacumba ainda está muito ativo. Gostaria que pudesse vir ao Rio para ver, ouvir e sentir o entusiasmo de homens, mulheres e crianças que trabalham no projeto. Atualmente a favela tem 12 caminhos principais de subida, e vários pequenos, pavimentados com concreto com muita durabilidade. Os próprios favelados têm contribuído com seu trabalho nos dias de domingo e feriados. Com o dinheiro enviado pelos leitores de Life foi possível comprar 55 toneladas de cimento, 217 metros cúbicos de areia, 200 metros de cascalhos, uma tonelada de barras de aço, 600 pranchas de madeira, 200 quilos de pregos e as ferramentas necessárias... Em homenagem a Flávio nós construímos uma sede comunitária e fundamos uma sociedade de autoajuda com 400 pessoas as quais se encontram duas vezes por semana para discutir problemas locais e para conhecer melhor a cada um. Nós expandimos nossas ações para trabalho social, cuidados higiênicos, prevenção de doenças e trabalhos manuais para as mulheres. Nosso trabalho aqui está sendo estudado por muitos observadores, estudantes e outros interessados na resolução de problemas em outras favelas mais periféricas. Sargent Shirver, do Peace Corps, visitou também a Catacumba. Os favelados desejam através da minha pessoa expressar sua gratidão....” (José Gallo)

Na simultaneidade narrativa, também são relatados os últimos dias antes da viagem de volta e passagens das vivências de Flávio no hospital e na família portuguesa, e o narrador, Parks, sempre aparece com uma onipresença, como testemunha de todos fatos da vida de Flávio, como se estivesse o tempo todo ao lado dele em todas as situações. Por exemplo, na festa de aniversário de Flávio, no dia 14 de abril de 1963, diz que houve cookies, limonada e sorvete, os seus colegas de dormitório cantaram “Parabéns para você” e um colega seu leu um poema, e, como gratidão, Flávio fez uma demonstração de cinco minutos dançando samba. E na despedida de Flávio, Parks descreve o sentimento da família Gonçalves quando levaram-no à Estação de Trens de Denver:

As despedidas foram rápidas, mas calorosas, um pouco nervosas, mas livres de emocionalidade. Promessas foram feitas – todos queriam escrever para Flávio e ele iria escrever para todos...O condutor disse ‘Todos a bordo!". Flávio beijou Kathy e apertou as mãos dos outros. Ele fez uma pausa nos degraus do trem por um momento e então José pode fazer a última foto; então entrou e foi apressado para perto da janela ao lado de seu assento... Assim que o trem começou a andar e estava a certa distância, Kathy Gonçalves ficou parada olhando por um longo momento. “Bom, crianças, Flávio se foi”, ela disse. Então se virou e eles foram embora”.

Na última foto de Flávio em Denver, ele está sozinho nas escadas do trem e não aparece a figura de Parks. O fotógrafo aparece somente na narrativa com forte onipresença como um observador oculto dos acontecimentos, como um contador do caso Flávio.

No livro, muitas imagens são acrescentadas além das publicadas por Life, bem como fotos realizadas pela família Gonçalves. Muitos anos após a volta de Flávio ao Brasil, Parks, em passagem por Buenos Aires em 1976, encontra-se casualmente com o jornalista José Gallo, que o acompanhou à favela da Catacumba em 1961, e engendram uma conversa sobre Flávio, e Parks decide fazer uma visita para conhecer a vida de Flávio após a volta dos EUA. O encontro é fotografado por Parks, que conhece a nova família dele, esposa e filhos (é publicada uma foto do casamento feita por um fotógrafo desconhecido, provavelmente um fotógrafo contratado para fotografar a cerimônia), e ele novamente documenta a vida da família Silva. No livro, Gordon faz um retorno no tempo justapondo imagens de 1961 com as novas fotos de 1976 e conta detalhes desse novo encontro com as pessoas que fotografou muitos anos antes, quinze anos, quando eram crianças, e nesse momento, já crescidas, e com novos membros na família, inclusive o filho de Flávio.

Ao final, nas despedidas no aeroporto, Flávio pede longe dos outros para que Parks o leve de volta para os EUA, que lhe consiga um trabalho, para estar nos lugares por onde passou, encontrar seus amigos: “Eu ficarei tão bem em ter um trabalho e morar novamente por lá”. Parks somente lhe diz que vai tentar, mas para ele não sonhar com esse passado, que as coisas mudaram e, deixando-o novamente, não será a esperança de um “novo milagre”.

Mesmo dentro do embate entre os dois veículos de comunicação com seus interesses tão distintos, marcas indeléveis foram deixadas nas vidas dos dois atores principais dessa história. Parks carregou Flávio e sua trágica foto em sua vida pessoal e profissional e Flávio, sobrevivente, levou sua aventura norte-americana como um sonho ainda possível, mas nunca cristalizado.

Eu nunca consegui encontrar-me com Flávio; tentei de todas as formas contato com a família Silva, que mora, ou morava, na Rua Salmorão 22, no bairro de Guadalupe. Tentei a Associação de Moradores do Bairro, um despachante, uma loja perto de sua rua, e encontrei um número de telefone em nome de seu pai, mas desativado. Infelizmente, não sei da história de Flávio, não pude estar com ele para um depoimento pessoal. Uma das últimas notícias efetivas veio através de uma reportagem assinada pelo jornalista Michael Astor, do jornal The Nation, do dia 17 de abril de 1997, com a seguinte chamada: “De volta para a favela” e, em seguida, o subtítulo Criança brasileira da capa, Flávio da Silva, imerso novamente na pobreza depois de ilustrar a capa de Life Magazine em1961”.

Uma foto mostra Flávio ainda com o cachorro de pelúcia da foto de capa da Life, que guardou por todos esses anos (Flávio teria então 48 anos), ao lado de uma edição da revista. A reportagem baseia-se em alguns dados do livro de Parks e da Life e informa que Flávio ainda manteve contato com um amigo, Phil, que o visitou por duas vezes no Brasil, mas que havia falecido alguns anos antes, e que ele perdeu também contato com a família Gonçalves. Flávio disse que falou ao telefone com Parks em 1987, quando o fotógrafo tinha então 84 anos. A reportagem diz que Flávio se separou da mulher em 1990, perdeu o emprego e mudou-se de volta para a casa comprada com a verba dos leitores de Life, na qual vivia então com mais 16 familiares, e em um quarto no fundo da casa. A casa estava muito destruída pelos longos anos sem manutenção. Flávio tinha se tornado evangélico e conseguia somente alguns trabalhos temporários na construção civil. E citando o livro autobiográfico de Parks, Voices in the Mirror[2], o jornalista indica uma passagem na qual o fotógrafo diz que ao levar Flávio e seu irmão Mário para a praia de Copacabana, ainda em 1961, ele pensava que estaria proporcionando uma forma de eles escaparem da Catacumba: ”Eu somente apresentei a eles um sonho improvável... Se eu o encontrasse amanhã nas mesmas condições, eu faria a mesma coisa toda novamente”.

trecho do documentário Half Past Autumn - The Life and Works of Gordon Parks.

áudio original em inglês
áudio dublado em espanhol

Gordon Parks reencontrou Flávio em 1999, quando a HBO preparou um documentário sobre sua obra e trajetória. No documentário para a televisão Half Past Autumn: The Life and Works of Gordon Parks, aparecem partes de seu filme Flávio (1964). Flávio tinha então 49 anos no reencontro no Rio, e presenteou Parks com uma Bíblia, que Parks disse que iria guardar para o resto da vida.

Outra possibilidade de contato e mais informações sobre Flávio foi uma mensagem que seu filho, Flávio Luiz, postou em uma página da internet[3] quando da morte de Gordon Parks em 07 de março de 2006, na qual aparece uma foto de Flávio, mas infelizmente o email também estava desativado; a mensagem dizia o seguinte:

7:58 PM

Curioso!!!

Prezados, talvez a foto do meu pai não tenha levantado nenhum comentário.

Sou grato ao Sr. Gordon Parks que em vida nos deu uma enorme demonstração de solidariedade. Digo isso, pois ele foi o responsável por levar o meu pai para tratamento nos EUA.

Se não fosse por ele, eu não estaria aqui para escrever.

Me refiro a FOTO de 1961 Flavio Silva Rio de Janeiro.

A única coisa que me entristece é saber que houveram aproveitadores de emissoras estrangeiras e até mesmo uma grande do Brasil que faturaram com imagens da pobreza e humildade do meu pai. Coisa do tipo os programas de TVs atuais.

Fica o meu comentário e insatisfação com essa turma.

Atenciosamente,

Flavio Luiz

f.luiz.flavio@hotmail.com  

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[1] Gordon Parks, WW Norton & Company INC, NY, 1978.                 

[2] Parks escreveu outro livro autobiográfico: A choice of weapons (1965), traduzido para o português pela Editora Civilização Brasileira em 1966, no qual relata sua vida até os primeiros momentos em que foi viver em Washington, e suas relações com o famoso Roy Stryker, criador do FSA. Entretanto, nenhuma referência é feita ao caso Flávio nesse livro.

[3] http://oseculoprodigioso.blogspot.com/2007/12/parks-gordon-fotografia.html