O caso Flávio Pesquisa de Fernando de Tacca

4 - O resgate de Flávio
Life - 21 de julho de 1961

A edição redentora de Life do dia 21 de julho de 1961 traz Flávio na capa, em página colorida, sorrindo para a câmera, deitado em uma cama com brancos e limpos lençóis, encostando sua cabeça em um grande e confortável travesseiro, agarrado a um cachorrinho de pelúcia, com pijama cheio de desenhos e o título de capa é a resposta aos dedicados e altruístas leitores norte-americanos da revista: “O Regaste de Flávio: Americanos o trazem da favela do Rio para ser curado”.

Lá ele é levado para um hospital onde é tratado de sua forte asma, e em seguida passa a morar com uma família portuguesa. Toda essa história é contada em imagens e textos na edição de Life do dia 21 de julho de 1961, na versão internacional em inglês. A reportagem também informa que as mesmas reportagens são publicadas nos meses seguintes na Life en Español, ou seja, foi amplamente divulgada para o público interno e externo. Na versão em espanhol a chamada de capa é: “Flávio descobre um mundo feliz”. É dado mais um motivo de consternação nacional: além da reportagem inicial sobre a miséria em uma favela carioca, os norte-americanos agora fazem uma operação de resgate do pobre menino, atingindo efetivamente uma honra nacional.

Como Story of Week, o subtítulo e a primeira legenda dentro da revista também exaltam a ação redentora: “A compaixão dos americanos dá nova vida para Flavio” e “Uma criança corajosa. Símbolo de milhões empobrecidos é resgatada de uma favela carioca”. Sem dúvidas, pela legenda, a revista coloca o caso Flávio como uma questão internacional e um símbolo de luta contra a miséria ao alcance dos seus leitores. Publica em foto o garoto embalado feliz em um balanço, como se espera de uma criança, ao lado da trágica foto em que está deitado em seu barraco na favela da Catacumba; da esquerda para a direita desloca-se da ideia de morte para a de salvação:

“É o mesmo menino – deitado então em uma cama de favela, pele junto aos delicados ossos, olhos angustiados; e agora balançando em direção aos céus, gritando “Está bom!” com um sorriso florescendo no seu rosto.

Três semanas atrás, Flávio da Silva, 12, vivia num casebre do Rio de Janeiro (acima), acabado de má nutrição e asma, com apenas alguns anos para viver. Hoje está no Colorado, e seu sorriso, suas roupas novas, seu relógio “Hopalong Cassidy” que balança no seu pulso fino e sua chance de viver é resultado do trabalho de centenas de Americanos generosos e cheios de compaixão. Eles viram e leram o ensaio fotográfico da Life sobre Flávio, “O temível inimigo da liberdade: a pobreza” (16 de julho), no qual ele simbolizava os enormes problemas dos milhões empobrecidos da América Latina. Emocionados pela coragem e condição de Flávio, os Americanos adotaram a causa. Cartas e dinheiro foram recebidos. O Hospital e Instituto de Pesquisa sobre Asma em Crianças de Denver ofereceu adotar Flávio como um caso de emergência sem custos e tentar curá-lo. O fotógrafo Gordon Parks, autor da estória original, voltou ao Rio para buscar Flávio.

O dinheiro tem feito muito pela família que sempre viveu em um barraco fora da cidade, na favela, num quarto de $25 o mês, com oito dormindo em uma cama, cozinhando escassos feijões e arroz no fogo aberto. Apenas Flávio os sustentava, cozinhava, mantinha a casa, atuava como juiz e confortador de seus sete irmãos e irmãs. Agora a família se mudou e, como Flávio, tem uma nova chance.”

Na segunda página dupla aparecem as cenas cariocas da remoção da família para a nova casa no bairro de Deodoro, na periferia, em casa de alvenaria, e a foto mostra o deslocamento como um grande evento com o título: “Saindo do barraco da favela para um lugar adequado para se viver”. Cenas da nova casa com vizinhos ao redor, e o pai com seu paletó não mais aparenta a fragilidade de sua doença, misteriosamente curada e não mencionada; afinal abre-se uma nova etapa para a família e para o oitavo irmão de Flávio, ainda na barriga da mãe, a criança que vai nascer na nova casa.

Em seguida, com o título “Partindo – com lágrimas e sapatos novos”, mostra Flávio em banho de loja, com seus novos calçados bicolores, meias 3/4, elegante, e emocionado nos braços de seu tutor, o fotógrafo Gordon Parks. O fotógrafo, assim, desloca-se de sua condição de criador das imagens que mostravam a miséria para se tornar personagem épico da história da salvação do menino, ancorado pelos leitores e pela direção de Life. Estranha-se que não haja nenhuma menção à autoria das fotos, nem as realizadas no Brasil, tampouco as de Flávio realizadas nos EUA.

De forma indireta a reportagem diz implicitamente que nosso país não conseguia resolver a questão da pobreza, por isso a necessidade de uma ação humanitária. Lembrando que quem estava no poder pelo voto popular era Jânio Quadros, uma incógnita para o Departamento de Estado, e que no dia 19 de agosto, logo em seguida, como presidente sempre polêmico, iria condecorar Ernesto Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração brasileira a estrangeiros. Che Guevara recebe a condecoração com seu uniforme militar e como ministro do governo cubano, e tal manifestação estava de acordo com a diplomacia brasileira que não concordava com o isolamento do governo castrista na reunião no Uruguai e procurava estreitar laços econômicos com o governo cubano, mas Jânio Quadros teve de enfrentar uma dura reação dos militares brasileiros a ponto de a própria cerimônia de condecoração não acontecer e a oposição, pelas mãos de Carlos Lacerda, realizar uma homenagem simultânea ao líder anti-castrista Manuel Verona, diretor da Frente Revolucionária Democrática Cubana que também estava no Rio de Janeiro. Jânio renuncia em seguida, no dia 25 de agosto.

A nova edição de Life irá explorar potencialmente a publicação de fotos em páginas duplas e a imagem em seguida é impressionante e fortemente marcada pela construção imagética, na qual o pequeno Flávio, sem camisa, com rosto e expressão de desentendimento, não parecendo se dar conta do que está acontecendo, é rodeado por quatro médicos que observam suas radiografias. O ponto de câmera, de baixo para cima, potencializa a imagem e dá um lugar de atendimento e de cuidado extremo ao frágil menino, que carrega o novo relógio Hopalong Cassidy em seu pulso. Os olhares atentos dos quatro médicos diretamente para as radiografias são uma forma de busca das causas internas da doença e do diagnóstico; o garoto é somente parte do espetáculo montado para o circo midiático. O texto diz:

Enquanto os médicos de Denver estudam os raios-X de seu peito e braços no hospital, Flavio fica sentado preocupado, sabendo que apenas esses homens “irão me fazer ficar bem”. Durante vários dias ele enfrentou uma longa série de testes que determinarão o curso do tratamento que provavelmente durará dois anos. A cavidade aumentada de seu peito confirmou a suspeita de que ele teria um dos mais severos tipos de asma e o raio-x da mão indicou que aos 12 anos, Flavio tem a estrutura óssea de um menino de 9. Sua altura (4 pés e uma polegada) e peso (46 libras) equivalem a uma criança de 6 anos.”

A reportagem mostra nos textos e nas imagens seus novos relacionamentos para amenizar a dura jornada de cuidados médicos: a tutora lhe ensinando inglês, um garoto que lhe apresenta o taco de beisebol e que comprou um livro de frases em português para tentar algum diálogo, participando de jogo de queimada e demonstrando habilidade no jogo de bolinhas de gude, segundo o texto. Flávio aparece com meias idênticas às que usava quando foi fotografado no aeroporto do Rio de Janeiro e demonstra uma estranheza com a oferta do taco. As imagens tentam mostrar que o menino não estava isolado em um hospital, mas estava conhecendo a vida e os costumes dos EUA.

Na última página dupla ocorre a imagem do contato corporal, um menino americano toca seu ombro, abraçando-o, dando-nos a sensação de acolhimento, de ser bem recebido, de inclusão, e o texto reforça essa condição explorada na imagem:

“Um momento de carinho. Incapaz de romper a barreira de linguagem, Tommy Ebbe, 7, pede: “Você quer ser meu amigo? Diga que sim!”.  Embora as palavras não significassem nada, Flávio pôde entender a mão em seu ombro. Os meninos simplesmente levaram Flávio pelo braço e ensinaram a rotina do dia. Mas agora ele já aprendeu palavras básicas em inglês, como baseball, televisão, comida – além de oi e amigo.

As imagens em fluxo temporal entre o Brasil e os EUA marcam uma relação entre a ação direta do resgate e o tratamento médico e adaptação à nova vida. Ainda no Brasil, a imagem de Flávio agarrando com seus braços o seu novo tutor se contrapõe a outra imagem sem a mesma força, do garoto se despedindo de sua mãe, mas reforçando uma sensação de deslocamento temporal, físico, imagético e afetivo. Esse deslocamento já tinha sido anunciando no contraponto entre a primeira e triste imagem catalizadora de todo o processo de potencialização simbólica da ideia de morte, quando ainda estava deitado em seu barraco, sem esperanças, pesadamente marcado para morrer, justaposta à imagem da leveza do embalar ao ar, como um indivíduo livre e feliz, uma passagem da tragédia para o paraíso, da miséria ao bem-estar. Tal ordem de passagem se dá também na mudança da família para a nova casa, com novas roupas, nova esperança de vida para os sete irmãos e o bebê em gestação. O assunto é regido pelo conceito de transformação, de passagem e de fluxo, ou como últimas imagens no Brasil, os instantes antes de entrar no avião também para o conceito de deslocamento geográfico entre o sul e o norte do continente americano. Passa-se das imagens de descuido para intensa atenção médica, quase obsessiva, pela imagem de quatro médicos a debruçar sobre suas radiografias, e também de um garoto fadado a cuidar de seus irmãos em ambiente familiar inseguro e violento para um lugar de infância ainda não perdida ao encontrar com seus novos amiguinhos norte-americanos, pois agora não precisa mais cuidar de seus irmãos, ser responsável por todos e pode enfim brincar como qualquer criança. É-lhe dada a vida e a esperança, a ele e aos leitores de Life, que podem ficar agora confortados pela ação do resgate efetivado pela revista e comandado pelo personagem tutor-fotógrafo. Parks também é personagem incorporado à imagem que fez de Flávio sucumbindo na luz barroca de seu barraco, existindo como espelhamento de sua sensibilidade poética frente à morte, mas agora um enviado divino, como um anjo anunciador da vida e como comandante da salvação de Flávio.

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