O caso Flávio Pesquisa de Fernando de Tacca

3 - O retorno de Parks e a Life de 07 de julho de 1961

No final de junho, pouco mais de um mês depois de sua volta para os EUA, Parks retorna ao Brasil. Sensibilizados pela dramática situação da família Silva e o pequeno Flávio, muitos leitores norte-americanos da revista direcionam donativos para a Life, perfazendo uma grande quantia, e até mesmo uma pessoa enviou uma quantia razoável de dinheiro diretamente para a Embaixada dos EUA no Brasil (na época CR$65.000,00). Na edição da Life do dia 07 de julho, a primeira parte da revista é dedicada somente às cartas que os leitores encaminham para a redação com doações de todos os tipos. Logo no editorial informa-se “E agora, o fotógrafo Gordon Parks está voltando ao Rio para ver seu famoso amigo Flávio, cuja história na Life, três semanas atrás, criou tão forte comoção de resposta dos leitores de Life que nós publicamos um relato de suas cartas nas páginas 15-16”.

Nas duas páginas são apresentadas cartas de diferentes lugares e diferentes pessoas, velhas ou novas, todas emocionadas com a história do garoto Flávio oferecem dinheiro, roupas, remédios, casa para morar nos EUA etc. Uma foto dele, com suas roupas sujas e rasgadas, olhando diretamente para a câmera, e não publicada anteriormente, toma boa parte da primeira página de cartas. A foto de Flávio olhando diretamente para Parks, em situação de pose, talvez não tenha sido publicada exatamente para não dar esse lugar de cumplicidade fotográfica explícita e sim fazer da reportagem um lugar de olhar realista e neutro, um lugar para o recorte imparcial da miséria, podemos assim dizer. A imagem de um garoto que quase não se sustenta nas suas pernas, mas que olha com altivez para a câmera, parece compartilhar o sentimento dos leitores de causa humanitária a ser alcançada pelo fluxo de dólares e de esperança de que ele teria salvação nos EUA, pois muitas cartas colocam essa possibilidade.

Na outra página, aparece Parks envolvido com as crianças, em foto provável de José Gallo. Ao final, a direção informa aos seus leitores que foi criado o Flavio Fund, aos cuidados de Life Magazine, e que em breve eles vão providenciar a mudança de casa da família Da Silva e um trabalho para o pai de Flávio, e o texto termina afirmando que irão trazer o garoto para um hospital nos EUA para seu tratamento médico. O hospital The children´s Asthma Research Institute and Hospital, em Denver, se prontificou a receber Flávio para um tratamento de dois anos sem custos.

Segundo Parks, o fundo conseguiu arrecadar 30.000 dólares, uma quantia muito elevada para a época. Foi acordado que o fundo seria repartido de forma igualitária entre Flávio, sua família e para a favela da Catacumba. A quantia destinada para a comunidade foi uma forma de tentar fazer um projeto piloto para a Aliança para o Progresso, do presidente Kennedy. No dia 05 de julho os dirigentes da Life e Gordon Parks fizeram uma entrevista coletiva com a imprensa carioca para anunciar a compra da casa para a família, com geladeira, fogão, roupas etc., e a ida de Flávio para os EUA. Assim, a passagem de Parks pelo Brasil é muito documentada pela imprensa carioca, principalmente entre os dias 05 e 08 de julho, ou seja, em pleno lançamento da edição que anuncia o fundo e a provável ida de Flávio para os EUA. Todos importantes jornais cariocas publicaram longas matérias e com foto na capa: Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Correio da Manhã.

Os jornais cariocas publicaram a chegada e as ações de Parks com muito destaque, são reportagens entre os dias 05 e 08 de julho. O primeiro jornal a publicar, e com grande destaque, foi o Jornal do Brasil do dia 05 de julho, que estampou em sua primeira capa a famosa foto de Flávio publicada no dia 16 de junho, a imagem mais forte e impactante da revista (a nota de primeira página ainda acrescenta que reproduziu a foto diretamente da revista), e relatou em página interna a passagem de Parks pelo Brasil. A reportagem diz que Flávio partiria no mesmo dia, 05/07/1961, para os EUA, que não conseguiu localizar o menino e sua família e que a Life estava preparando um filme para a televisão sobre o caso. Com o título “Menino asmático da favela parte hoje para os EUA a convite da revista Life”, o prefácio indica a partida de Flávio para os EUA, o tratamento em hospital, a educação em bom colégio e a possibilidade de ele se tornar o tema de futura reportagem da própria Life, antecipando uma edição que ocorreu realmente, e completa: “A história dos favelados não só comoveu os leitores americanos, como também levou a revista a amparar a família de nordestinos do Morro da Catacumba, dando-lhe casa e instrução para os filhos – tudo como num conto de fadas, que será contado hoje à tarde pelos dirigentes da Life, em entrevista coletiva.” Fica também claro que a Life procurava conversações no Brasil e espaço de mídia.

O texto do jornal reproduz praticamente os escritos da própria revista Life, dando foco em algumas passagens mais terríveis como o diário do fotógrafo do dia 04 de abril:

Estava insuportavelmente quente hoje. José, parecendo mais morto do que vivo, deitava-se tremendo e febril sob um coberto velho. Ele se contorcia na cama, murmurando: “Meus Deus, que vai ser de mim?”. Uma imensa aranha negra arrastava-se sobre a sua perna e Isabel, que estava perto, olhou até que o aracnídeo chegou à altura de seu joelho. Então, com a mão fechada, esmagou-a; José gritou, e levantando a mão, espalmou-a contra o rosto de Isabel. Ela, ao lado da cama, começou a chorar, até que Flávio levou-a a beira do fogão, mergulhou um pedaço de pão no café e enfiou-o entre os seus lábios. Ela parou de chorar, mas imediatamente recomeçou. De repente, sem nenhum motivo aparente, atirou-se a Zacarias e deu-lhe um pontapé na cabeça. Então Luzia, em defesa de Zacarias, derrubou Isabel no chão. Flávio parou de varrer o chão para intervir. Mário, por sua vez, ansioso por fugir, chocou-se de cara com sua mãe, que vinha entrando. Ela agarrou-o e esbofeteou-o na cabeça, fazendo com que caísse ao chão gritando: “Por que diabo você me bateu?”. A mãe agarrou Zacarias e colocou-o na cama, sentando-se a seu lado e escondeu a cabeça com os braços. Isabel, com os olhos magoados postos em Luzia, sentada num canto, resmungava: “Vagabunda! Sua Vagabunda, suja!” Depois de limpar seus pés com café frio, Luzia saiu e, sentando-se na porta, começou a chupar o dedo”.

Essa e outras passagens devidamente traduzidas aproximaram o público brasileiro do teor da revista americana, mostrando a forma dura e crua da narrativa de Parks, que chega a intervir para que não haja mais violência, segundo seu relato. Ou ainda quando ele diz no dia 23 de março: “Hoje, comecei a dar pequenas somas de dinheiro às crianças e já me arrependo disso. Com exceção de Flávio, não importa quanto dinheiro se dá a eles, que estão sempre pedindo mais. Nada menos de cinco deles aglomeraram-se ao redor de mim, hoje, chegando mesmo a forçar suas mãos dentro dos meus bolsos e pedindo: - Americano, money, money, americano.”

Depois do JB, os outros jornais publicaram matérias no dia 06 de julho. O jornal O Globo também deu destaque em primeira página com foto do menino Flávio com a câmera de Parks na mão, em foto realizada no próprio aeroporto, e pela primeira vez com um sorriso estampado no rosto. Na parte interna, o jornal reproduz informações já conhecidas e acrescenta que a revista comprou uma casa para os pais de Flávio, roupas, brinquedos etc. Entretanto, o jornal mostra conhecimento sobre o assunto ao informar que “A reportagem é a segunda de uma série inspirada no crescente interesse dos norte-americanos pelos países sul-americanos. Na primeira, foi abordada a ação do Deputado Francisco Julião e das Ligas Camponesas do Nordeste. A terceira, que está circulando atualmente na edição norte-americana de Life, expõe o problema de uma nação pobre, focalizando a Bolívia. Na quarta, será ilustrada a história da América Latina e, na quinta, com 15 páginas de fotos em cores, será mostrado o progresso feito pelo Brasil, em particular, e a América do Sul, em geral, a despeito de todas as dificuldades.”. A quarta reportagem efetivamente não ocorreu, e a reportagem termina de forma otimista anunciando que os pais estavam “radiantes” e que agora José vai comprar um caminhão e ter trabalho na área de transporte.

O jornal O Dia também publica no dia 06 de julho uma foto em primeira página com detalhe do menino Flávio dando comida ao seu irmão menor, em detalhe retirado da reportagem de Life, com a seguinte chamada: “Da favela para os Estados Unidos”, e reporta a viagem do garoto no dia anterior e a reportagem da revista norte-americana, sem outros dizeres na parte interna no jornal, somente a chamada de capa. O jornal Correio da Manhã também publica extensa reportagem nesse dia com o título “Life ajuda favelados que exibiram pobreza ao mundo”, com informações atualizadas da coletiva de imprensa que o escritório da Life realizou no dia anterior, e também relata todos os acontecimentos, mas com redação própria, não simplesmente copiando a reportagem de Life, anunciando as reportagens já publicadas, inclusive a matéria sobre as cartas dos leitores da revista americana e sobre uma futura edição com ele já nos EUA. Com mais veemência que outros jornais o texto escreve sobre a nova moradia: ”Uma casa mobiliada com todo o conforto, abriga hoje José Manoel da Silva, sua esposa e filhos menores, que iniciam vida nova, que contrasta com a que vinham suportando no fétido e vazio barraco em que foram fotografados para o mundo”. E também alude a um “prêmio” como a ação que promoveram para melhorar a situação da família Silva:

Com a ajuda de José Gallo que é o reporter brasileiro de Life, e de outros funcionários de Time e Life, em uma semana foi adquirida uma casa para a família de José Manoel da Silva. Está localizada na Rua Oito, Quadra S. n°. 22, no conjunto residencial de casas populares, em Deodoro. A casa é constituída de sala, dois quartos, banheiro completo, cozinha, saleta, jardim e área de serviço. No quintal existem mais dois quartos. A família, em nova residência, disporá de todas as facilidades: eletricidade, água e esgoto, maternidade, postos de saúde e puericultura, escolas, posto policial, play-ground, e outras vantagens que desconhecia na favela. A casa está completamente mobiliada. Camas com colchões de molas, lençóis e travesseiros para cada membro da família, mobília para a sala de jantar, fogão a gás, geladeira, rádio, e outras utilidades que completam o conforto. O prêmio consistiu, ainda, de 120 mil cruzeiros em roupas e mantimentos. O valor da casa é de 750 mil cruzeiros. Outro prêmio: o chefe da família ganhará um emprego ou um caminhão. Disse preferir o veículo, que lhe permitirá trabalho autônomo. Enquanto não obtiver o emprego (ou o caminhão), será assistido pela revista.

Em seguida, no dia 08 de julho, os jornais publicaram algumas restrições que a censura estava fazendo sobre a realização de um filme para a televisão com equipe norte-americana. O jornal Correio da Manhã publica duas fotos tomando grande parte da primeira página e realizadas provavelmente pelos seus próprios fotógrafos acompanhando Gordon Parks na favela da Catacumba, mostrando ele dentro do casebre e andando pelas vielas. Com o título “O outro lado do Rio” e com chamada somente na primeira página do jornal, o texto é mais veemente ainda:

Não é cena de filme neo-realista italiano. Não é cena de guerra nem tão pouco de desastre ferroviário. Trata-se de um quarto num barracão de favela. A figura em primeiro plano é mãe de oito filhos, alguns dos quais estavam brincando e, por isso, não puderam aparecer. O homem que se encontrava deitado, quando o fotográfo da revista Life chegou e não se deu ao trabalho de levantar, tão chateado que já andava, é o chefe da família. Dentro de algumas semanas nasceria aqui outro “neném”, não fossem alguns cidadãos se reunirem lá nos Estados Unidos para decidir que Parks, repórter experiente, viria ao Rio fazer reportagens nos morros cariocas. Parks veio, viu, assustou-se, fotografou. A miséria da família de favelados foi mostrada ao mundo. Em compensação, essa mesma família ganhou uma casa decente em Deodoro. Na foto seguinte aparecem vários garotinhos e alguns vizinhos adultos da família que tirou a sorte grande. Esses ficarão esperando que novos diretores de alguma revista nos EUA se reúnam, para fazer reportagens no Rio, a fim de ganharem habitações limpas? Não pretendemos que as autoridades competentes nos respondam. Não fazemos sugestões. As fotos de Life falam por si. E como falam alto!”

Os jornais O Globo e O Dia trouxeram também no dia 08 de julho matérias sobre uma possível censura ao filme que a equipe da Life estava realizando sobre o menino Flávio, pois devido à grande repercussão do caso nos EUA preparavam um produto para televisão. O jornal O Dia abre sua manchete com o título “Filme sobre a favela será censurado hoje”, e informa que o Serviço de Censura programou para a manhã desse dia a exibição da película e somente depois de assisti-la o chefe do Serviço de Censura iria decidir pela liberação. O representante de Life no Brasil, George de Carvalho, entregou a documentação legal para a produção do filme e, segundo o chefe do Serviço de Censura, Ascendino Leite, o cinegrafista não foi preso, mas o filme teria se iniciado sem autorização, portanto era irregular, por isso a sustação da filmagem. Segundo o chefe da Life no Brasil, o filme não teria caráter comercial: “... foi rodada unicamente para ampliar a campanha que Life realiza nos Estados Unidos, visando o levantamento de fundos para o socorro dos favelados cariocas”.

O Globo, no mesmo dia, anuncia “Um equívoco e caso encerrado a celeuma com filmes da Life” e também publica que não houve prisão do cinegrafista Rex Endeleigh, e com a apresentação da sinopse do filme com fotos de Gordon Parks, entendeu o chefe da censura que Life havia agido de boa fé e estava esclarecido o “mal-entendido”, e acrescenta a reportagem:

“Explicou o Sr. Ascendino Leite que somente por falta de pessoal solicitou à Polícia informações sobre o documentário, e que sua intenção foi apenas a de aplicar a lei que condiciona filmagens no Brasil à obtenção de uma licença e à censura prévia antes de sua exportação. A lei – segundo ponderou – não havia sido aplicada antes porque a preparação final das películas vinha sendo feita em laboratórios estrangeiros, o que não ocorreu com o filme do Life, revelado e copiado aqui mesmo. Disse também o Sr. Ascendino Leite que os responsáveis por este último prometeram-lhe exibi-lo, hoje, para sua apreciação.”

Assim, entre muitas reportagens dos principais jornais cariocas durante quatro dias seguidos, com fotos em primeira página, extensas reportagens, polêmicas com a censura mesmo depois da viagem de Flávio, ficou estabelecida uma situação de desconforto com a presença de um veículo de imprensa internacional criando uma situação de constrangimento nacional com as ações humanitárias da revista Life em resposta ao apelo de seus leitores. A foto do menino Flávio estampada logo no dia 05 de junho pelo Jornal do Brasil abriu a questão para os outros jornais e todos passaram a dar destaques nesses poucos dias do retorno de Parks ao Brasil.

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