O caso Flávio Pesquisa de Fernando de Tacca

2 - A família Silva e o menino Flávio
Life (16 de junho de 1961)

A foto de Gordon Parks, “Flávio da Silva, 1961”, é sempre referenciada em todas as mostras e publicações de Life (The Great Life Photographers, Thames and Hudson, Londres, 2004, pág. 415) e mostra um garoto deitado na cama, com uma luz barroca, dramática, na qual nos defrontamos com a dor de um menino esquelético em meio a cobertas marcadas por ondas de dobras. Na sua primeira publicação na edição de Life Magazine no dia 16 de junho de 1961, ao seu lado e em página dupla aparece uma mulher também deitada com velas ao seu redor e com a cabeça enrolada em panos, uma imagem mortuária indicativa de um futuro terrível para o garoto Flávio, criando um fluxo entre imagens que induz à ideia de morte. A foto do garoto fecha emblematicamente a reportagem de Parks, deixando aos leitores essa possibilidade de compreensão de um sofrimento com morte anunciada presente na montagem clássica entre as duas imagens.

A reportagem também foi publicada na versão doméstica de Life e no dia 24 de julho de 1961 foi publicada na versão da Life em espanhol e vai causar muita polêmica no Brasil. Na capa da edição internacional o título foi “América Latina, parte II – Pobreza Chocante”, e em seguida um subtítulo interno para o “Ensaio Fotográfico”: “O temível inimigo da liberdade: a pobreza – Parte II na série da Life sobre a América Latina. Uma família castigada vive em desespero numa favela do Rio. Fotografias da Life por Gordon Parks acompanhadas pelo seu emocionante diário pessoal.”

O título da edição em espanhol foi um pouco diferente: “Uma família das favelas do Rio – A miséria, inimiga da liberdade”. Podemos apontar uma amenização entre as duas chamadas e mesmo o subtítulo interno da revista. Para os norte-americanos as chamadas buscam uma situação mais apelativa e sensacionalista, enquanto para os leitores latino-americanos tentou-se uma adaptação e sem adjetivos, com característica mais situacionista da própria reportagem, entretanto, com realce para a questão da “liberdade”.

Muitos jornais brasileiros irão publicar matérias sobre a reportagem, alguns poucos tentaram desqualificá-la como denúncia social deslocando-a para o campo do sensacionalismo mercadológico e a maioria simplesmente noticiou o fato com os acontecimentos que envolveram a presença de Parks no Brasil. Os títulos marcam bem essa posição da reportagem da Life e seu envolvimento ideológico com as propostas de ação desenvolvimentista na América Latina por parte do governo norte-americano, como possibilidade de enfrentar o avanço dos movimentos sociais, pois seria na miséria que os “comunistas” fariam crescer suas forças e sua organização.

O escritório da Life no Brasil, sediado no Rio de Janeiro, pesquisou dez famílias faveladas com ajuda da LBA - Legião Brasileira de Assistência, e escolheu a família de José Manuel da Silva e Nair Germana da Silva, com oito filhos, como exemplo a ser fotografado. Morando na favela da Catacumba, que alguns anos depois foi removida e a maioria de seus moradores formou o então novo bairro chamado de Cidade de Deus, a família recebeu Gordon Parks que esteve todo o tempo acompanhado pelo jornalista brasileiro José Gallo.

Parks chega ao Brasil em março de 1961, encontra a família Silva e convive muitos dias observando e fotografando o cotidiano das crianças, principalmente quando os pais saem para trabalhar e o menino Flávio, então com 12 anos, cuida de seus irmãos menores. Depois de três semanas no Brasil, relata suas incursões pela favela da Catacumba e sobre a família Silva para direção da revista, e logo em seguida recebe um telegrama da direção de Life, com mensagem direta do editor-chefe Tim Foote dizendo que ele (Parks) estava com uma grande história: ...“Flávio soa trágico, mas ele também soa maravilhoso - Fique perto dele e nos mantenha informado - Faça um diário - Repito faça um diário - Abraço Foote[1]. Então Parks começa a fazer um diário a partir do dia 24 de março e finaliza no dia 09 de abril, quando deixa o país. Esse diário é publicado na sua totalidade ao final da reportagem do dia 16 de junho, e também posteriormente em seu livro “Flávio” (publicado em 1978) no qual relata suas experiências no Brasil.

Na primeira página da reportagem do dia 16 de junho foi publicada uma espécie de manifestação editorial como texto introdutório que alude questões mais amplas da questão da miséria, como a desnutrição e as enfermidades dos pobres da América Latina, e para exemplificar apresentam a família Silva como o rosto do sofrimento humano, como uma família generalizada dos pobres latino-americanos, e como sujeitos à ação ideológica das esquerdas:

A angústia infligida pela pobreza é cruel e variada e as estatísticas não conseguem transmitir os tormentos e as degradações acumulados. Mas a pobreza sempre tem uma face humana e essa semana, para dar vida a alguns breves fragmentos da enorme pobreza e da miséria presentes nas pessoas da América Latina de hoje, a Life apresenta uma família – os Da Silva. Eles vivem em uma favela, um sweating morro da rica e elegante cidade do Rio de Janeiro. Contudo, sua pobreza pode ser encontrada em praticamente qualquer outro lugar da América Latina: nas terras de cana do nordeste brasileiro; em Caracas, a capital da riqueza de petróleo da Venezuela; nos planaltos da Bolívia; no Chile e no Equador, onde centenas de milhares de pessoas apenas existem, desperdiçadas por má nutrição e doenças.

A condição dos Da Silva, entendidos como indivíduos, evoca compaixão humana. Vistos historicamente, sua situação e aquela dos outros milhões sem esperança na América Latina, implica perigo acentuado – e um desafio econômico para o mundo livre. Na maior parte aglomerados em bolsões (a América Latina tem relativamente pouca área cultivável, apesar de ser duas vezes o tamanho dos Estados Unidos) largamente distribuídos nos morros das cidades onde a abundante pobreza se torna um campo fértil para exploração política comunista e Castrista (Life, 2 de Junho). Para combater essa ameaça, líderes dos Estados Unidos e da América Latina precisam enfrentar uma inquietante série de fatos. Sob o livre sistema econômico da América Latina, a indústria tem crescido solidamente, a nova classe média tem aumentado e as instituições democráticas estão com raízes mais profundas. Entretanto, mais rapidamente que esses aspectos, a pobreza tem crescido também. A população latino-americana dobrou nos últimos 40 anos, e pode triplicar na altura do ano 2000, sendo que a média de renda per capita anual é de apenas $289. E a taxa de crescimento da renda em comparação com o crescimento da população é uma das piores do mundo – mesmo em comparação com a África.

Esse perigo e seus desafios serão de urgência no próximo mês, quando os líderes do Hemisfério Ocidental se encontrarão no Uruguai para ajudar a iniciar o novo programa “Aliança pelo progresso” do Presente Kennedy. O mundo livre oferece liberdade e livre desenvolvimento econômico como uma maneira de dar suporte aos países se ajudarem. Se esse sistema não for feito para funcionar, nem o próprio sistema nem a liberdade irão durar.”

A imagem em página dupla que acompanha o texto introdutório é trágica: uma pequena criança ao lado de um adulto abandonado na cama, exausto e cansado, extasiado, talvez dormindo, com legenda dizendo que ele não atende aos chamados da filha. José Manuel da Silva, nordestino da Paraíba, operário da construção civil, estava acidentado e não recebia nenhuma assistência do governo. Mesmo Parks fazendo um diário publicado na reportagem, a reportagem de Life não indica quem escreveu o texto publicado, mas o Jornal do Brasil (06/07/1961) afirma que o texto é de autoria de José Gallo.

A reportagem mostra o cotidiano de uma família branca, favelada e nordestina, muito pobre, na qual o pequeno Flávio cuida de seus irmãos mais novos na ausência de seus pais. No contexto geral, o uso de uma teleobjetiva faz um achatamento dos planos aproximando a favela da Catacumba em primeiro plano da estátua do Cristo Redentor em segundo plano, diminuindo a distância real e, assim, a imagem símbolo do Rio de Janeiro passa a ser cenário da pobreza. Esse truque fotográfico importunou bastante jornalistas e intelectuais, como um “truque” fotográfico. O texto coloca o cartão postal do Rio como um símbolo impotente perante a miséria e também sobre as diferenças sociais: “A figura do Cristo se eleva sobre o ziguezague dos barracos que compõem a favela onde José e Nair da Silva vivem com seus oito filhos. A estátua parece pairar não apenas sobre a fome e a doença da favela, mas também sobre a ensolarada elegância da Praia de Copacabana e as reluzentes moradias do Rio abaixo do morro.”

Nas cenas internas os pais aparecem dormindo na mesma cama com seis de seus oito filhos e Flávio aparece sentado, primeiro a acordar, como se estivesse arrumando as poucas peças de roupa, em seguida o texto descreve suas atividades matutinas de preparação do café da família: “... Flávio coloca uma pequena lata de água no fogo e põe um pouco de café. Algumas vezes há um pão duro. Algumas vezes não. Para todos eles, inclusive para o bebê, isso é o café da manhã”. Aparentemente tudo indica que essa e outras fotos são compartilhadas com o fotógrafo, com certa direção de cena, em alguns casos com uma luz talvez preparada para otimizar as próprias condições naturais de iluminação e em outros quase uma mise-en-scène, uma naturalização com apagamento do fotógrafo, ou seja, Parks procura naturalizar as imagens para criar o clima realista; podemos apontar que não existe nenhuma foto publicada na reportagem que apresente olhar direto para a câmera.

Parks acompanha Flávio nos seus afazeres domésticos, esquentando água, preparando comida, arrumando a cama, alimentando seu irmão pequeno, de 17 meses. Uma chamada dá o tom da reportagem: “Um menino sobrecarregado com o fardo dos cuidados da família”; e na edição espanhola, “Um menino que leva o peso do mundo”. O texto indica uma visão otimista dos pais que esperam um dia que seus filhos saiam da favela, mas um dado derruba essa visão, e o texto diz que muitas crianças morrem de doenças: “Ano passado no Rio, em torno de 10.000 crianças morreram de disenteria”, e assim prepara para o encerramento, anunciando que Flávio trava outra batalha - pois tem asma e é subnutrido - contra a morte. Doente, com asma, subnutrido, tendo a responsabilidade de cuidar de seus irmãos, Flávio é anunciado ao lado da morte na página seguinte.

A foto de Flávio deitado com o rosto em sofrimento vai tornar-se mundialmente conhecida isoladamente; na reportagem, é publicada ao lado de outra foto pesada e dramática, a de um cadáver com uma vela aos pés e outras duas próximas à sua cabeça enrolada em pano branco, que Parks acentua ter sido feita muito perto da casa de Flávio. As fotos ocupam a página dupla em toda sua extensão e a do pequeno Flávio dialoga com a foto do cadáver: na mesma angulação, seu rosto virado em direção à morte anunciada ao seu lado, em página dupla e em relação de vizinhança. Diz o texto: “Uma vizinha morta dos Da Silva está deitada com velas de vigília enquanto espera pelo enterro. Um travesseiro para sua cabeça e lençóis de linho usado para mortalhas são amenidades que poucos favelados têm em vida. Quando Gordon Parks perguntou a um favelado sobre seus seis filhos, ele respondeu “eram nove. Os outros três estão com Deus. Ele foi bom o suficiente para levá-los”.

Era um dia de domingo, quando o menino pode descansar com a presença de sua mãe em casa cuidando de seus filhos, e Parks diz que Flávio lhe confessa: “Não tenho medo da morte... mas o que eles farão sem mim?”. São dados todos os elementos para que o constrangimento com a veiculação internacional de uma família branca favelada nessa situação atingisse o sentimento nacionalista, acentuado por uma montagem eisesteiniana. Por outro lado, o impacto de uma narrativa dramática focada em uma criança pobre e doente irá comover o leitor médio da Life, que será ainda mais sensibilizado com a publicação do diário de Parks, no qual o cotidiano é dramatizado nas relações diárias, com revelações em tom pessoal, ou seja, com o envolvimento emocional do fotógrafo.

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[1] PARKS, Gordon. Flavio. NY: W W Norton & Company INC, 1978, página 35.