O caso Flávio Pesquisa de Fernando de Tacca

1.3 - Introdução: o contexto

Life - 30 de junho de 1961

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Com chamada “Bolívia: Os Estados Unidos apostam em uma revolução. Uma terra atormentada, sombria”, e fotos de Dmitri Kessel, a reportagem mostra um país que teve uma forte presença norte-americana no governo de Víctor Paz Estenssoro, desde 1952, quando o presidente nacionalizou minas e realizou uma revolução com fortes tendências dos políticos liberais latino-americanos não comprometidos com o avanço comunista. Distribuição de terras para os camponeses e fim de uma escravidão dos mineiros, enfim “...uma completa revolução social”, com a ajuda de milhões de dólares dos EUA, parece que não resultaram em efetivo progresso das relações sociais.

O texto diz que houve um primeiro momento de independência e patriotismo, mas queda da produção agrícola e da produção de estanho. O fortalecimento dos sindicatos são as “causas” da perda da produtividade e o governo passa a travar uma luta contra os movimentos sindicais. E em meio a uma ajuda do EUA, o presidente boliviano prendeu 70 líderes de esquerda, mas com controle frágil da situação, segundo a revista. A primeira foto mostra o líder de um sindicato de mineiros, Irineo Pimentel, sem capacete e rodeado de seus companheiros, mas “chefe de um poderoso sindicato comandado pelos comunistas”. Irineo Pimentel foi um entre os tantos detidos.

O título da página seguinte e a foto demonstram o temor dos rumos da revolução, com mineiros desfilando e armados: “Um perigo para a estabilidade, mineiros armados e irritados”. Assim, os mineiros, como grande força de trabalho da área econômica mais importante do país, mostram sua força organizativa, e um mineiro militante se deixa fotografar com “...granadas caseiras de dinamite armazenadas na sede do sindicato em Catavi. Atiradores praticam arremessando essas bombas nos vales andinos”.

Entretanto, a revolução apoiada pelos EUA é vangloriada com imagens de crianças indígenas brincando no campo, mais próximas da civilização, trabalhando em cooperativas, com professores indígenas formados pelo Estado, que são enviados para “...para treinar a nova geração”. O título da página é uma ode à política de Víctor Paz Estenssoro: “Um triunfo: Tratamento justo para os camponeses”.

Em seguida, na outra página dupla, com o título “Orgulho em um País, a chance de aprender”, temos a clássica montagem de duas imagens para construir uma terceira significação. Na primeira imagem, mulheres desfilam com bandeiras bolivianas no aniversário da revolução e em apoio ao governo e, na foto justaposta, um retrato de corpo inteiro de uma pequena criança indígena “...aprendendo a falar a língua oficial de seu país”. A justaposição mulheres-criança é fomentadora de uma relação maternal e o Estado aparece como tutor paterno da nova situação de transformação social pela educação.

Finalizando a reportagem, também um texto analítico mostra as contradições entre a revolução boliviana e o avanço das forças progressivas, e a contradição com o apoio norte-americano. A estabilidade política e a tentativa de consolidação de uma revolução social, com tendência liberal, somente foram possíveis com ajuda financeira dos EUA, mesmo excitantes no começo, segundo a revista, mas as contradições internas dificultaram o processo de implantação das reformas sociais, entre elas a presença de agentes do governo soviético com propostas de ajuda financeira, muitas vezes além das norte-americanas. O texto mostra que Paz não conseguiu dar o salto de produtividade ou ao menos manter a produção das minas e dos camponeses assentados em suas terras, pois sem condições somente produzem para sobreviver.

Segundo a revista, a economia boliviana ficou dependente da ajuda norte-americana e, em alguns casos, um terço do orçamento era pago pelo governo dos EUA:

Muito do fracasso foi causado pela dificuldade incrível de tentar ajudar a reorganizar um país em colapso, muitas vezes corrupto, sem efetivamente intervir e governá-lo nós mesmos. Os Estados Unidos hesitaram em pedir ao governo para reprimir os trabalhadores indisciplinados. Havia o problema do sentimento nacional: os bolivianos são orgulhosos e independentes. Como resultado, a ajuda norte-americana pareceu em muitas vezes ser uma esmola e em outras foi entendida como uma resposta à ameaça soviética”.

A Bolívia foi o principal investimento norte-americano dentro do plano da Aliança para o Progresso, com ajuda de 10 milhões destinada às indústrias e, segundo a reportagem, construíram novas estradas, novas áreas de cultivo, erradicou-se a varíola e a Bolívia está se tornando auto-suficiente em açúcar e arroz. E finaliza:

Surgem sinais encorajadores de que os Estados Unidos e a administração boliviana aprenderam com os erros do passado. Ao lado de reprimir os líderes trabalhadores de esquerda, o governo de Paz também prometeu reformas em larga escala na administração das superpopulosas minas de estanho. Nos seus últimos programa de ajuda, os Estados Unidos estão mostrando realismo e sofisticação. Como pré-requisito para ajuda estamos agora requerendo a reorganização das minas e para espalhar os encargos da revitalização da economia boliviana alistamos a ajuda da Alemanha Ocidental e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A questão agora é de se tais esforços conseguirão superar as forças do caos que estão agora no país. ... A Bolívia pode ainda se tornar o Laos da América Latina. Mas pode se tornar um triunfo notável para os crescentes esforços dos Estados Unidos em ajudar as populações da América Latina que estão dispostas a ajudarem a si mesmas”.

Desta forma, a reportagem sobre a Bolívia tenta mostrar um envolvimento dos EUA com transformações sociais, mesmo antes da revolução cubana, e as dificuldades com as políticas internas do país, principalmente em como se relacionar com a organização dos trabalhadores dentro de novas relações políticas, além da constante presença das forças comunistas, dos “agentes soviéticos”. Mas, nessa reportagem, de forma inexplicável, o grande inimigo Fidel Castro não aparece nenhuma vez, nem em imagem, nem em texto, talvez para demonstrar que onde os EUA tiveram presença econômica e política não haveria penetração cubana. Entretanto, poucos anos depois tiveram de ajudar no cerco à guerrilha e na morte de Che Guevara em 1967, na Bolívia, e fortalecer a construção de um dos maiores ícones do século XX, com ainda forte presença imagética e simbólica na juventude atual.

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