Fotografia de minorias: apontamentos para uma discussão 1/2   

Silvia Pérez Fernández[1]
Tradução: Maria Elena Ortiz Assumpção

"... se a fotografia fosse conhecida em 1798, teríamos hoje grande número de cenas emblemáticas. A cobiça dos árabes e o vandalismo de certos viajantes privaram o mundo culto de conhecê-las."

Com essas palavras, François Aragó expôs uma das muitas possibilidades que a fotografia (daguerreótipo) podia proporcionar à humanidade, propondo ao Estado francês patentear a invenção de Daguerre em 1839. Apenas dez anos mais tarde, Maxime Du Camp fotografava-se parado sobre as ruínas do Grande Templo de Denderah, no Egito. Maxime du Camp, Grande Templo de Denderah, Egipto, 1849-1851. Imprenta fotográfica Blanquart-Évrard, Paris, 1852. Essa fotografia foi incluída no livro publicado por Gide e J. Baudry (Paris, 1852): Egito, Núbia, Palestina e Síria, ilustrações fotográficas recolhidas durante os anos 1849, 1850 e 1851, acompanhadas de um texto explicativo e precedidas por uma introdução de Maxime du Camp, encarregado de uma missão arqueológica no Oriente pelo Ministério de Instrução Pública. O Estado havia tomado como seus os argumentos de Aragó.

Por outro lado, e em meio às primeiras discussões sobre o caráter artístico ou técnico-documental, a Exposição Universal realizada em Paris, em 1855, admite a fotografia no Palácio da Indústria, mas não no de Belas Artes. Os argumentos a respeito de sua utilidade, esgrimidos pelos jurados Ernst Lacan e Eugène Disderi, podem resumir-se a: 1) responder a necessidades figurativas da Ciência, da Arte e da Indústria 2) vulgarizar, em proveito de todos, o que era monopólio de poucos – as obras de arte, por exemplo – e transformar-se assim em um “auxiliar democrático por excelência” 3) instruir e educar “as massas para elevá-las e fazê-las melhores” 4) favorecer, no interesse do progresso, uma “ação moralizadora” sobre a classe operária. Haveria nisso, “tanto para o patrão como para o trabalhador, utilidade moral e utilidade material”. Por último, o procedimento fotográfico deveria garantir “benefícios” substanciais, com a condição de “vender muito e barato”.[2]

No primeiro caso, a fotografia erigia-se como técnica de registro que vinha complementar a viagem que, até então, recorrera à gravura. O outro, minoria (minoria?) que se estendia além das fronteiras até África e Ásia, era o objeto agora apreensível “objetivamente” pelos viajantes de qualquer missão: cultural, militar, comercial, científica. Como salienta Daniel Ponce[3], no caso de Du Camp, Eugène Disderi, retrato de Napoleão III, (s/f).

Eugène Disderi, retrato de M. Thiers, aproximadamente 1860.
estamos diante de um elo da fotografia que supera a “neutralidade” do registro das ruínas (ao incluir-se na foto, seu autor está opinando), e aquela de corte etnográfico que, no fim do século XIX, “ordena o mundo primitivo com uma perspectiva ideológica afinada com as teorias de sociologia evolucionista e empirismo antropológico em voga”.

Enquanto isso, dentro das fronteiras, operava-se a construção do mesmo. Neste caso, como já se salientou, a minoria (minoria?), a que era preciso educar recorrendo, entre outros meios, à fotografia, já havia transitado por algumas instâncias “pedagógicas”. Algumas, sob o exercício de um poder construtivo, positivo, no dizer de Foucault. Por exemplo, por meio de cartas de visita (que transformaram o próprio Disderi num comerciante bem-sucedido). Grande quantidade de nascentes cidadãos dos setores médio e médio baixo tinham agora – tal como o governante – retratos de si mesmos em séries que não excediam um punhado de cenografias . Outros, ao contrário, encontraram na fotografia uma ferramenta que vinha colaborar, eficazmente, com a forma negativa, repressiva. André-Adolphe Disderi, carte de visite, (s/f).

Comuna de París: corpos de insurgentes. Fotografía anônima, atribuída a Disderi (1871).
As fotografias feitas dos communards[4], serviram para identificar cada um deles e, na seqüência, fuzilá-los. Maxime du Camp dizia: “essas fotos não ficaram só em Paris; muitas foram parar em Versalhes e serviram mais tarde para reconhecer muitos culpados, muitos coitados que se escondiam e que, talvez, se não se tivessem denunciado dessa forma, teriam conseguido permanecer ocultos”[5]. Tudo indica que Disderi estava ali, registrando esse ato do governo [imagem 05] para o qual trabalhava como fotógrafo oficial desde 1855. É possível pensar que, na figura de Disderi expressam-se, concentrando-se, algumas das múltiplas dimensões com que a burguesia construiu poder, em meados do século XIX (o especificamente político e econômico-comercial) e o relato de sua própria façanha.

Contudo, outra série de imagens começa a aparecer em 1870. Em 1874, quando o Serviço Fotográfico da Prefeitura de Paris foi criado, as fotografias feitas durante a Comuna, três anos antes, constituíram seu primeiro acervo de imagens. Estas fotos, somadas à extensão da fotografia médica no campo da psiquiatria, impulsionaram o dispositivo fotográfico a fazer parte dos micropoderes que vão moldando, fabricando corpos, ou seja, a anatomopolítica. Esta se justapõe a uma nova tecnologia, cujo objetivo está implantado nas povoações, a biopolítica[6]. Técnica fotográfica e tecnologia política convergem na trama de um dispositivo, entendido como “conjunto heterogêneo que  compreende discursos, instituições, instalações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas (...) O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos”, ao mesmo tempo que constitui “uma formação que, em um dado momento histórico, teve como função responder a uma urgência”. Por isso, tem uma posição estratégica dominante”[7].

Alphonse Bertillon, Antropometría, Prefecture de Police, Paris (s/f).

cédula de identidade, Prefecture de Police, France, (s/f).
Com a técnica implementada por Alphonse Bertillon (a bertillonage) no Serviço de Identificação Judicial da Prefeitura de Policia de Paris, inicia-se um movimento que, exercendo controle social sobre as minorias (delinqüentes), logo vai estender-se a toda a população. A identificação dos réus, por meio de seus retratos fotográficos, resultará na inclusão da fotografia no documento “de identidade”, desde princípios do século XX .

Contudo, a trama do dispositivo encontra a fotografia criando “identidade institucional“ também em espaços do ”conhecimento”. Assim, as fotos dessas minorias (que se estendiam até diversas áreas da anormalidade: loucura, homossexualidade) começaram a ser matéria-prima para a nascente burocracia (psiquiatras, peritos, etc) que carreavam seu saber técnico para a construção das incipientes áreas do Estado moderno. Os conhecimentos sobre as minorias que emanavam de diferentes espaços das universidades, por meio de disciplinas de criação recente, confluíam com as necessidades de uma nova etapa de dominação e construção de hegemonia da burguesia.

[1] Docente e investigadora da Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad de Buenos Aires. É diretora, junto com Eduardo Garaglia, da revista-livro Ojos Crueles, temas de fotografia y sociedad. Dirige o projeto “Temas e eixos na produção teórica sobre a fotografia desde 1980” (FCS – UBA) e integra o grupo de trabalho “Produção Audiovisual e Meios na Praxis Latino-americana”  do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO).

[2] André Rouillé: “A Expansão da Fotografia (1851-1870)” em Jan-Claude Lamaguy e André Rouillé (dirs.) História da Fotografia, Martínez Roca, Barcelona, 1988.

[3] Daniel Ponce: “A intensa luz do remoto: fotógrafos viajantes do século XIX”, em Ojos Crueles temas de fotografia y sociedad n. 1, Imago Mundi, Buenos Aires, 2004.

[4] participantes da Comuna de Paris, 1871.

[5] Maxime du Camp “Les Convulsions de Paris”, Paris, Hachette, 1878-1880. Citado por Christian Phéline, “Portraits en règle“, em Identités, de Disderi au Photomaton, Centro Nacional da Fotografia, Paris, 1985.

[6] Michel Foucault “As redes do poder”. Conferência realizada no Brasil, em 1976 e publicada na revista anarquista Barbarie no. 4 e no. 5 (1981-1982). Salvador, Bahia.

[7] Michel Foucault: “O jogo de Michel Foucault”, em Saber e Verdade. Citado por Susana Murillo em El discurso de Foucault: estado, locura y anormalidad en la construcción del individuo modernoPublicações CBC, Buenos Aires, 1996.