O grande mar, a grande fonte

Maurício Falavigna

A Travessia da Calunga Grande
autor: Carlos Eugênio Marcondes de Moura
editora:
ano: 2000

O público em geral – e boa parte dos historiadores e cientistas sociais em suas pesquisas – informa-se sobre o período colonial e a escravidão por meio de textos, seja de testemunhas ou de investigadores. A palavra de Antonil ou Vieira, versos de Gregório ou Castro Alves, as reconstruções de Gilberto Freyre ou Gorender, pesquisas de Florestan ou Joel Rufino desenham em nosso imaginário um panorama dos navios negreiros e da casa grande, do pelourinho e da senzala, dos folguedos e dos trabalhos forçados. Somos primeiramente alimentados por imagens ilustrativas: litografias e desenhos reproduzidos desde o século XIX em compêndios e enciclopédias. Para os mais contemporâneos, novelas e filmes nacionais gravaram a ponta seca, geralmente retratando um tempo ultrapassado e até mesmo com uma sensualidade encontrada em meio ao horror do cativeiro, as cenas que recriam as lembranças do que não vivemos in loco.

A Travessia da Calunga Grande, mais de 500 imagens recolhidas por Carlos Eugênio Marcondes de Moura e publicadas em 2000, escolhidas entre as 2600 levantadas em sua pesquisa, fornecem o maior acervo iconográfico sobre os negros no Brasil entre os séculos XVII e XIX. Inicia-se nos registros de africanos trazidos por Nassau e da vida pernambucana durante a ocupação holandesa, passa pelas ilustrações de viajantes, cientistas e artistas do século XVIII e chega até o jornalismo ilustrado e os trabalhos fotográficos da segunda metade do século XIX. Uma profusão de informações que formam uma fonte básica e inestimável para quaisquer pesquisas que sejam realizadas sobre o período, não havendo segmento intocado por essa importância: vestuário, arte, ciência, cultura, trabalho, relações humanas, o olhar europeu, o olhar abolicionista, nosso olhar contemporâneo.

A concentração de imagens força o leitor a confrontar uma outra realidade – por mais informação que carregue em seu arcabouço, mesmo que seja para confirmar a visão formada por um mundo de palavras, há sempre algo a surpreender a sua mais absoluta certeza quando ele se entrega a um exame minucioso dessas ilustrações. Há um jogo desconcertante de contradições que apanha em cheio a gravura do etnólogo, a paisagem do viajante, a caricatura do jornalista abolicionista. Há diversidade suficiente para confirmar algum recorte político, ideológico ou cultural que se predisponha a qualquer idéia pré-estabelecida, todo argumento de momento. Porém, mais do que isso, há uma matéria-prima muito mais vívida que as tradicionais e que pode servir para a construção de novas lembranças e de um novo imaginário coletivo.