A milhas do exotismo

Maurício Falavigna

Antologia da Fotografia Africana e do Oceano Índico
organizadores: Emanoel Araújo, André Jolly e outros
editora: Revue Noire
ano:1998

Uma terra que fala por si, livre das tentativas de mitificação eurocentristas de compreensão do estranho. Foi o que a Revue Noire alcançou em 1998 com a Antologia da Fotografia Africana e do Oceano Índico, livro e série de exposições que, no Brasil, teve lugar na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, no mesmo ano. A riqueza do acervo recolhido tem múltiplas facetas. Não obedece a um critério único – temas, estilos, ideologias – mas segue um fio cronológico, uma trajetória da atividade fotográfica no continente. E, mesmo nos ensaios contemporâneos, podemos notar o privilégio dado à figura humana e ao retrato, em detrimento de qualquer outro foco. Assim, podemos conhecer os precursores, os primeiros estúdios, o trabalho de retratistas e ambulantes, registros históricos de agências oficiais, a produção de ensaístas e artistas contemporâneos – e a contraparte da imagem, os atores (conscientes ou não) captados pela lente.

Quanto aos trabalhos do século XIX e início do século XX, estamos aqui longe da catalogação de pretensões científicas e antropológicas que incansavelmente buscam isolar usos e costumes, traços físicos e vestimentas, adornos e escarificações, a fim de imobilizar etnias e tribos em um determinado recorte geográfico onde estariam enraizadas desde tempos imemoriais, classificando supostas “tradições” como se essa fosse a única forma de compreendê-las.

Aliás, é essa dinâmica desprezada pelos pesquisadores que, mesmo ausente das preocupações imediatas das imagens desta Antologia, destaca-se por comparação aos olhos habituados aos registros do exótico – por exemplo, as fotos de escravos ou libertos do Brasil do século XIX. Descobrimos que, quando não há a intenção explícita de catalogação por parâmetros criados pelos exploradores, o que sobressai é o ser humano e seu momento de vida.

Fundamental para esse entendimento é ler, entre os excelentes textos do livro, o do historiador congolês Elikia M’Bokolo. Aparentemente deslocado entre os outros estudos, que tratam da evolução da técnica e dos ambientes de trabalho fotográficos em território africano, ele ataca a idéia de que o continente pode ser estudado a partir das chamadas “zonas de influência”, que teriam sido estabelecidas na Conferência de Berlim no século XIX. Depois das tentativas de reduzir a imagem dos habitantes africanos a estudos antropométricos, a saída seguinte foi a de classificar culturas catalogando-as sob o manto da influência colonialista. O historiador mostra como essa postura acaba por desprezar movimentos internos incessantes que misturam culturas, preservando-as e dinamizando-as sem o isolamento pretendido por pesquisadores desavisados.

Acompanhando a seqüência de imagens representativas de cada período, dissolve-se a aura de “mistério” e o estranhamento, descobre-se o olhar dos fotógrafos africanos e da diáspora negra. E, felizmente, podemos notar que, em termos gerais, é somente essa característica de origem que se destaca de imediato como “africana”. No mais, qualquer particularidade do olhar poderia ser analisada sob os mesmos parâmetros históricos e estéticos que servem para qualquer outra cor ou região do globo. A afetividade, a violência, o cotidiano e as normas sociais passam a fazer parte de uma história coletiva, deixando para trás especificidades que só podem ser construídas intencionalmente e a partir da segregação.