Mulheres afro-descendentes no século XX, Pelotas–RS: imagens silenciosas e esquecimento 1/3

Francisca Ferreira Michelon [1]
Aline Mendes Lima [2]

Apresentação

A cidade de Pelotas no sul do Rio Grande do Sul constituiu-se a partir da produção do charque iniciada na segunda metade do século XVIII. Durante aproximadamente um século os charqueadores utilizaram a mão-de-obra de africanos, ou descendentes de africanos, tornados escravos, trazendo para a região um elevado número de pessoas que, pela situação imposta, fixaram-se na cidade. Com a prosperidade econômica advinda da indústria saladeiril, e de outras decorrentes dessa, em algumas décadas a freguesia passou à condição de cidade, incorporando tanto a aspiração de se tornar moderna como os elementos identitários dessa modernidade. Nesse contexto, o processo abolicionista outorgou cidadania a uma população de ex-escravos e descendentes, relativamente numerosa se comparada com a totalidade da população local. Como cidadãos pobres, homens e mulheres de descendência africana continuaram exercendo atividades básicas para a vida na cidade, tão básicas quanto silenciosas e obscurecidas. E foi assim que o republicano século XX recebeu essas pessoas, conformadas pela sua origem na condição de trabalhadores livres, ainda que sujeitos a um destino só eventualmente agraciado pelo reconhecimento social e por condições de vida essencialmente melhores do que as vividas no cativeiro.

Nesse tão breve panorama assim desenhado no parágrafo anterior, a fotografia ingressa como uma fresta pela qual se vislumbra do passado uma luz sinalizadora que aponta para uma sobreposição de esquecimentos, voluntários ou decorrentes de um duplo processo de obscuridade que se deu sobre alguns grupos. Nesse estudo, o que se buscou afirmar foi o silêncio que a fotografia sinaliza sobre as mulheres negras de Pelotas, nas duas primeiras décadas do século  XX, por meio da não-representação. Interpretou-se esse silêncio não pela sua intencionalidade, mas como conseqüência e buscou-se observar não suas causas, mas seus desdobramentos nas décadas seguintes.

Fato é que nesse período de 20 anos que inaugura o século  XX, a fotografia era um serviço caro, popularizado já, mas ainda inacessível para a maioria da população. Era esperado, portanto, que expressiva parte dos indivíduos de origem negra não tivesse condições de encomendar a um fotógrafo o seu serviço. Ao pensar sobre o que era a cidade nesse período, podem-se supor que essas pessoas se ocupavam de empregos com baixa rentabilidade financeira, sendo delegados ao gênero feminino aqueles considerados extensões das tarefas domésticas.

Por conta de sua condição social, resultante de um contexto pós-abolição, as mulheres negras raras vezes apareciam nas fotografias que compunham as publicações ilustradas da cidade, inclusive nos jornais. Em especial, observou-se um pequeno número de imagens existentes nos arquivos institucionais pesquisados que possa ser considerado capaz de contemplar uma representação das mulheres negras pelotenses no período. Essa observação gerou a pergunta se o fato se repetiria nos arquivos institucionais da vizinha cidade de Rio Grande, primeira cidade fundada no Estado e que, embora de tradição portuária e de economia diversa de Pelotas, também detém significativa população de afro-descendentes. Feita a busca, constatou-se nos acervos institucionais da cidade de Rio Grande a quase inexistência de fotografias de mulheres que pudessem ser consideradas, na imagem, afro-descendentes.

Na seqüência buscou-se estender a pesquisa para acervos particulares de Pelotas, dos quais resultam as reflexões apresentadas neste texto. Considerando a diversidade de funções com as quais se distinguem fotografias impressas de originais, fez-se inevitável a pergunta sobre se a exigüidade constatada nos impressos correspondia aos exemplares originais remanescentes do período.

A existência dessas mulheres silenciada pela fotografia foi confrontada com outra fonte: os acervos pessoais. Desses emergiu, como uma revelação nem tão inesperada, uma quantidade significativa de fotografias que apresentaram os negros (homens e mulheres) como sujeitos das representações.  Para tanto, oportuna é a constatação de Mary Del Priore quando diz que “Tornar-se sujeito não é somente o crescimento do poder físico (...) é também o reconhecimento de uma valorização da imagem” (PRIORE, 1997, p.272). O termo sujeito opera na imagem, tal como é tratado aqui. Sua centralidade evidencia intencionalidade, fato pelo qual se confrontaram arquivos institucionais com acervos particulares, observando que o momento da produção e da guarda dessas imagens fotográficas ocorreu tanto em face do barateamento e da popularização do processo, como de uma condição social que, processualmente, veio a reconhecer na mulher afro-descendente a sua cidadania.

A pesquisa, sobre a qual esse texto foi elaborado, contou com entrevistas feitas a senhoras pelotenses que guardaram fotografias de suas familiares e forneceram, por meio da evocação de suas memórias, informações sobre a vida das mulheres negras na cidade de Pelotas, especialmente na segunda metade do século XX. Mas o mais importante para esse estudo foi que essas mulheres contribuíram, em virtude da relação que mostraram ter com essas fotografias, com aspectos estudados nas concepções teóricas, explicitadas pelos autores referenciados na revisão bibliográfica, a respeito das relações entre memória, história e linguagem fotográfica.

[1] Professora do Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Pelotas. Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Coordenadora do Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural do Instituto de Ciências Humanas/UFPel.

[2] Graduada em História pela Universidade Federal de Pelotas. Mestranda em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Bolsista do CNPq em 2006/07 em pesquisa orientada pela Profa. Francisca Ferreira Michelon.