Amas na  fotografia  brasileira da segunda metade do século XIX 1/4  

Sandra Sofia Machado Koutsoukos [1]

O leite humano sempre foi o alimento principal do cardápio de um bebê. Fonte essencial do cálcio necessário para o bom desenvolvimento dos ossos, era enfatizado pelos médicos do século XIX como “santo remédio” para vários males. Se a mãe de uma criança senhorial (entenda-se criança branca e, normalmente, de família abastada) não tinha leite suficiente, ou não queria, ou não podia amamentar, mas tinha condições de alugar ou comprar os serviços de uma ama-de-leite, tanto melhor para aquela criança, pois tal medida adiava a introdução precoce de leite animal e de misturas e papinhas variadas, para os quais seu organismo ainda não estava preparado.[2]

Até a abolição da escravatura no Brasil (em 1888), muitas das amas eram escravas que pertenciam à própria família, ou que eram alugadas para tal. Porém, várias delas eram separadas de seus filhos naturais, para que pudessem “criar” os bebês senhoriais.[3] Poucas tiveram a sorte de serem autorizadas a “dividir” o seu leite entre o próprio filho e o bebê branco.

Nos álbuns fotográficos sobreviventes de famílias brancas do século XIX figuram poucos empregados domésticos, dentre eles, a maioria está em retratos de amas (amas-de-leite ou amas-secas) com as crianças brancas por elas cuidadas. Até onde se pode supor, as amas foram levadas aos estúdios, inicialmente, pela vontade dos senhores que, ou queriam uma foto da ama que com tanto carinho e dedicação estava criando o seu bebê (e por quem podiam até ter um afeto verdadeiro, ou apenas uma certa gratidão); ou queriam agradar à ama, lhe ofertando uma bonita foto sua com a criança por ela criada (talvez, quem sabe, primeira e única foto que a ama teria); ou estavam mesmo era querendo uma foto da criança, que não parava quieta em outro colo, a não ser naquele dessa que lhe era mais íntima – a sua ama-de-leite, ou a sua ama-seca. Caso o motivo não fosse nenhum desses, qual seria?

Nos estúdios dos fotógrafos da segunda metade do século XIX, as amas foram colocadas a posar eretas, elegantemente vestidas, algumas mesmo ricamente vestidas à moda européia ou à africana, com tecidos finos, xales, às vezes portando jóias, com os cabelos e/ou turbantes arrumados, sentadas em cadeiras de espaldares rebuscados, tendo, geralmente, a criança ao colo ou ao seu lado. Eram representações simples em termos de cenário, para que a atenção do observador da foto não se desviasse do que interessava: a criança e a ama retratadas de uma forma que se pretendia positiva.[4]  

Naquele tipo de foto tentava-se passar uma idéia de harmonia e afeto (comum também nas fotos de mães com filhos produzidas nos estúdios), num período no qual o uso de amas estava sendo condenado sistematicamente pelos doutores em medicina e por moralistas, num período no qual se procurava desvalorizar, em certa medida, o seu tipo de trabalho, enquanto se incentivava a imagem da “boa mãe”, a mãe branca que amamentava os próprios filhos.[5] Logo, apesar de toda a contradição da situação, as amas retratadas em estúdios fotográficos (e que tiveram suas fotos conservadas junto às fotos das famílias às quais serviram) teriam sido aquelas consideradas como “boas amas” – as amas que teriam, supõe-se, preenchido os numerosos pré-requisitos a serem observados no ato de escolha de uma ama (também enumerados sistematicamente pelos doutores em medicina) – e, de uma certa forma, teriam elas conseguido “superar”, perante aquelas famílias senhoriais, as várias suspeitas, conquistado alguma confiança e sido vistas com bem-querer, ou mesmo como um bem.[6]

Não podemos também deixar de lado o fato de que, para muitos, a encomenda daquele tipo de foto podia significar simplesmente mais uma moda a ser copiada, mais um tipo de encenação que estava em voga no período, mais uma forma de auto-representação da família senhorial: a foto da criança com a sua ama – retrato que tão bem poderia vir a compor o leque de “assuntos” do álbum da família.

No entanto, o que mais interessa ressaltar é que as amas, que também não teriam sido levadas aos estúdios desavisadas (algum tipo de negociação certamente acontecera), conseguiram trair a pretensa harmonia daquelas fotos e deram, umas mais e outras menos (é claro), um “jeito” de participar da construção daquele que também era o seu retrato; as amas também se deram a ver. Todos os envolvidos no processo de feitura dos retratos usaram as estratégias de que dispunham, e cabe a nós hoje tentar desvendar o possível mistério daqueles registros, decodificando seus numerosos indícios, fazendo uso das estratégias de pesquisa e interpretação de que dispomos, para tentar entender uma pequena parte daquela história. Vamos às fotos então.

[1] Doutora em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP (Campinas - SP) com o trabalho: “No estúdio do fotógrafo. Representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX”, sob a orientação da profa. Dra. Iara Lis Schiavinatto, e com auxílio de bolsa de pesquisa da FAPESP.

[2] A diminuição gradual do emprego de amas-de-leite (mais sentido no Brasil a partir de 1890) correspondeu diretamente a vários fatores: o avanço em termos de alimentação “artificial” (novas fórmulas de leite, especialização do sistema de pasteurização do leite animal, novos formatos de mamadeiras e bicos, etc.), o fato de que a alimentação “artificial” foi se tornando mais barata e menos complicada do que arrumar uma ama (após a abolição, sobretudo), e em virtude do papel dos doutores em medicina do período, que se ocupavam em aterrorizar as famílias sobre os “riscos” que havia no emprego de amas (doenças e germens variados), além de tratarem de moldar as práticas de puericultura e incentivarem a construção social da “nova mãe”, esta voltada para a saúde e higiene da criança, e que requeria o trato direto da mãe natural com o bebê. Sobre o assunto: GRAHAM, Sandra Lauderdale.Proteção e obediência. Criadas e patrões no Rio de Janeiro (1860-1910). São Paulo: Cia. das Letras, 1992 e GOLDEN, Janet. A social history of wet nursing in America. From breast to bottle. Columbus Ohio: State Univ. Press, 2001.

[3] Sobre o assunto: VENÂNCIO, Renato Pinto, “Maternidade negada”, in PRIORE, Mary Del (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2002, pp. 189-222 e MAUAD, Ana Maria, “A vida das crianças de elite durante o império”, in PRIORE, Mary Del (org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 1999, pp. 137-176.

[4] Sobre o assunto: LEITE, Miriam Moreira. Retratos de família. São Paulo: Edusp, 2000.

[5] A mulher considerada uma “boa ama-de-leite” seria a que fosse examinada minuciosamente por um médico e aprovada como sadia e capaz. O “movimento” pelo aleitamento materno chegou ao Brasil seguindo correntes de idéias vigentes na França já desde fins do século XVIII. Doutores em medicina brasileiros haviam se formado na França e também trazido consigo as “novas idéias”. Muitos dos textos publicados em periódicos aqui eram traduções de textos publicados em periódicos franceses.

[6] No capítulo dois da tese de doutorado “No estúdio do fotógrafo. Representação e auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX” trato longamente do discurso das teses dos doutores em medicina sobre o assunto “amas-de-leite”. O que defendiam e o que atacavam, as normas que impunham para que uma ama fosse considerada “boa”, e exploro algumas das contradições que pude perceber na resistência do emprego de amas, no apregoado “afeto” que envolvia aquela relação senhor/ama/criança. Para tratar de assunto tão complexo e fascinante, cruzei registros fotográficos com anúncios e textos de jornais do período, teses de medicina (por enquanto, ainda conservadas na biblioteca da Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro), livros de memórias, cronistas de época e os poucos livros que tratam da amamentação na história.