Representação imagética das africanidades no Brasil

Editorial

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Africanidades, crenças e resistências

Denise Camargo

Representação imagética das africanidades no Brasil nasce da intrincada relação entre crenças e resistências.

Durante a concepção deste projeto, acreditou-se fortemente na importância de dar visibilidade às matrizes ancestrais e suas diferentes formas de expressão neste país cuja população de ascendência africana não é minoria, embora haja inúmeros artifícios estatísticos que tentam provar o contrário.

Acreditou-se na estratégia das imagens como agenciadora de debates contemporâneos, como uma linha temática, um fio condutor que se entrelaça e aos poucos promove reflexões sobre  o complexo cultural estabelecido pela diversidade, pela diáspora, pela promoção da igualdade racial, pela tradição afro-brasileira formadora da nossa identidade, só para citar alguns caminhos para sua ação.

Das imagens, então, resgatam-se nos traços negros vestígios de um modo de viver, o labor cotidiano, o ritual, a gestualidade de corpos que vibram à batida dos tambores, a roda – cosmogonia das africanidades, o tempo cíclico.  São imagens que alfabetizam o olhar. Teriam sido sempre olhados assim? No exercício de suas ancestralidades, pólos de resistência que sustentam todo esse patrimônio cultural?

"A fotografia constrói uma identidade social, uma identidade padronizada, que desafia, não raro, o conceito de individualidade, permitindo forjar as mais variadas tipologias", como nos diz Annateresa Fabris em seu livro Identidades virtuais. A primeira delas é o profundo desconhecimento que os brasileiros têm de suas origens, isto equivale a dizer que não se conhece o território africano, nem os territórios étnicos de onde muitos de nós somos originários. É importante lembrar que a palavra negro adquiriu, por isso mesmo, um significado pejorativo, como nos conta o pesquisador Rafael Sanzio dos Anjos. Ao tratar os negros como mercadoria deu-se origem a um engano secular chamado "raça negra".

A fotografia pode repercutir favoravelmente as diversidades, como nos diz Canclini: "A adoção metafórica de mecanismos ópticos e fotográficos para explicar o funcionamento da ideologia e, em contrapartida, a elaboração de concepções aberrantes sobre a fotografia, baseadas numa reflexão ingênua sobre os processos de conhecimento e de representação do real, contribuíram com esses erros. Acreditamos que a crítica a tais estereótipos é indispensável para se repensar a estrutura do trabalho fotográfico e seu papel nas transformações sociais". É disso que se trata.

Durante a realização deste projeto, dificuldades de toda sorte e muitas rupturas – metáfora das africanidades? Superada pelo ato de resistir propiciado, neste caso, pelas parcerias que surgiram, pela força das crenças, pela sensibilidade do Programa Cultura e Pensamento e da Petrobras a questões desta natureza.

O projeto traz, assim, a imagem fotográfica como produtora de conhecimento e capaz de resgatar a idéia de territorialidade, fundamental para a compreensão da cultura negra no Brasil, e preservar os vínculos e a manutenção das ancestralidades. Estes aspectos reforçam o debate contemporâneo brasileiro sobre a diversidade étnica e cultural. É deste lugar, então, que começamos a reconhecer as  africanidades, as identidades, as interterritorialidades e as estratégias das imagens com olhos de contemplação e descoberta.

Agradeço à editora-associada Ana Maria Schultze, pela alegria com que compartilhamos madrugadas enfrentando desafios, e pelos tantos outros projetos sonhados com cumplicidade e às gargalhadas. À Lola Lembrou Consultoria Educacional, pela gestão administrativa. A Fernando Fogliano e suas contribuições do Grupo de Pesquisa da Imagem Contemporânea.  A Fernando de Tacca, pelo espaço cedido na revista Studium para a veiculação deste projeto. E a todos os colaboradores, convidados e debatedores por colocarem suas próprias crenças, olhares e imagens também em nossas mãos. Muito obrigada.