Studium 40

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Lygia Neri

Lygia Neri - [in memoriam]

A Studium 40 tem como temática principal que perpassa os artigos a relação entre fotografia e literatura e o fotolivro, como também propostas selecionadas de poéticas. Nesse sentido, abre-se um espaço para adentrarmos algumas obras importantes que podem ser classificadas com o termo fotolivro.

Para Paulo Silveira (2015), é preciso diferenciar os chamados fotolivros dos livros fotográficos, ou livros de fotos de determinado autor, pela carga de subjetividades e narrativas específicas aliadas a um projeto gráfico que pensa o livro como sujeito, e não somente as fotografias e suas particularidades estéticas. Outro ponto desse autor é o lugar mercadológico do chamado fotolivro no campo editorial quando o conceito é generalizado. Entretanto, a nomenclatura fotolivro tornou-se uma referência como diferencial dos simples álbuns fotográficos publicados, ou então de séries de fotografias em formato tradicional, que não exploram as tessituras próprias do imagético como um campo relacional da palavra. Muitos desses livros hoje em dia são obras raras, disputadas por colecionadores, com preços altíssimos, principalmente por causa das edições limitadas que tiveram. Hoje em dia, pela facilidade de acesso à impressão, muitos artistas se lançam a produzir seus livros em pequenas e limitadas edições com papéis especiais, e alguns com ousados tratamentos de arte gráfica, até então de difícil acesso. Campany (2014) atribui o uso do termo “photobook” a uma consequência da internet, assim como o campo de estudo que a marca. Assim, alguns títulos paradigmáticos, como Barakei (Killed by Roses), de Eikoh Hosoe com colaboração de Yukio Mishima, publicado em 1963 no Japão e com edição espanhola da Lumen Editorial em 1964 (que manteve a mesma diagramação, ou seja, um mesmo livro), não eram classificados como fotolivros. Badge (2015) também compartilha a visão de que a internet facilitou a troca de informações e a percepção do campo; ou seja, indica um país, o Japão, salientando a influência de livros ocidentais aos olhos dos fotógrafos nipônicos publicados nesse país, como William Klein e Robert Frank, e também exemplos como o citado acima, de livros japoneses publicados no Ocidente. Mas para ele existe um ecletismo positivo no amplo campo do fotolivro como uma nova democracia das imagens. Vale ressaltar a produção de uma revista especializada no assunto, Photobook Review, já com várias edições e dedicada ao tema, trazendo a contribuição de importantes pesquisadores, como Vicki Goldberg e David Campany.

Dentro dessa perspectiva, publicamos uma bibliografia específica e referencial sobre o tema fotografia e literatura pelo Professor Antonio Anadón Ansón (Universidad de Zaragoza, Espanha). As questões intertextuais entre palavra e imagem, no caso, literatura e fotografia, foram muito pouco exploradas como campo de estudos, e mesmo dentro da produção poética. E nesta edição, três artigos analisam obras de autores nacionais referenciais para esse campo.

Ana Luiza Gambardella e Paulo César Castral abordam o fotolivro Paranoia (1963), uma produção conjunta entre Wesley Duke Lee e Roberto Piva, centrando-se nas relações entre imagem e texto, e o olhar sobre a cidade como uma representação com “atmosfera surrealista”, na poética entre fotografia e poesia.

Susana Dobal relaciona a difícil tarefa de adentrar o “olhar fotográfico” de Manoel de Barros no livro Ensaios fotográficos, com as estratégias poéticas do escritor e os mecanismos da “escrita fotográfica”.

Miguel del Castillo analisa as relações entre literatura e fotografia na obra de Maureen Bisilliat, centrando-se em seis de seus livros publicados, que se constituem de intertextualidades com os escritores João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado e Jorge Amado. Para o autor, as imagens ganham valores do texto e vice-versa, traduzindo obras únicas da “alma brasileira”. Aqui podemos classificá-los hoje como a mais importante série de fotolivros brasileira, dentro da relação literatura e fotografia. Ainda dentro do campo, Rodrigo Fontanari explora a poética da obra fotográfica do nipo-brasileiro Haruo Ohara, e o faz aproximando suas imagens da logicidade oriental do poema japonês haikai.

Dois artigos analisam fotolivros específicos: Anna Carvalho rastreia as estratégias do projeto Ximo de Joan Fontcuberta, principalmente na análise do livro A chupar del bote, assinado por Ximo Berenguer, na qual se discutem o falso e a arte de enganar, característicos do artista catalão, como uma ferramenta pedagógica e crítica. E Felipe Abreu discute o fotolivro ZZYZX, de Gregory Halpern, explorando seu processo criativo a partir das visibilidades do livro, como as justaposições visuais, a narratividade e também sua recepção crítica.

Fernando de Tacca faz uma apresentação e primeira análise para o público brasileiro da coleção espanhola Palabra e Imagen, publicada pelo Editorial Lumen (Barcelona), nos anos 1960 e 1970. Tal coleção tornou-se uma referência para a produção de livros que aliam literatura e fotografia, ou fotografia e literatura, com muitas variações intertextuais, que a tornaram paradigmática para a história do fotolivro.

Ronaldo Entler apresenta um texto germinal de seu processo criativo e referencial para a escritura de seus contos ficcionais com aderência ao fotográfico no recente livro lançado no final de 2018, Diante da sombra. Nesse artigo publicamos também o primeiro conto do livro: “Claro escuro”, uma surpreendente escritura que envolve o leitor nas estratégias entre palavras e possíveis imagens que habitam o seu personagem principal.

Fábio Gatti, Paulo Costa e Júlio Cesar Pires produzem poéticas dentro do campo da narrativa fotográfica de forma diferenciada. Gatti produz imagens a partir de pensamentos fragmentados escolhidos de autores consagrados; Costa escreve uma crônica sobre uma única imagem sobrevivente de suas memórias quando de passagem pelo Japão; e Pires propõe uma narrativa sobre uma viagem ao Peru com formato de livro (nesse caso, sem palavras).

Acreditamos que estamos contribuindo para a formação desse campo de estudos no Brasil ao trazer a temática que perpassa toda esta edição e agradecemos a todos os participantes.

 

Editores

Fernando de Tacca (UNICAMP)

Antonio Ansón (Universidad de Zaragoza)

 

Referências citadas:

BADGER, Gerry. “Porque fotolivros são importantes”. Revista Zum, 2015.

CAMPANY, David. “What’s in a Name?”. The PhotoBook Review 007, Aperture, NY, 2014. Photobook Review, ver em: http://aperture.org/pbr/.

SILVEIRA, Paulo. “A faceta travestida do livro fotográfico: legitimidade e artifício de uma denominação”. In: GRIGOLIN, Fernanda (org.). Série Pretexto. São Paulo: Tenda de Livros, 2016.

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ISSN: 1519-4388
Dezembro 2018

Foto da capa: "Madrid, 2018", de Fernando de Tacca.
Arte da capa: Ivan Avelar

Equipe Studium:
Coordenação Editorial: Fernando de Tacca (UNICAMP)
Comissão Editorial: Iara Lis Schiavinatto e Mauricius Farina
Assistente Editorial: Paula Cabral Tacca
Consultoria Bibliográfica: Maria Lúcia N. D. Castro
Revisão: Ieda Lebensztayn
ß-tester PC: Rogério Simões da Cunha
Assistente de Editoração Eletrônica: Vivian Cabral
Suporte Técnico e Programação: Daniel Roseno da Silveira
Lygia Neri [in memoriam]: criação e design originais
Webmaster e designer: Ivan Avelar

Conselho Editorial:
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Eduardo Castanho
Francisco da Costa (FUNARTE/RJ)
Haenz Quintana Gutierrez (UFSC)
Hélio Lemos Sôlha (UNICAMP)
Helouise Costa - (MAC/USP)
Joel La Lana Sene; (USP)
Luiz Eduardo Robinson Achutti (UFRGS)
Massimo Canevacci - (Universidade La Sapienza, Roma)
Maria Eliana Facciolla Paiva - (ECA/USP)
Milton Guran ( Cândido Mendes/RJ)
Rubens Fernandes Junior (FAAP/SP)

Laboratório de Media e Tecnologias de Comunicação
Dpto. de Multimeios / Instituto de Artes da Unicamp