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Bordas, fronteiras, limites

Inês Bonduki [1]

Resumo / Abstract

Bordas, fronteiras, limites compreende uma série de ações que investigam poeticamente os limites indefinidos da Grande São Paulo. A partir do embate virtual e físico do corpo com o espaço urbano, do olhar minucioso do caminhante vulnerável ou descorporificado do observador virtual e motorizado, diferentes temporalidades e espacialidades de um mesmo lugar se descortinam, revelando frustrado nosso desejo de domina-lo.

Borders, limits, frontiers comprises a series of actions that poetically investigates the ill-defined limits of Great São Paulo. From the virtual and physical confrontation of the body and the city space, the meticulous regard of the vulnerable walker or the disembodied look of the virtual and motorized watcher, different temporalities and spatialities from a same place are unfolded, revealing our frustrated capability to seize it.

Nascer e viver em uma cidade de 21 milhões de habitantes é aprender a conviver com a ideia – e com a sensação – de que ela não te pertence. Por ser múltipla, por ser complexa, mas principalmente por ser imensa, São Paulo nos ensina pouco a pouco que nunca seremos capazes de apreendê-la por completo ou de nos apoderarmos dela. Bordas, fronteiras, limites compreende uma série de ações que investigam as dimensões, a escala, as margens e os limites indefinidos e flutuantes da região metropolitana de São Paulo, como forma de encontrar onde estão seus fins e seus silêncios.

A primeira delas, Pelas margens da cidade (fevereiro de 2017), revelou sua escala com base na medida de meu próprio corpo e do tempo do caminhar. Um raio de 20 km foi traçado a partir do centro, delineando um trajeto circular através das regiões mais periféricas da cidade, que foi percorrido continuamente durante doze dias – totalizando 220 km. O ponto de saída e de chegada dessa caminhada circular foi a Capela de São Miguel (1622), a mais antiga do Estado de São Paulo.

Os pernoites foram realizados em casas de moradores locais, centros culturais e motéis, de forma que os três artistas envolvidos na ação (Edith Derdik, Renato Hofer e eu) se reconheceram como viajantes no interior de sua própria cidade. Desprovidos de uma função social – por não aparentarmos sermos moradores locais, não sendo funcionários da prefeitura e tendo a palavra “artista” pouco significado para a maioria da população da cidade –, conseguimos nos despir do ritmo funcionalista imposto cotidianamente pela metrópole, apesar de estarmos mais do que nunca mergulhados nela. Esse olhar estrangeiro possibilitou que suas lógicas e cruezas se revelassem com muito mais clareza para nós. Dessa primeira ação, resultou um caderno de viagem visual, cuja textura de fundo é composta pelo código do GPS que descreve nossa localização geográfica através das páginas, como se o observador realizasse todo o trajeto à medida que as vira. A primeira e a última imagem (capa e contracapa) são a mesma imagem da capela, para onde voltamos depois de doze dias.


Imagem 1
Pelas Margens 1

Imagem 2
Pelas Margens 2

Imagem 3
Pelas Margens 3

Imagem 4
Pelas Margens 4

Imagem 5
Pelas Margens 5

Imagem 6
Pelas Margens 6

Imagem 7
Pelas Margens 7

Imagem 8
Pelas Margens 8

 

 


Uma segunda ação, Intermitente, ainda em desenvolvimento, parte de dados e elementos bastante arquitetônicos, como a foto aérea e a lista oficial de municípios da grande São Paulo, para investigar seus limites físicos e virtuais. A partir das imagens do google street view são escolhidos pontos da cidade limítrofes, que parecem demarcar o fim da mancha urbana. Esse lugar voyeurístico é substituído então pelo embate físico do corpo no espaço urbano.

As imagens são compostas como dípticos: a imagem virtual do google é que me motivou a ir conhecer o lugar junto à imagem que ali foi produzida. Às vezes há coincidência geográfica ou de enquadramento entre elas, às vezes não. As imagens do google, de 2011, podem revelar a natureza intermitente desses espaços de borda.

As incursões são realizadas antes e durante o nascer do sol, hora em que a maioria da população dessas regiões costuma acordar para ir trabalhar. Talvez esta seja a luz que melhor representa a periferia da cidade.

Imagem 1
Intermitente 1

Imagem 2
Intermitente 2

Imagem 3
Intermitente 3

Imagem 4
Intermitente 4

Imagem 5
Intermitente 5

Imagem 6
Intermitente 6

Imagem 7
Intermitente 7

Imagem 8
Intermitente 8

Imagem 9
Intermitente 9

Imagem 10
Intermitente 10

Imagem 11
Intermitente 11

 

 

 


 

[1]Inês Bonduki é fotógrafa, editora, pesquisadora e professora. É doutoranda em Artes Visuais pela ECA-USP e arquiteta-urbanista pela FAU-USP [2010], . Em 2015, foi artista e pesquisadora residente na Visual Studies Workshop, em Rochester [NY], onde realizou pesquisa sobre sequência visual no suporte do livro de artista. Foi Editora de Fotografia da Revista São Paulo, Folha de SP [2012 -jul 2013], e assistente do fotógrafo Gal Oppido [2011].