studium 35


studium 35

referências bibliográficasresumo / abstract

A arte fotográfica conspira
em favor da memória política e sentimental da cidade

Felipe Gesteira [1]
Cláudio Cardoso de Paiva [2]

Fotografia na Paraíba: antes e depois da Ensaio

A história da produção fotográfica autoral, documental e jornalística na Paraíba se funde claramente em torno de um marco histórico: a criação da Agência Ensaio.

Quando três profissionais se reuniram para a criação da agência, certamente não imaginaram as proporções deste empreendimento. O material desenvolvido por este trabalho coletivo divide a história da fotografia paraibana em duas fases: antes e depois da Ensaio. Vários jornais documentaram a criação e a evolução da agência, assim como registraram, com inteligência e sensibilidade, a produção dos autores paraibanos.

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Da série "Escrita da Luz", 1996, Baía Formosa - RN (Foto: Ricardo Peixoto)

Na segunda metade da década de 90, a Paraíba tornou-se palco para uma forte efervescência na área da fotografia. Esse fenômeno foi intensificado com o nascimento da Agência Ensaio – Fotoarquivo, Fotojornalismo e Documentação, que começou a funcionar em abril de 1995, com a união dos fotógrafos Ricardo Peixoto, Marcos Veloso, Mano de Carvalho e do artista plástico Francisco Fernandes, determinada a contribuir de forma decisiva na expansão do mercado e a servir de instrumento para o crescimento da fotografia como forma de meio e expressão. (RODRIGUES, 2001, p. 132)

A fotografia autoral paraibana já era farta e exuberante antes da criação da agência. Já existiam profissionais com trabalhos consolidados no cenário nacional, como João Lobo, Rodolfo Athayde, Gustavo Moura. Entretanto, a Ensaio conseguiu trazer de volta a discussão em torno da Fotografia como importante ferramenta para documentação histórica, experimentação estética e promoção das artes visuais.

Agência revelou novos talentos da fotografia paraibana

Com a proposta de encorajar uma experiência de “conspiração cultural”, a Ensaio aglutinou profissionais, estetas, pesquisadores, jornalistas e pessoas interessadas em aprender os 'mistérios' da fotografia. Vários cursos têm sido promovidos desde meados da década de 1990, em João Pessoa, capital paraibana, nas cidades do interior do Estado e também em outros lugares da região Nordeste. Ao longo das múltiplas ações da agência, novos talentos têm sido revelados. O espaço destinado a fotógrafos, ainda sem projeção no mercado, ou que não haviam sido descobertos em sua produção autoral, sempre foi uma das preocupações da Ensaio, como relatou recentemente Bertrand Lira:

A estreita sala, na Praça Rio Branco, era minúscula para tamanhos projetos: expedições fotográficas, exposições, oficinas, palestras, publicação de postais e o célebre Festival Lambe-Lambe de Fotografia – que, em diversas edições, abriu espaço para os novos fotógrafos – foram a tônica da agência. (LIRA, 2013, p. 75)

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Viaduto em João Pessoa - PB (Foto: Marcos Veloso)


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Pescadores do mangue no município de Cabedelo-PB (Foto: Mano de Carvalho)

Dentre os inúmeros eventos, o maior destaque para o cenário regional foi o Festival Lambe-Lambe. E resulta de um esforço de trabalho em grupo que vem sendo realizado há 18 anos, com dedicação e perseverança. O festival promove um mês inteiro de exposições, oficinas, mesas de discussão e fóruns de debate em João Pessoa, sempre no mês de agosto, comemorando a efeméride do dia 19, Dia Internacional da Fotografia.

No âmbito do Festival, já foi entregue também o Prêmio Lambe-Lambe de Fotografia. Durante muitos anos o projeto Lambe-Lambe foi o único evento a promover a Fotografia no Estado. Os editais de incentivo à cultura, dos poderes municipal e estadual, sempre colocavam a Fotografia junto às artes plásticas, dividindo a mesma fatia da verba pública.

Os prêmios destinados a outros segmentos, como a Música, eram sempre bem mais generosos. O panorama tem melhorado ano após ano, mas durante muito tempo a Ensaio resistiu, sem qualquer apoio, e também tem sido a única instituição a batalhar pelo reconhecimento dos talentos na área e questionar os investimentos para a produção cultural em todos os governos, independentemente de gestão ou esquema partidário.

Entre cursos, oficinas e palestras, mais de mil pessoas passaram por algum tipo de capacitação, envolvendo a Fotografia, através da Ensaio. Os temas vão sempre além da informação técnica sobre velocidade de obturação ou abertura de diafragma, como são muitos cursos de fotografia espalhados pelo país. A metodologia da agência paraibana tem buscado aprimorar o olhar do observador, refinando sensibilidade e educando a percepção estética.

Conspiradores pela cultura paraibana vieram muito antes da Mídia Ninja

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Registro de um dos grupos da expedição "Beira da Linha", 2007, João Pessoa - PB


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"Trilhos Urbanos", 2007, João Pessoa - PB (Foto: Dayse Euzébio)

Muito antes de toda a discussão em torno da democratização da comunicação no país, redes sociais, Jornalismo 2.0 e novas mídias, a Agência Ensaio já confrontava a cobertura dada pela imprensa local com temas relevantes na cidade. Um tipo de “Mídia Ninja” atuava na Paraíba, com um canal de escoamento da produção e formatos diferentes. O intuito não era só divulgar, mas questionar os temas sociais através da arte.

Essa 'conspiração' convocava fotógrafos, amadores e experientes, a registrar cenas, ambientes e temas muitas vezes esquecidos, tanto pelo poder público quanto pela mídia local.

Os ensaios produzidos após as expedições fotográficas, que já reuniram 50 profissionais em uma única experiência, promovem o debate em torno de temas como transporte público, saúde e moradia, com o olhar crítico dos artistas por trás das lentes.

As expedições fotográficas marcaram história, registrando e documentando áreas que parecem invisíveis. Na “Beira da Linha”, mais de 30 fotógrafos percorreram, a pé, 17 km da linha do trem que liga João Pessoa ao município de Cabedelo. O transporte popular é feito por um percurso que cruza a periferia das duas cidades. O objetivo era mostrar a vida e o cotidiano de quem mora à beira da estrada de ferro.

Outro cenário esquecido pela 'grande' mídia e bastante visitado pela Ensaio foi o bairro do Varadouro. Berço da colonização em João Pessoa, o ambiente abriga a comunidade do Porto do Capim, às margens do rio Sanhauá, hoje passando por um processo de desocupação. A maior parte do registro histórico da vida das famílias dessa comunidade e do trabalho dos pescadores foi elaborada pela Agência Ensaio.

A produção estética outsider aponta novos caminhos para a arte. Direciona os olhares da população para outros focos. A importância é deslocada e redirecionada para o que é realmente importante. Essa redefinição da realidade cria um importante registro documental para a história das cidades revisitadas, como explica Sontag:

As fotos fazem mais do que redefinir a experiência comum (gente, coisas, fatos, tudo o que vemos – embora de forma diferente e, não raro, desatenta – com a visão natural) e acrescentar uma vasta quantidade de materiais que nunca chegamos a ver. A realidade como tal é redefinida – como uma peça para exposição, como um registro para ser examinado, como um alvo para ser vigiado. A exploração e a duplicação fotográficas do mundo fragmentam continuidades e distribuem os pedaços em um dossiê interminável, propiciando dessa forma, possibilidades de controle que não poderiam sequer ser sonhadas sob o anterior sistema de registro de informações: a escrita. (SONTAG, 2004, p. 172-173)

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Da exposição "Anônimos", 2006 (Foto: Helder Oliveira)

Nesse remate de produção, busca e questionamentos, muitos artistas foram impulsionados ao mercado de trabalho e tiveram seu trabalho consolidado com a troca de experiências e participações nas exposições. A inquietação promovida no início da carreira acompanha a obra desses artistas até hoje. Crias da Ensaio, destacam-se nessa brilhante nova geração de novos fotógrafos paraibanos como Dayse Euzébio, Adriano Franco, Rafael Freire, Helder Oliveira e Bruno Silva.

O trabalho da agência nunca se limitou às salas de aula e galerias de arte. Nos idos dos anos 2000, a Ensaio começou a fazer intervenções urbanas, às vezes com frases de efeito e cunho político, ou utilizando outras linguagens, como o grafite. Dessa época se destacou o artista Gigabrow, hoje consagrado no cenário regional, além da participação de Shiko, em várias exposições e mostras da Ensaio.

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Autorretrato, 2006, João Pessoa - PB (Bruno Silva)

“Aluga-se Cérebro”, uma das frases mais famosas, ilustrou banners em exposições, figurava a fachada da agência e também estampou camisetas. Seguindo a linha de trabalho surgiu a série de cartões postais “Cabeça de Lagartixa”, com frases polêmicas como “Do jeito que é o sujeito é o serviço” e “Cuidado com os homens de gravata e a arte que ninguém vê”.  Pouco tempo depois, as frases estavam em adesivos nas paredes dos corredores do campus I da Universidade Federal da Paraíba.

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"O desejo é o mote", 2009, João Pessoa - PB (Foto: Dayse Euzébio)

Além das ações voltadas especificamente para a Fotografia, a Ensaio também realizou eventos culturais para fomentar a arte em segmentos marginalizados da sociedade. O maior exemplo foi o “2 de Junho”, evento comemorativo ao “Dia Internacional das Prostitutas”, realizado por quatro anos consecutivos com o tema “Mulheres são iguais em qualquer profissão”. O evento colocou em discussão a relação de preconceito da sociedade com as profissionais do sexo, promovendo oficinas de capacitação para outras profissões, como a culinária, e reunia artistas de vários segmentos na Rua da Areia, tradicional na capital paraibana por abrigar mais de 15 cabarés. O “2 de Junho” foi descontinuado por falta de incentivos do poder público.

Em outras ações, a Ensaio também ofereceu oficinas de arte e fotografia para crianças em áreas de risco social, como “A Caixa Mágica”, projeto de sucesso da agência que ensina a fazer um tipo de 'câmera' fotográfica de papelão. Há vários relatos de famílias, como as do Porto do Capim, que tiveram suas crianças afastadas do contato com as drogas por conta do trabalho de arte-educação promovido pela Ensaio.

A construção da memória paraibana e o vasto acervo da Ensaio

O contingente de mais de mil alunos, fotógrafos, apoiadores e amigos que passaram pela Ensaio, cada um, à sua maneira, guardou um registro, um momento eternizado em fotografia que compõe o vasto Museu da Imaginação, como é conhecido o acervo da agência. Uma ala inteira da sede, situada no bairro de Jaguaribe, é destinada ao arquivo do material. São milhares de imagens, em pequenos e grandes formatos, que em conjunto formam, seguramente, o maior acervo fotográfico do Estado.

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Cortiço", 2002, comunidade Cordão Encarnado, João Pessoa - PB; Menção Honrosa no Salão Lambe-Lambe 2002 e no Concurso Universitário de Fotografia Sony/Fotografe 2008 (Foto: Rafael Freire)

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Zabé da Loca, da série "Da Idade da Pedra", 1997, Monteiro - PB (Foto: Ricardo Peixoto)

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Da série "Memórias das Águas", 2013, Belém - PA (Foto: Ricardo Peixoto)

A construção de parte da história da Fotografia paraibana, e do próprio cotidiano da região, torna a Ensaio ainda mais importante, pois com a imagem é possível traduzir a memória de um povo, como afirma Philippe Dubois: “Em suma, é essa obsessão que faz de qualquer foto o equivalente visual exato da lembrança. Uma foto é sempre uma imagem mental. Ou, em outras palavras, nossa memória só é feita de fotografias.” (DUBOIS, 1993, p. 314).

Dentre os três fundadores, apenas Ricardo Peixoto permanece na agência, que há dois anos deixou de se chamar Agência Ensaio e passou a ser Ensaio Brasil, porém, com a mesma motivação. Marcos Veloso faleceu em 2000, deixando seu legado no Museu da Imaginação, enquanto Mano de Carvalho seguiu fora do grupo em sua especialidade, o fotojornalismo, como um dos mais relevantes profissionais em atuação no Estado.

Notas:

[1] - Graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, cursa Especialização em Fotografia Digital pela Uninassau-PE; e-mail: contato@felipegesteira.com

[2] - Professor Associado; PPGC/PPJ/UFPB; e-mail: claudiocpaiva@yahoo.com.br