"A beleza será CONVULSIVA, ou não será"
André Breton

A memória se assemelha a um amontoado de imagens, a um jardim de caminhos que bifurcam, conduzindo por vezes a confins inéditos. Relembrar é recriar o vivido; com outras tintas, usando materiais já dados. Reordenar o caos em possíveis novas imagens. Nada volta a ser o que era, como foi. Assim entendo minhas memórias de Paris, por onde vaguei como viajante por algumas vezes, enchendo meu tempo como quem se compraz em colher imagens fortuitas. Ao olhar as fotos de minhas viagens, quanta decepção. Não podia encontrar ali traços concretos do que havia sido viver o lugar.

Qual espanto não tive ao combinar mais de uma imagem por meio do uso da sobreposição de camadas, misturando instantes tão díspares ou então conexos, como um banho de sol em mítico mise-en-scène da pintura classicista, que se funde e confunde com o banho de sol quase vulgar que jovens desfrutam estirados na grama da Place des Vosges.

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A memória é fluxo e é também combinatória, ela desloca tempos e espaços separados, fazendo-os coexistir.

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Não importa se Olympia existiu antes da tela de Manet, ela continua a existir sempre e para muitos, de renovadas maneiras. Para mim, particularmente, como pano de fundo para o cair da noite em um canto qualquer do Quartier Latin. De um lado, vejo o Panthéon, de outro, a Tour Eiffel, lá no fundo, bem distante. Ainda há espaço para a cruz cintilante de uma drogaria, mas não para o gato, ou para a criada que estende o maço de flores.

Há um ponto de fuga em Montmartre para onde homens inquietos se dirigem, como que açodados por um apocalipse. E um anjo voa rente, na direção contrária da multidão.

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No Musée Picasso, eram as janelas que se multiplicavam à la Mondrian e os espelhos jogavam lances de dados em reflexos colossais.

No Musée Rodin, foi como se abrisse o caudaloso Sena das paixões adormecidas. Pelo gesto de mãos, era possível entrever o ato do escultor em sua batalha diária com a matéria.

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É então que, no bairro do Marais, andando distraído, trombo com uma vitrine que me lembra os objets trouvées de Breton. Curioso, para dizer no mínimo. Quase como um universo paralelo que se abre, quando mãos de metal se perfilam diante de uma vitrine na qual vai colada na frente um aviso elusivo: photo ratée. Ainda com a cena na cabeça, cruzo momentos depois, com algo enquadrado, virado do avesso, encostado num canto, esperando o recolhimento de agentes da limpeza pública. Presos por ferros junto ao verso, cartões-postais de imagens de Atget, gênio do pitoresco, segundo palavras pinçadas daquelas inscrições. As fotos de Atget só podem ser pressentidas, posto que o que vemos é o verso, a legenda.

Diante da estátua do beijo, no Jardin des Tuleries, flagro uma fotógrafa idosa e esbelta, que se compraz em mirar a câmera para baixo, em direção a um ponto cego para o meu ponto de vista. No fundo, o obelisco da Place de la Concorde. Como não misturar a cena com o vermelho de uma Vespa intensamente encerada que cruzara o caminho, instantes antes, na saída do metrô?

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Se na Île de la Cité a primavera jorrava flores por todas as árvores e os turistas vagavam afoitos em busca de um lugar ao sol, poucos metros após atravessar a ponte, em direção ao Beaubourg, vejo passar um carro velho pintado como se fosse novo, e personagens que sem a menor sombra de dúvida pareciam fruto de minha imaginação.

Já não me lembro se foi no Louvre ou no Musée D'Orsay que me deparei com a aquele gajo insolente, estirado ao sol. As pétalas que espalhei por seu corpo nu vieram do chão de uma rua qualquer. A rua estava dourada como o quê. Foi nela que pude notar a placa triangular pintada de vermelho, que moldou-se com exata justeza aos músculos da figura mítica.

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Não foi nas salas de arte ocidental que mais me detive quando passei minha segunda tarde no Louvre. Encantaram-me os tesouros roubados ao Oriente, o Egito, a Mesopotâmia. E na parte externa, quando miro no contraluz em um dia de sol ardente, revejo a pirâmide que se quis roubar, reinventada, reerguida, como uma ode que atravessa gerações. A pirâmide do Louvre, naquele dia, me transportou à pirâmide de Quéops, que só viria a conhecer alguns anos depois.

É assim que, mergulhando em um arquivo de imagens de viagens que dormitavam ansiosas de uma rememoração, pude sentir o prazer intenso de recriar, para mim, os lugares pelos quais passei. Não se tratavam, enfim, de imagens por mim realizadas, mas de imagens achadas, como se outrem as tivesse sacado. Porque a memória teria de ser algo certo se não há qualquer fronteira possível e plausível entre o real e o imaginado? Por que a fotografia, como prótese da memória, haveria de ser sempre aquela guia fiel e tão pálida, em vez de amante esguia e sensual, convidando às mais loucas e inesperadas combinações?