Editorial

A presente edição é resultado do I Seminário Studium de Estudos Fotográficos que aconteceu em novembro do ano passado (2010), no Instituto de Artes da Unicamp. O evento foi aprovado pelo Fundo de Apoio à Pesquisa e à Extensão (FAEPEX), em edital interno da Unicamp. Quase a totalidade dos palestrantes enviou seus trabalhos para serem publicados nesta edição, aos quais agradecemos por se prontificarem em divulgar suas ideias na revista Studium.

O evento foi realizado no dia 24 de novembro de 2010, em duas sessões, pela manhã e pela tarde, e tivemos como convidado especial para a abertura Juan Millares, professor na Facultad de Bellas Artes da Universidad Complutense de Madrid e diretor do premiado filme “El Pabellón Alemán” (Espanha, 2009). Nesta edição o nosso leitor poderá ver na íntegra a película, por gentileza de Millares. O próprio Millares apresenta um artigo no qual podemos vislumbrar a sua relação subjetiva com os significados do fotográfico e suas fronteiras entre o documental e o ficcional.

Na mesa matutina tivemos uma profícua apresentação de questões relativas aos processos de curadoria, em que Andreas Valentin nos propiciou um itinerário pela obra de José Oititica Filho, em exposição ocorrida no Centro de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, em 2007, e pudemos ver relações do processo criativo do fotógrafo e cientista, nas quais a ciência muitas vezes alimenta a arte e vice-versa. Nesse sentido, também, mas de uma forma mais geral, o texto de Milton Guran analisa a relação da curadoria com sua inserção no mercado e sua função social, como intermediação entre público e o privado das coleções fotográficas, em que o ponto de vista da curadoria é apresentado como um processo criativo e reflexivo.

Nas questões contemporâneas do fotográfico temos a análise do livro de poemas Paranoia de Ricardo Piva, com fotos de fotos de Wesley Duke Lee, realizada por Susana Dobal. Nessa análise, as relações entre imagem e palavra convergem para o campo do poético, no qual uma apropriação da linguagem do cinema é de certa forma apresentada. Ronaldo Entler nos desafia com o tema complexo da autoria coletiva e o lugar da própria autoria da fotografia nos tempos atuais, ao analisar coletivos fotográficos e suas perturbações provocativas em uma possível dissolução do autor, contrariando tradições históricas do culto ao sujeito. Tempo, como conceito fugaz, mas diretamente implicado no fotográfico, é o tema de Cláudia Linhares Sanz, que questiona certa arbitrariedade do instantâneo fotográfico, donde a questão da duração e dimensionamento da complexidade temporal da fotografia. E nesta edição também temos um artigo de Mauricius Martins Farina, membro da comissão organizadora do evento e do comitê editorial da revista Studium, que nos traz uma reflexão sobre o movimento f.64 e suas implicações na fotografia moderna relacionadas à ideia do tempo como suspensão e ocorrência fenomenológica.

Convidamos os leitores para que adentrem os temas apresentados no evento, acreditando que a disponibilização das reflexões apresentadas nos textos aqui publicados é uma forma de participar e de interagir na própria dimensão em que o tempo pode nos inundar e presenciar.

Fernando de Tacca