Os coletivos e o redimensionamento da autoria fotográfica1 / 5

Ronaldo Entler

Apresentação

Em suas várias configurações possíveis, os coletivos de fotógrafos podem se confundir com uma cooperativa ou agência de fotografia, um banco de imagens, uma “indústria” que otimiza a produção de obras visuais complexas; também com um laboratório de experimentação de linguagens, um grupo de estudos e pesquisas, uma produtora de eventos culturais. Muitos coletivos se identificam com uma ou outra dessas atividades. Alguns poucos se destacam pela liberdade de atuar simultaneamente em todas essas frentes.

Não existe um discurso uniforme que dê conta de tudo o que hoje pode ser chamado de coletivo. Seria então prudente nomear os grupos que motivam esta reflexão, particularmente três deles, Cia de Foto, Garapa e Galeria Experiência, coletivos baseados em São Paulo cuja produção venho tendo a oportunidade de acompanhar mais de perto. Comparados entre si, possuem trabalhos muito distintos, ainda que tenham eventualmente colaborado uns com os outros e, em vários momentos, participado conjuntamente de um debate que permitiu a afirmação e a disseminação desse modelo de trabalho.

Cia de Foto (em parceria com Alex Carvalho e Guab). Caixa de sapato, 2008. Trabalho realizado a partir de fotos das coleções pessoais de seus integrantes. [http://www.vimeo.com/2982126]
Cia de Foto (em parceria com Alex Carvalho e Guab).
Caixa de sapato, 2008.
Trabalho realizado a partir de fotos das coleções pessoais de seus integrantes. [http://www.vimeo.com/2982126]
Garapa (textos de Sabrina Duran). Mulheres Centrais: Ana Rüsche, 2010. Pesquisa e exposição realizada a partir do diálogo com dez mulheres que habitam a região central da cidade de São Paulo.
Garapa (textos de Sabrina Duran).
Mulheres centrais: Ana Rüsche, 2010.
Pesquisa e exposição realizada a partir do diálogo com dez mulheres que habitam a região central da cidade de São Paulo.
Galeria Experiência. Privacidade transitória, 2010. Registros realizados nos quartos de hotéis e pousadas dos convidados do Festival de Fotografia Paraty em foco. [http://www.vimeo.com/15196554]
Galeria Experiência.
Privacidade transitória, 2010.
Registros realizados nos quartos de hotéis e pousadas dos convidados do Festival de Fotografia Paraty em foco. [http://www.vimeo.com/15196554]

Em comum, há sobretudo o fato de assumirem uma identidade complexa no que diz respeito às suas vocações, combinando em doses diferentes as várias possibilidades de atuação descritas anteriormente. Também exploram em profundidade aquele que parece ser o maior potencial desse tipo de experiência: a criação colaborativa. A aposta nesse modelo conduz, nesses casos, a uma posição firme com relação ao crédito autoral das obras, que destaca sempre o nome do coletivo, e não dos artistas que o compõem.

Esses grupos nasceram de uma afinidade entre seus integrantes, do desejo de trabalhar juntos, de pensar suas produções, de viabilizar projetos mais complexos e também uma fotografia mais complexa. A desestabilização de uma noção consolidada de autoria fotográfica é uma espécie de efeito colateral que assumem com certa naturalidade. Mas é algo que, no calor das críticas que por vezes enfrentaram, pode ter se confundido de modo exagerado com a própria causa que assumem, com a razão de suas existências. Mesmo que os coletivos aceitem e estimulem esse debate, mesmo que isso defina algumas de suas práticas (como ocorre mais explicitamente com o Garapa, no uso que fazem de licenças do tipo Creative Commons) e, por fim, mesmo que tomemos o problema da autoria como foco desta reflexão, é importante evitar tal exagero. É preferível pensar os coletivos pelo que eles afirmam e constroem de novo, não pelo que negam.

Antes de prosseguir, é preciso também assumir o lugar instável a partir de onde falo dos coletivos: um pouco de dentro e um pouco de fora. Na posição de crítico, nunca se está totalmente fora, pelo modo como os coletivos se apropriam em seus trabalhos dos discursos e dos olhares – favoráveis ou não – dedicados a eles. Na posição de amigo, nunca se está totalmente dentro, pois é quando abrem e compartilham seus territórios que percebemos que suas ações sempre transbordam de suas fronteiras. Quando realizam suas potencialidades, podemos dizer que os coletivos operam como rizomas, tal e qual foram descritos por Deleuze e Guattari: seu caráter complexo e múltiplo se define pelo “fora”, porque sempre encontram suas “linhas de fuga”, mas essas linhas continuam sendo parte do rizoma, num movimento de “desterritorialização” e “reterritorialização” (Deleuze & Guattari, 1995:17-18).

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