Os coletivos e o redimensionamento da autoria fotográfica5 / 5

Ronaldo Entler

Valores reconfigurados

A criação colaborativa não ignora necessariamente os valores historicamente associados à noção de autoria, sejam eles estéticos, éticos ou mercadológicos. O que se observa é a reconfiguração do modo como esses valores se desdobram em práticas:

  • Como ocorre em toda arte contemporânea, a unidade do estilo pode ser ameaçada pelas necessidades provisórias impostas por um projeto. Mas as decisões coletivas e a busca de sentidos compartilhados exigem sempre um mínimo de consciência sobre os critérios que regem a execução de cada trabalho. A vocação dos coletivos para o debate não representa nenhuma garantia de qualidade estética, mas eles têm nessa dinâmica uma oportunidade para buscar e explicitar um pensamento coeso que oriente a diversidade de suas experimentações.
  • A flexibilização da autoria não implica um menor nível de responsabilidade sobre a expressão. Por mais que a criação colaborativa convide à transgressão, as ações jamais estão protegidas pelo anonimato. Muito pelo contrário, os coletivos têm em geral uma existência social e jurídica ainda mais clara que a do artista pensado como “gênio” (além de nome, eles têm endereço, e-mail, blog, website perfeitamente acessíveis). Do mesmo modo, sua atuação política não está baseada na simples capacidade de disseminar convulsões, mas na possibilidade de trazer a força de seus relacionamentos para a negociação com as instituições. É assim que, por exemplo, temos visto as estratégias curatoriais, os regulamentos dos prêmios e os estatutos das coleções de fotografia sendo adaptados para comportar a participação dos coletivos.
  • A propriedade do objeto de arte se torna secundária diante de uma competência maior que é a ação cultural. Isso está longe de significar uma ruptura com o mercado. Os coletivos reúnem um capital que não tem a ver com a posse das obras já realizadas, e sim com algo um tanto mais virtual: a capacidade de realizar criativamente uma multiplicidade de projetos e de promover uma intensa circulação de suas imagens e ideias. Esses são bens intangíveis em forte consonância com as novas configurações da economia.

À parte todas as resistências e todos os deslumbramentos, os coletivos não devem ser pensados nem como um corpo anômalo e provisório que tende ao desaparecimento, nem como uma evolução das formas de produção fotográfica que tende à hegemonia. O coletivo não é nem um fantasma a ser exorcizado e nem um modelo a ser seguido. É uma dentre tantas outras formas de trabalho com a arte, que coloca em evidência um potencial de interação contido em qualquer processo de criação.

Quando discute a noção de “obra aberta” (aquela que permite um grau maior de interação com o público), Umberto Eco lembra que essa “abertura” não é propriamente a negação de um dado ontológico da arte, em outras palavras, de uma essência estética. Ao contrário, é o exercício consciente, programado e potencializado daquele que é um de seus aspectos definidores: o modo como o sentido da obra – de qualquer obra – está sempre aberto às ressignificações (ECO, 1971: 62). Mas esse novo grau de abertura não nega a responsabilidade que o artista tem de imprimir na obra uma estrutura que oriente a novas interações a que convida.

De modo análogo, a mais individual das expressões contempla uma abertura: todo processo de criação é também um embate da cultura, todo artista é um complexo de personas, todo presente contém uma multiplicidade de tempos. Os coletivos assumem esse potencial de interação como projeto, sem necessariamente ignorar a necessidade de uma estrutura identitária que oriente o processo criativo. Por mais que pareçam negar um caminho tomado pela história da fotografia, o que fazem não é mais que dar fluxo a um devir que sempre esteve nela represado.

voltaravançar