Os coletivos e o redimensionamento da autoria fotográfica4 / 5

Ronaldo Entler

Sujeito e autoria

Podemos pensar que qualquer linguagem pertence à cultura, não ao indivíduo: o autor se constitui sempre a partir de uma apropriação de um bem coletivo. Mesmo a mais simples captação de imagem está atravessada por um gesto maior do que o do próprio artista.

É interessante perceber que nem a noção de autor nem a de sujeito existiu sempre. Um homem passivo, abandonado às contingências da natureza ou às vontades de Deus ainda não constitui um sujeito. O homem que adquire esse status é uma construção da modernidade, que pressupõe um “eu” capaz de determinar um conhecimento a partir da própria razão, e ações sobre o mundo a partir de sua vontade. O autor é supostamente esse sujeito no exercício autônomo das linguagens, produzindo um discurso em que se reconhece de forma coerente, um discurso pelo qual deve se responsabilizar e que, em contrapartida, pode reivindicar como sua propriedade.

A modernidade produz a crença de que esse sujeito é livre e completo, bem demarcado nos contornos que definem sua identidade singular e que o separam das coisas exteriores que ele aprendeu a chamar de “objetos”. Junto com isso, produziu a crença de que a linguagem que recebe como herança produz estruturas que lhe pertencem.

Barthes discorda dessa ligação simples e direta entre um sujeito e seu discurso. Para ele, o escritor, sobretudo na literatura moderna, não precede o uso da linguagem, ele se constrói no interior mesmo daquilo que a linguagem possibilita dizer. Esse autor nasce, portanto, junto com a escrita:

“O autor, quando se acredita nele, é sempre concebido como o passado do seu próprio livro: o livro e o autor colocam-se a si próprios numa mesma linha, distribuída como um antes e um depois: supõe-se que o Autor alimenta o livro, quer dizer que existe antes dele, pensa, sofre, vive com ele; tem com ele a mesma relação de antecedência que um pai mantém com o seu filho. Exatamente ao contrário, o scriptor moderno nasce ao mesmo tempo que o seu texto; não está de modo algum provido de um ser que precederia ou excederia a sua escrita, não é de modo algum o sujeito de que o seu livro seria o predicado.” (Barthes, 1988:51)

Numa conferência proferida em 1969, Foucault também relativizou a noção de autor, partindo de uma pergunta de Becket: “o que importa quem fala?” Para ele, o autor não é uma existência natural, mas uma função que o discurso pode adquirir. Ele fala de quatro funções possíveis, que podemos resumir da seguinte forma: a) o autor é uma entidade jurídica que pode ser responsabilizada pelos discursos que produz mas também gozar dos benefícios de tê-los como sua propriedade; b) o autor é reivindicado quando a aceitação de um discurso exige o peso de um nome e de um contexto de formulação; c) o autor é uma suposta “razão” que permite buscar um campo de coerência entre diferentes obras; d) o autor é o lugar onde se dispersam os vários “egos” referenciados por certos signos linguísticos como, por exemplo, os pronomes (Foucault, 1994: 799-803).

Aquém das dúvidas lançadas sobre a ideia de autor, há outras tantas que podem minar a própria unidade do sujeito. A psicanálise já havia demonstrado que esse sujeito coeso tampouco existe na vida cotidiana: o que chamamos de “eu” é o fruto sempre instável de uma tensão entre um ser pulsional e um ser moral. Esse sujeito é um recorte sempre arbitrário do ser complexo e múltiplo que somos. Como dizem Deuleze e Guattari, “há sempre um coletivo mesmo se se está sozinho” (Deleuze & Guattari, 1996:13). E quando escrevem uma obra em parceria, esses pensadores assumem que o livro é, em essência, “inatribuível”: não se trata de “chegar ao ponto em que não se diz mais EU, mas ao ponto em que já não tem qualquer importância dizer ou não EU. Não somos mais nós mesmos. Cada um reconhecerá os seus. Fomos ajudados, aspirados, multiplicados.” (Deleuze & Guattari, 1995:11)

O que fez um artista como Fernando Pessoa através da heteronímia foi recusar a noção de autor como personagem médio, para dar voz aos personagens possíveis, autenticamente nele expressados. Talvez tenha sido também com a consciência de que a obra inventa em certa medida seu autor que um sujeito chamado Endre Friedman, juntamente com sua esposa Gerda Taro, concebeu um personagem-fotógrafo, com biografia e nacionalidade diferentes da sua, chamado Robert Capa. Também o que fazem os coletivos é operar de um modo intuitivo na fissura que permanece na ideia de sujeito-autor, para dar voz a uma dimensão recalcada da criação artística.

Mas isso não acontece sem tensões: a ausência de um nome próprio por detrás da obra pode ser entendida às vezes como mais um reflexo do relativismo a que a Pós-Modernidade está condenada: a oportunidade que cada pessoa encontra de reinventar-se como personagem conforme necessidades imediatas e efêmeras. Artistas como Gilbert & George, Jeff Koons, ORLAN ou Sophie Calle parecem assumir essa condição, confundindo-se voluntariamente com os personagens construídos por suas obras, numa espécie de performance contínua, expandida para fora do ambiente artístico. Essa confusão de papéis está explícita – ironicamente, é claro – no lema proposto pela dupla Gilbert & George: “nunca deixaremos de posar para ti, oh arte!”.

Gilbert and George, United Kingdom, 2008
Gilbert and George, United Kingdom, 2008

Se para Barthes, o autor é algo que se constrói no ato de cada escrita, as identidades parecem hoje reinventadas a cada circunstância numa espécie de romance cotidiano que chamamos de vida. É nessa direção que aponta o conceito crítico de “liquidez”, formulado por Zigmunt Bauman:

“O mundo construído de objetos duráveis foi substituído pelo de produtos disponíveis projetados para imediata obsolescência. Num mundo como esse, as identidades podem ser adotadas e descartadas como uma troca de roupa. O horror da nova situação é que todo diligente trabalho de construção pode mostrar-se inútil; e o fascínio da nova situação, por outro lado, se acha no fato de não estar comprometida por experiências passadas, de nunca ser irrevogavelmente anulada, sempre ‘mantendo as opções abertas.’” (Bauman, 1998:112-113)

Em síntese, essa passagem da modernidade para a pós-modernidade parece impor ao “sujeito” uma história que vai de sua existência inalienável, passando por sua cisão, até chegar à sua total inviabilidade.

Em muitos aspectos, os coletivos parecem identificados com esse contexto pós-moderno em que muitas referências tradicionais da cultura se diluem: mesmo centrados na fotografia, eles transitam entre várias linguagens; um mesmo projeto pode transpassar sem nenhum pudor o abismo que separa o mundo da arte e o mercado utilitário da comunicação; agregam em seus debates artistas, acadêmicos, militantes de causas sociais e também o indefinido público da internet; e, por fim, a grande questão: para realizar as múltiplas vocações que assumem, eles agregam criadores com diferentes personalidades e competências. Mas, ao contrário do que víamos no modo de trabalho especializado das linhas de montagem, não existe uma hierarquia rígida e tampouco uma distinção absoluta das tarefas que cabem a cada um dos colaboradores.

Apesar disso, é abusivo associar a autoria coletiva ao esfacelamento das identidades. É apenas diante de um dogma que esse fenômeno se torna assustador: a imagem do fotógrafo como “gênio solitário e excêntrico” que parece ter redimido a fotografia de sua condição menor de operação técnica. É apenas “essa identidade” dada ao fotógrafo – não propriamente “as identidades” – que se fragiliza nas dinâmicas do trabalho coletivo com fotografia.

Não é simples situar os coletivos diante das teorias que discutimos: eles emergem da tensão que resta entre a ilusão do sujeito autônomo da modernidade e o temor de sua diluição na pós-modernidade. Os coletivos tiram proveito das fissuras reveladas na pretensa unidade do autor, mas buscam um método para gerir a nova permeabilidade que resulta dessa situação de crise. Colocam em xeque a posição determinista muitas vezes assumida pela história da fotografia, que toma o artista como alguém que já contém em si tudo aquilo que a imagem pode expressar. Mas o que colocam em seu lugar não é uma entidade liquefeita que se redefine constantemente a partir de necessidades sempre efêmeras. Esse lugar peculiar que constroem permite dar uma nova medida à autoria, sem abrir mão dessa noção. Mesmo que negociada entre vários sujeitos, permanece um vetor de identidade capaz de se desdobrar numa personalidade de grupo, num posicionamento político perante as instituições e numa poética que imprime coerência aos trabalhos.

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