Os coletivos e o redimensionamento da autoria fotográfica2 / 5

Ronaldo Entler

Breve olhar retrospectivo

A ideia certamente não é nova mas, uma vez que nunca houve uma definição clara para o que pode ser um coletivo de arte, não é tão simples resgatar a sua história. Mesmo quando tomamos como recorte as possibilidades de criação colaborativa podemos cair num jogo retrospectivo interminável.

Há grupos consagrados que se formaram no contexto transgressor da arte dos anos 1960, 70 e 80, que por vezes são explicitamente referenciados sob o nome de coletivos, como o Fluxus, Acionistas de Viena, Art & Language, General Idea, Internacional Situacionista; no Brasil, 3nós3, Viajou sem passaporte, Tupinãodá, entre outros.

Antes disso, no contexto das vanguardas históricas, grupos como os futuristas, construtivistas, dadaístas, surrealistas produziram ações em conjunto: feiras, intervenções em espaços privados e públicos, críticas, discursos, cartazes, livros, panfletos, coisas que nesse contexto não necessariamente eram reconhecidas como obras.

Andrea Verrocchio. O Batismo de Cristo, c. 1475. Detalhes da paisagem e o anjo à esquerda são atribuídos a Leonardo da Vinci.
Andrea Verrocchio.
O Batismo de Cristo, c. 1475.
Detalhes da paisagem e o anjo à esquerda são atribuídos a Leonardo da Vinci.

É possível dar saltos ainda maiores. No Renascimento, quando a ideia de gênio artístico já está bem caracterizada, a dinâmica dos grandes ateliês permanece colaborativa, mas com a devida distinção entre a mão de obra especializada dos aprendizes e a autoridade do mestre. Mesmo assim, a história não deixou de identificar perturbações nesse sistema. É o que encontramos no comentário um pouco sensacionalista que Giorgio Vasari faz à obra O batismo de Cristo, de Verrócchio. Cabe dizer que o livro de Vasari, intitulado A vida dos artistas (1550), é emblemático de um método historiográfico que coloca todo o peso da análise na relação da obra com a vida singular de um autor. Diz Vasari:

“Nesse trabalho ele foi auxiliado por Leonardo da Vinci, seu discípulo, então muito jovem, que pintou ali um anjo com suas próprias mãos, e que restou muito melhor do que outras partes da pintura. Por essa razão, Andrea [Verrócchio] decidiu nunca mais tocar num pincel, uma vez que que Leonardo, jovem como era, obteve nessa arte um desempenho muito melhor do que ele havia alcançado” (VASARI, 1912:194).

Verrócchio certamente não teve a intenção de uma autoria compartilhada, teve sim o azar de ter entre sua mão de obra a presença de alguém cuja identidade foi cobrada pela história.

Poderíamos brincar de inverter a perspectiva da história da arte para mostrar como a ideia de autor é sempre produto de uma negação. Por exemplo, ainda que possa ter existido na Grécia um grande poeta chamado Homero, a assinatura que aparece na Ilíada e na Odisséia é muito provavelmente o produto da condensação de experiências de interpretação dessas narrativas ao longo de séculos. Nessa perspectiva, podemos pensar que Homero é uma espécie de coletivo de poetas desdobrado no tempo que precisou tornar-se indivíduo, numa cultura que caminhava na direção do humanismo e que, assim, buscava nomear os agentes de sua história.

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