Milton Guran, a fotografia em três tempos* 1 / 4

 Ana Maria Mauad**

Fontes

Entrevista realizada em 3 de março de 2009, Sta. Tereza, 1h 07 min., depositada no LABHOI/UFF.

Referências Bibliográficas

Guran , M. Agudás: os ‘brasileiros’ do Benim, Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira/Gama Filho, 2000.

Guran , M. (coord.) Brasília ano 20: depoimento de 35 fotógrafos de Brasília, Brasília: Agil Fotojornalismo, 1980.

Guran , M (Coord.) Ciclo Paradigma Digital – Fotorio 2005, Rio de Janeiro: Instituto Telemar, 2006, 128p.

Guran , M (Coord.) Coleções e Arquivos Fotográficos: constituição, função social e conservação. In: Fotografia: suporte de memória, instrumento de fantasia.  Anais do Colóquio Internacional, Rio de Janeiro: Centro Cultural do Banco do Brasil, 2006.

Guran , M. Fotografar para descobrir, fotografar para contar. Cadernos de Antropologia e Imagem, Rio de Janeiro, EdUERJ, vol. 10, n. 1, 2000

Guran , M. (coord.). Processo constituinte, 1987-1988: documentação fotográfica. Brasília: Ágil; Ceac/UNB, 1988.

Guran , M. Linguagem fotográfica e informação. Rio de Janeiro: ed. Gama Filho, 2ª ed., 1999.

Mauad , Ana Maria. Poses e flagrantes: ensaios sobre história e fotografias, Niterói: EDUFF, 2008

Velho , Gilberto. Projeto e metamorfose: por uma antropologia das sociedades complexas,  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

Resumo

O artigo aborda a trajetória do fotógrafo e antropólogo Milton Guran em três tempos: o tempo da política; o tempo dos índios e o tempo da África. Cada um desses momentos revela uma prática fotográfica em sintonia com os projetos definidos pelo sujeito do olhar e delimitados pelos seus campos de atuação. Utilizou-se da metodologia da História Oral para a elaboração de um conjunto de entrevistas sobre trajetória profissional apoiado nas imagens fotográficas. Palavras de rememoração se unem à série de imagens sobre os três tempos, desse procedimento resulta um texto no qual a autoridade autoral é compartilhada com aquele que é o tema do estudo.

Há algum tempo venho trabalhando com a trajetória de fotógrafos e fotógrafas, principalmente, mas não exclusivamente, fotojornalistas. Meu propósito nesse estudo é dimensionar prática fotográfica no mundo contemporâneo como experiência de ver e conhecer. Os sentidos que orientam o ato fotográfico são múltiplos e a fotografia é sempre uma síntese da pluralidade desse mundo sensível. O tempo desse ato, no mundo contemporâneo, é o instante que, na famosa expressão de Cartier-Bresson, “é decisivo”, por isso evoca a presença de um sujeito atento que pensa, vê e captura. Daí o meu interesse pelos donos desse olho que pensa, na feliz expressão de Kracauer.

Das trajetórias que venho recompondo, uma delas, a do fotógrafo e antropólogo Milton Guran, é significativa para se compreender os múltiplos usos de funções da fotografia como experiência social. A sua trajetória profissional pode ser delineada em três tempos: o tempo da política, o tempo dos índios e o tempo dos Agudás, cada qual cobrindo uma forma de visualizar e conhecer diferentes dimensões da experiência social pela fotografia.

O primeiro leva em consideração as imagens produzidas durante o seu trabalho como fotojornalista e integrante da agência Ágil; o segundo trabalha com as imagens produzidas nas investidas do fotógrafo pela Amazônia e a sua estadia entre os índios; o terceiro e último tempo analisa o seu trabalho com os “Agudás, os ‘brasileiros’ do Benim” (Guran, 2000).

Para cada um desses tempos, Milton Guran escolheu um conjunto de fotografias, cada qual comentado e registrado numa entrevista. O resultado é a trama entre palavras e imagens, comentários e conceitos, reflexão e descontração, enfim, o encontro da fotografia com a sensibilidade  e o conhecimento.

Sobre os tempos

A compreensão de que as trajetórias sociais se perfazem em função de um projeto e de um campo de possibilidades (Velho, 1994) me orientou na divisão da trajetória profissional de Guran nos três tempos acima apresentados. Minha convicção de que esses tempos foram definidos em função de projetos e campos de ação, profissionais, políticos e vivenciais do próprio fotógrafo, foi confirmada quando o próprio Guran os aceitou como balizas, pelas quais podia se orientar no seu processo de rememoração.

Bom,  esses três tempos são quase três campos na verdade. Nós temos um campo que é  a fotografia jornalística de cunho político; nós temos uma fotografia de documentação de povos indígenas que começou como jornalística, porque foi como repórter que eu fui pela primeira vez numa área indígena, mas que foi agregando outras visões mais ligadas ao documentarismo e até finalmente  a antropologia. Esse período de tempo, que abrange as fotos da questão indígena entre 1978 e 1992, foi quando eu me lancei na antropologia e completei a minha formação de antropólogo. Quer dizer, completei não, pois foi em 1992 que eu fui fazer doutorado, mas que eu me lancei. E o terceiro campo é a fotografia eminentemente antropológica feita dentro de uma pesquisa antropológica de fôlego, que foi a pesquisa para o meu doutoramento que trata da construção da identidade dos Agudás, na costa ocidental da África, mais precisamente no Benim. Então eis aí os três tempos, tempo num sentido largo, porque os períodos se misturam entre os dois primeiros campos, mas o terceiro campo é  posterior.

Em cada tempo ou campo de possibilidades a experiência fotográfica se redefine, na medida em que assume um projeto e um plano de ação, cujos objetivos e estratégias  influenciam o resultado final.

A primeira observação a fazer é que nós temos na ponta do processo a busca pela notícia que é o objetivo da fotografia jornalística. O objeto da fotografia jornalística, o que o fotojornalismo procura, é aquele aspecto da realidade visível que se torna notícia, já que o objeto da fotografia jornalística é a notícia. Enquanto que, na outra ponta do processo, temos a fotografia como instrumento de pesquisa para a Antropologia, ou seja, aquela imagem que vai servir de ponto de partida para uma reflexão sobre como os indivíduos organizam, sistematizam e operam a sua experiência de vida em comum, esse é o objeto da Antropologia. Então a fotografia vai buscar um determinado aspecto desse mundo visível que possa fundamentar essa reflexão, ou que possa servir de apoio para demonstrar uma reflexão que não foi feita a partir da fotografia, mas que incorpora a fotografia, num determinado momento, para reforçar e explicitar seu próprio discurso. Entre esses dois pólos nós temos uma área de transição que nós normalmente chamamos de documentação, de documentarismo fotográfico, que é assim bem aparentado com documentarismo cinematográfico. Trata-se de uma fotografia que tem uma preocupação, não com o fato em si, imediato, a superfície das coisas, que é a área em que trabalha o jornalismo, mas sim com o conteúdo do fato, as raízes do fato, a base do fato, enfim, é uma fotografia que depende de uma observação e de uma vivência mais acuradas [...] Então, o documentarismo é, digamos assim, a sensibilidade trabalhada, responsável, com intenções claras de dialogar profundamente com determinado fato social.

 Nesse sentido, toda foto é produzida para um fim determinado, mesmo que sua finalidade possa ser ressignificada na sequência temporal e nas mudanças de conjuntura, como veremos nos comentários da série sobre política. Isso porque, como diz o autor: a questão é  seguinte, a gente produz foto para determinado fim, entendeu?

* Esse trabalho integra o projeto de pesquisa “Imagens contemporâneas: prática fotográfica e os sentidos da história na imprensa ilustrada (1930-1970)”, apoiado pelo CNPq (2008-2010). Contou com a pesquisa da bolsista de Iniciação Científica Elizabeth Castelano e com o trabalho de transcrição de Ana Katharina Essus e Vinícius Machado.

** Professora Associada do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UFF, coordenadora do LABHOI-UFF e pesquisadora do CNPq.