Explorações do olhar: Natureza, ciência e arte nas fotografias da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo

Explorações do olhar: Natureza, ciência e arte nas fotografias da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo [i] I / II

Cláudia Moi [ii]

I | II | resumo

A fotografia como um meio de visibilidade das ciências no século XIX

Entre a invenção da fotografia do século XIX e a câmara escura do século XVII, não há um desenvolvimento linear e decorrente, mas sim, uma ruptura de "modelo epistemológico de observador"; o que, segundo Jonathan Crary, acontece com esse observador no século XIX é "um processo de modernização".[iii]

No século XIX, a visão se torna ela mesma, objeto do conhecimento científico. O desenvolvimento de dispositivos ópticos e de uma nova ciência da fisiologia óptica será "descoberta", o conhecimento será entendido como sendo condicionado pelo aparelho humano, os olhos, possuidores de um funcionamento e conformações anatômicas específicos, e não o inverso, como até então se pensava. Dessa forma, panoramas, estereoscópios, dioramas ( invenções dos séculos dezoito e dezenove), são alguns desses dispositivos que operavam diretamente no corpo do indivíduo e treinavam seu aparato visual para novas formas de olhar e de visão do mundo, "um instrumento de liberação da visão humana e desprendendo-a da limitação para o novo". [iv]

As imagens panorâmicas, como gênero de representação, levariam artistas e amadores a formular paisagens urbanas ou naturais, muitas vezes utilizadas no entretenimento do público em geral. Mas será com o seu uso no campo das explorações científicas, na geografia e em outras ciências a sua maior consolidação.

No século XIX, havia um entusiasmo pela ciência, procurando registrar e classificar o mundo e todas as coisas: desvendar, explorar, mapear todo o globo terrestre, controlar a natureza e entender seu fenômenos. No Brasil e no ocidente, os homens encontravam-se embevecidos pela idéia de progresso e civilização; a chamada "era da ciência, o final do século XIX representa o momento do triunfo de uma certa modernidade que não podia esperar...Velocidade, rapidez eram os lemas desse momento, quando não pareciam existir barreiras a frear". [v]

Esse "espirito de época" explica a necessidade das exposições nacionais e internacionais, ambiente em que se conheciam e propagavam as novidades, invenções e realizações da dita "civilização", ciência e "progresso". A importância da fotografia como um meio de visibilidade das ciências na época afirmava-a como veículo de uma linguagem nova, realista e altamente convincente, pois possuía um caracter informativo, detalhado e preciso em relação ao mundo das ciências e seus feitos.[vi]

No circuito das exposições havia um trânsito de fotografias, principalmente de paisagens, ou as chamadas "vistas", que se transformam um "objeto de consumo".[vii] Essa grande circulação das fotografias de paisagens nas exposições estava inserida numa "cultura visual" já existente nas sociedades européias desde o início do século XIX. A crescente busca por imagens de paisagens naturais estava ligada a um contexto de rápido desenvolvimento urbano associado a um "impulso mapeador" de caráter militar e estratégico que se disseminou em toda a Europa da época. [viii]

A preferência por motivos paisagísticos, como grandes quedas d'água e florestas virgens, revela-se na "presença viva das forças da natureza, que provocam forte sensação e pelas quais impera a grandiosidade do universo, estimula o sentimento de sublime." [ix]

Os viajantes das expedições científicas do início do século XIX ao desvelar a natureza mostravam na descrição narrativa ou imagética um prazer na aventura da viagem, segundo Ana Maria Beluzzo, um "desejo de viver pela sensação e experimentação".[x]

No século dezenove, os motivos de paisagens naturais na pintura e na fotografia estavam aderidos à concepção estética do pitoresco e sublime.[xi] Assim, a fotografia importará os recursos de composição da pintura, para buscar representar a natureza, "incorporando-os, inserindo-os num novo tratamento plástico nos mesmos elementos temáticos, e por fim rompendo-os através da construção de um novo modelo." [xii]

Assim, as noções estéticas de pitoresco e sublime, geradas pelos relatos de viajantes do século dezenove, elaboram uma concepção de "paisagem brasileira". Essa definição de "paisagem brasileira" está, por sua vez, ligada à construção discursiva de uma afirmação de nação, à descoberta do território como uma produção de um discurso sobre a "identidade nacional". A pátria, estabelecida no concreto do espaço, deveria ter uma correspondência no imaginário visual que, por sua vez, foi elaborado pela imaginação geográfica de cientistas-artistas do século XIX. [xiii]

As fotografias de paisagens naturais são pouco estudadas, e este trabalho vem neste sentido, de aprofundar as pesquisas, utilizando as fotografias da Comissão Geográfica e Geológica e tentando entender as concepções de natureza, ciência e cultura visual.

I | II | resumo

Notas e referências bibliográficas

[i] Trabalho apresentado no dia 03 de setembro de 2004 no núcleo de pesquisa 20 - Fotografia, Comunicação e Cultura, do IV Encontro de Núcleos de Pesquisa da Intercom - XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.

[ii] Mestranda na área de fotografia em Multimeios pelo Instituto de Artes da Unicamp e conservadora-restauradora de fotografias e documentos em papel.

[iii] CRARY, Jonathan. Techniques of the Observer: on vision and Modernity in the nineteenth century. London: MIT Press / October Book, 1990.p9

[iv] OETTERMANN, Stephan. The Panorama History of a Mas Medium, translated by Deborah Lucas Schneider, New York , Zone Books , 1997.p7

[v] COSTA, Angela Marques da e SCHWARCZ, Lilia Moritz. 1890-1914: no tempo das certezas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.p9

[vi] TURAZZI, Maria Inez. Poses e Trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839/1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.p147

[vii] TURAZZI, idem p147

[viii] MARTINS, Luciana de Lima. O Rio de Janeiro dos Viajantes: o olhar britânico (1800-1850). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.p50

[ix] BELLUZZO, Ana Maria de M. O Brasil dos Viajantes. São Paulo: Metalivros; Salvador: Fundação Odebrecht, 1994, volume 3. (viagem e paisagem).p.38

[x] BELUZZO, idem,p38

[xi] Os termos originalmente foram estabelecidos por Edmund Burke no tratado de filosofia e estética intitulado Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo, publicado em 1757. Assim, podemos descrever os termos: PITORESCO - O princípio da disposição dos elementos arquitetónicos, partes de uma composição pictural ou escultórica ou concepção de jardins, de um modo agradavelmente irregular, originário do século XVIII - como as pinturas de Claude Lorrain e Poussin (...) e SUBLIME (... )associavam-no com idéias de ilimitados, extraordinário, grandeza e por vezes terror. Deve ser distinto do Pitoresco, que é agradavelmente irregular, mas não induz o terror, e também do Belo que, nsa teorias da arte do século XVIII, tentava agradar através da absoluta harmonia de proporção. LUCI-SMITH, Edward. Dicionário de termos de arte. Trad. Ana C. Mântua, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990.p156 e p187

[xii] CARVALHO, V. A representação da natureza na pintura e na fotografia brasileira do século XIX In FABRIS, Annateresa. Fotografia: usos e funções no século XIX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1991. (coleção texto & arte; v.3)p.207

[xiii] MAGNOLI, Demétrio. O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). São Paulo: Editora Unesp / Moderna, 1997.p290 e 293