A Era dos Arranha-Céus

A Era dos Arranha-Céus: as transformações urbanas por intermédio das fotografias de Alfred Stieglitz e Alvin Langdon Coburn - I

Patrícia Rodolpho

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A cidade parece ocupar, dentro de uma gigantesca produção visual que se delineia desde os primórdios da fotografia, um lugar altamente destacado, havendo um interesse constante dentro do universo fotográfico urbano em documentar as múltiplas e sucessivas transformações que alteram as suas feições.

Na virada do século XIX para o século XX, a cidade de Nova Iorque constituía-se em um universo intenso em transformações brutais, impulsionadas pelo fenômeno de uma modernidade caracterizada, em grande parte, por saltos tecnológicos que traziam inovações estarrecedoras, dentre as quais se sobressai a imponente figura do arranha-céu. Michel Frizot comenta que é a partir da imagem fotográfica que o arranha-céu torna-se por excelência o símbolo do modernismo e do progresso, do poderio e da força da metrópole moderna[1].

É para este contexto da cidade em transformação, em especial de sua expansão vertical, que alguns fotógrafos direcionaram suas lentes. Naquela Nova Iorque do princípio do século XX, Alfred Stieglitz (1864-1946) e Alvin Langdon Coburn (1882-1966) encontraram um novo panorama visual urbano estimulante, produzindo séries fotográficas que se constituem em referências fundamentais para a discussão da fotografia urbana. Assim, este artigo tem como objetivo resgatar a trajetória desses dois fotógrafos, no intuito de refletir sobre a forma pela qual ambos abordaram, por intermédio da fotografia, a metrópole nova-iorquina em transformação.

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Alfred Stieglitz e Alvin Langdon Coburn foram figuras-chave no que concerne às discussões e posicionamentos acerca da inserção da fotografia no campo legítimo das artes visuais. Muito próximos durante algum tempo, fizeram parte do movimento Pictorialista, o primeiro movimento artístico constituído em torno da fotografia[2]. Embora compartilhando inicialmente das prerrogativas implicadas nesse movimento e utilizando as técnicas que lhe foram características, deram saltos conceituais no conjunto de suas produções, lançando a fotografia em uma nova e definitiva posição no universo artístico.

Vigoroso e emblemático, Alfred Stieglitz esteve em constante trânsito entre a Europa e a América do Norte, acumulando funções importantes no cenário fotográfico do final do século XIX e primeiras décadas do século XX, sobretudo no intuito de conduzir a fotografia americana a novas perspectivas artísticas. Neste sentido, agregou fotógrafos e artistas plásticos que atuavam na época, tais como Gertrude Käsebier, Edouard Steichen e Clarence White, os quais partilharam da Foto-Secessão[3].

Stieglitz inicia sua relação com a fotografia em 1883, obcecado pelo domínio das possibilidades técnicas do meio; na década de 1890, ele é um dos sócios que funda uma empresa gráfica chamada Heliochrome, posteriormente rebatizada Photochrome Engraving Company. Durante os cinco anos que permanece nessa sociedade, Stieglitz torna-se um verdadeiro mestre nas artes da fotogravura, adquirindo todos os conhecimentos necessários acerca das técnicas gráficas que farão célebre a sua legendária publicação Camera Work, inaugurada em dezembro de 1902[4].

Dentre outros feitos importantes realizados por Stieglitz, não se pode deixar de lado o fato de que ele foi o principal responsável pela inauguração da "Galeria 291", ou "The Little Galleries of the Photo-Secession", em 1905. Inaugurada em virtude da carência de espaços que expusessem fotografias, e também pela vontade de um local adequado para expor as obras da Foto-Secessão, a '291' foi, em conjunto com a Camera Work, um marco dentro do contexto de inserção e aceitação da imagem fotográfica dentro de um universo artístico que passasse a legitimá-la como tal[5].

Esse breve resumo das intensas atividades de Stieglitz visa retraçar o seu pano de fundo conceitual, no sentido de que se possa compreender, afinal, quais são as diferenças entre as fotografias urbanas que ele obteve no final do século XIX, as que foram produzidas no ano de 1910 e outras, muito significativas, obtidas em 1931, estas últimas conformando uma extraordinária série temática sobre os arranha-céus de Nova Iorque. Pam Roberts salienta a profunda diferença no conjunto da produção de Stieglitz, colocando que entre as obras da sua fase de influência pictorialista e aquelas que ele viria a produzir vinte anos mais tarde, existem, na verdade, poucas semelhanças[6]. Naquele primeiro momento, onde as cenas vaporosas, o flou, e a visão de um cotidiano envolto pela névoa predominavam entre a produção pictorialista, Stieglitz enfocava a cidade mergulhada na neve, na noite e na umidade da chuva. São exemplos deste período Winter, Fifth Avenue (1893) e The Street - Design for a Poster (1896), imagens de uma cidade em meio a tempestades de neve: a primeira imagem mostra a perspectiva de uma rua fustigada pela intempérie, onde uma carruagem, ao centro, tem seu condutor parecendo travar uma luta para ultrapassá-la; em 1896, é de fato uma imagem de característica postal que Stieglitz produz: composta de uma forma extremamente bela, pode-se observar aí a perspectiva de uma fila de carruagens onde apenas as que estão em primeiro plano podem ser vistas com maior nitidez, e aquelas que se encontram no plano de fundo sendo esmaecidas pela claridade da neve, bem como os prédios que compõem a moldura ao lado direito.

Em 1896, Stieglitz compõe uma série de imagens noturnas: Night - New York, The Glow of Night - New York e Reflections, Night - New York ressaltam o brilho intenso da iluminação noturna refletida no calçamento úmido da cidade; na primeira imagem, primorosa, desenha-se a silhueta de torres esvaecidas ao fundo. A cidade úmida e chuvosa parece atrair o fotógrafo em épocas distintas:  A Wet Day on the Boulevard, Paris (1894), Spring Showers - New York (1901) e A Snapshot, Paris (1911) repetem a temática dos reflexos brilhantes provocados pela umidade da chuva nos cenários urbanos.

City of Ambition Em 1910, Stieglitz produz duas fotografias emblemáticas, cujos títulos sugerem o seu pensamento sobre a cidade moderna, mais especificamente sobre Nova Iorque. City of Ambition e Old and New New York revelam o crescimento e a industrialização desta cidade que Stieglitz continuaria a fotografar até o final de sua vida, a visão do espanto gerado pela transformação e pelo progresso. City of Ambition mostra Nova Iorque vista a partir de suas águas, com os altos prédios erguendo-se no plano de fundo e dividindo o espaço da imagem com vários rolos de fumaça exalados de vários pontos. Old and New New York exibe uma cidade ainda rasa, com seus prédios de três ou quatro andares e delicadas águas-furtadas, em contraposição ao esqueleto da estrutura de uma imensa construção ao fundo. É uma das imagens, por excelência, da transformação urbana, da sobreposição das formas que a tecnologia imputa ao espaço da cidade[7].

Contudo, o conjunto de imagens que de fato refere-se às transformações urbanas foi realizado por Stieglitz décadas mais tarde, entre 1931 e 1935, sobre os arranha-céus, já concluídos e em construção, na cidade de Nova Iorque. Se as imagens até aqui comentadas possuem a característica da paisagem tradicional, ou seja, são constituídas pelos planos abertos que revelam vários elementos em uma mesma cena, neste último trabalho Stieglitz 'isolou' os arranha-céus que objetivava ressaltar. São imagens que mostram tão somente os prédios, seja a partir do choque, em uma mesma imagem, daqueles já prontos, verdadeiras fortificações de concreto, em contraposição aos esqueletos das estruturas inacabadas e vazadas dos arranha céus em construção, como em Evening from the Shelton (1931), From my Window at the Shelton, West, 1931 (1931) e a magnífica From an American Place, Looking North (1931), na qual um verdadeiro mosaico de arranha-céus ao fundo impressiona em conjunto com a visibilidade, em primeiro plano, de andaimes, tijolos e estruturas de ferro e madeira de uma construção em processo; ou seja, ainda registrando o momento mágico do anoitecer, o qual revela apenas as silhuetas escurecidas das torres de concreto, apenas parcial e levemente iluminadas, de New York Series, 1935 (1935). Por último, New York Series - Spring (1935) evidencia a magnificência dos arranha-céus pela divisão, na imagem, entre uma porção superior, bastante clara, e a porção inferior, mergulhada na sombra. A porção superior destacada exibe primorosamente a visão do arranha-céu, radiante pela intensa luminosidade, enquanto a parte superior parece sucumbir à magnificência da edificação.

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[1] FRIZOT, Michel. "Une autre photographie" in Nouvelle Histoire de la Photographie, Bordas, Paris, 1994.

[2] POIVERT, Michel. "Robert Demachy dans le mouvement pictorialiste" in Robert Demachy. Coleção Photo Poche, n° 71, Editions Nathan, Paris, 1997. Robert Demachy, em conjunto com Alfred Maskell, em 1898, realiza uma breve publicação onde são colocadas as características do Pictorialismo e os segredos do procedimento da goma bicromatada, o qual permite pigmentar o suporte fotográfico, realizando após despolimentos desses pigmentos nas regiões desejadas. O objetivo dos pictorialistas consistia, então, em desviar a fotografia do seu estatuto vigente de mimese da realidade, de sua condição meramente descritiva. O procedimento da goma bicromatada permitia que, por meio da pigmentação e do despolimento manual, a fotografia fosse aproximada das artes do desenho e da pintura, rompendo então com os discursos que condenavam-na pela sua gênese estritamente técnica.

[3] ROBERTS, Pam. "Alfred Stieglitz, la galerie '291' et Camera Work", in Câmera Work: the complete illustrations 1903-1917, Taschen, Köln, 1997, p. 63-93. Sobre a Foto-Secessão, Pam Roberts faz a seguinte colocação: "Stieglitz fonda la Photo-Secession à partir d'un groupe de photographes américains qui avaient commencé par rivaliser avec des idéaux du pictorialisme européen (...), mais qui eurent tôt fait d'élaborer et d'affirmer leur propre langage, lequel finit par devenir la langue véhiculaire de toute la photographie." (ROBERTS, P; 1997:64). Neste mesmo texto, mais à frente, Roberts comenta a atuação de Stieglitz com os pictorialistas, ressaltando, contudo, que esta partilha breve de interesse, por parte do fotógrafo, dava-se junto com uma predisposição de encontrar possibilidades mais imediatas e mais estreitamente ligadas à natureza própria da fotografia de reprodução objetiva da realidade, concepção que acabará por resultar na straight photography: "(...)C'est ainsi qu'il parvint à une pureté, à une simplicité de la vision et de la technique, qui permirent de parler de photographie 'directe' et qui contenaient em germe tout l'avenir du genre."

[4] Antes de Câmera Work, entretanto, Stieglitz foi, em 1892, o redator-chefe da revista The American Amateur Photographer. Em 1897, ele empreitou a fusão dos fotoclubes Amateur Photographer e New York Camera Club, dando início ao Camera Club, cuja publicação trimestral Camera Notes (1897-1902), notória pela qualidade das ilustrações, reuniu obras de pictorialistas como Gertrude Käsebier, Edouard Steichen, Alvin Langdon Coburn e Clarence White, futuros membros da Foto-Secessão. Camera Notes, publicação fotográfica de maior influência nos Estados Unidos na época, possibilitou os ótimos frutos que fariam de Camera Work (1903-1917) uma publicação sem precedentes pela soberba qualidade, pela coerência de sua diretriz visual, com os cinqüenta números de seu conjunto tendo circulado sem alterações em seus elementos gráficos fundamentais, e sobretudo pela influência que exerceu na comunidade artística da época. ROBERTS, p., op. Cit. p. 68-85.

[5] Junto à '291', Stieglitz, a partir da década de 1910, introduziu fortemente a arte das vanguardas artísticas européias, em especial a arte francesa, nos Estados Unidos: em 1908 são expostos nesta galeria desenhos originais de Rodin e litografias, quadros e desenhos de Matisse e, entre 1911 e 1916 a galeria colhe desenhos e aquarelas de Picasso, Braque, e Picabia, por exemplo.  Já Câmera Work, que em muito serviu como catálogo das exposições da '291', após 1910 passa a ceder cada vez mais espaço à arte contemporânea, com obras de Picasso, Rodin e Matisse em suas páginas. ROBERTS, P., op. cit. p. 82-87.

[6]  ROBERTS, P., op. cit. p. 65.

[7] É interessante o comentário de Pam Roberts acerca do fato de que entre 1882 e 1890, o fotógrafo americano esteve em período de estudos em Berlim: é justamente a época em que ele entra em contato com a fotografia e influencia-se pelo pictorialismo. Em 1890, Stieglitz volta a morar em Nova Iorque, despertando para uma realidade muito diferente da realidade européia, sobretudo em virtude do novo panorama visual urbano nova-iorquino, mudança esta que parece ter influenciado muitas de suas concepções acerca da fotografia: "Le changement se produisit à son retour à New York em 1890: là, il se trouva confronté à un contenu em tout point plus dur, plus résistant et plus réaliste. Il n'y avait rien, dans l'agressivité, la vitalité et le mouvement des rues new-yorkaises, dans le spetacle de l'architecture s'élevant à la verticale, qui offrit les mêmes agréments que les riantes campagnes européennes peuplées de paysans en costumes photogéniques. Mais après s'être rapidement réadapté à cet environnement, Stieglitz y trouva une matière tout à la fois passionante et stimulante, et il continua de photographier New York pour le restant de ses jours. Il fut l'un des premiers photographes à percevoir la richesse du potentiel photographique contenu dans l'énergie et la rapide croissance d'une ville. C'est ainsi qu'il s'attaqua à un monde plus grand, plus vif dans ses contours, plus conflictuel et plus réaliste, avec ses formes graphiques et ses motifs géometriques, que celui que photographiaient ses contemporains.(...)". ROBERTS, P., op. cit. p.65-66.

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