Uma cena alemã ao anoitecer. Um ensaio sobre o gestus social de Brecht na fotomontagem de John Heartfield. - 1

Rodrigo Garcez [1]

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No início se ouviam ecos sobre uma pirâmide

Perdido em algum dia do ano de 1910, o jovem senhor Kandinsky tem a mente atribulada de idéias sem forma. Retornando a Munique depois de um giro pelo mundo tentando achar um eixo para seus quarenta anos; filosofa sobre a Arte e o Espírito. Pensa num ponto inicial, o homem, e numa linha, a sociedade. Da composição com os planos possíveis resulta uma pirâmide.

Súbito, todas as idéias sem forma avançam sobre a recém edificada pirâmide para terem abrigo contra o esquecimento. E assim a pirâmide de Kandinsky pôs-se em movimento. Para organizar o caos do pensamento, a cabeça do pintor imagina uma tela, na qual a pirâmide é contida na forma de um triângulo. Ainda que o movimento ficasse restrito ao sobe-e-desce do triângulo na tela, aquele triângulo que representava a sociedade humana era na verdade uma pirâmide latente e por isso o artista deu-lhe o nome de triângulo espiritual.

Imaginou depois que o Artista está no topo desse triângulo "projetando a luz nas profundezas do coração humano" (Schumann in Kandinsky, 1956:15), anunciando os novos caminhos de nossa evolução até a base de nossa família triangular. Seu chamado espera motivar o movimento ascendente do triângulo pela tela imaginária do tempo. Sua alegria está no eco de suas palavras que não se perdem no vazio.

Em 1933, o triângulo germânico afasta as luzes de Kandinsky e em seu lugar coloca a escuridão fascista. No mesmo ano deixam a Alemanha Bertolt Brecht e John Heartfield, duas outras luzes desse mesmo triângulo, que tentavam iluminar o precipício que se aproximava.

Reflexões do homem à margem do precipício

Era uma vez 17 estados que formavam um único país derrotado, cujo povo se equilibrava nos extremos da radicalidade, à direita os ricos e à esquerda os pobres. Sob ambos a mesma imposição do pós guerra, o Tratado de Versalhes, o desemprego, a fome e a inflação. Quando Rosa Luxemburgo foi assassinada, a balança começou a pender e a República de Weimar sutilmente foi se transformando no Terceiro Reich. Alemanha, grande palco para a tragédia humana do século XX, epicentro da histeria em massa e da fúria genocida do homem, arrastando tudo e todos para o precipício.

Às margens do fim do mundo estavam dois amigos, artistas e alemães, que refletiram sua arte em direção ao precipício, ganhando em troca o exílio. Enxotados para além das fronteiras, carregavam consigo a mancha de seu tempo. Chamavam-se Bertolt Brecht e John Heartfield. Na imagem que analisamos hoje, seus pensamentos aparecem materializados e fundidos na dialética do estranhamento da fotomontagem. Esse recorte épico se dá no ano de 1932 depois de Cristo, na agonizante República de Weimar. Um ano antes dessa fotomontagem, as cidades alemãs encontravam-se imersas no caos e na miséria. Temendo uma revolta popular que modificasse os rumos da história, os grandes conglomerados industriais, que temiam uma possível ascensão da esquerda, financiavam os nazistas. Surge assim o personagem sem o qual nossa análise ficaria incompleta, um outro artista, pouco hábil com os pincéis mas de destreza sem par na bufonaria dos espetáculos populares para as massas.

Adolf Hitler também se dirigia ao precipício, comunicando suas idéias: Luta contra o marxismo, expulsão dos estrangeiros, eliminação dos judeus, destruição do Tratado de Versalhes, garantia de terras aos camponeses, defesa das pequenas indústrias e fim do caos social. Ganhou, em troca, a confiança do povo alemão, o capital das elites e levou todos a um banho de sangue no qual 50 milhões de seres humanos pereceram.

 Pão, batata e três arenques por mês

Janeiro de 1932, 6,042 milhões de desempregados, 20,3 mil falências. O seguro-desemprego estava no limite, como se vê na história econômica de uma família, coletada pelo sindicalista alemão Wilhelm Adamy: "Um pai de sete crianças: depois de perder o bom emprego que tinha, passou a receber 15,85 reichsmark por semana de seguro-desemprego. Descontadas todas as despesas, como por exemplo três marcos de aluguel, 70 centavos do gás e 50 centavos da prestação numa loja, sobravam em média 8,20 reichsmark por semana. Dava para pão, batata e três arenques (o peixe mais barato) por pessoa ao mês".

Nesse mesmo ano os nazistas obtém trinta e oito por cento das cadeiras do Parlamento. O então chanceler, Von Papen, demitiu-se, e o general Von Schleicher foi nomeado para o cargo. Schleicher queria calar tanto os comunistas quanto os nazistas, fato que desagradou a elite industrial. Forçado por ela, Hindenburg nomeou Hitler chanceler em trinta de janeiro de 1933. A partir daí: marcha para a guerra, Estado totalitário, fanatismo nacional, loucura racista, perseguição e assassinatos, censura, meio milhão de membros na SS, propaganda maciça, nazificação dos jovens, campos de concentração, superioridade da raça ariana e do povo alemão.

O problema do desemprego começou a ser superado pelo boom da indústria bélica, além de outras medidas: "A partir de 1933, Hitler tomava dinheiro emprestado e o aplicava, e o fez com liberalidade, como Keynes[2] teria recomendado. Parecia ser a coisa mais indicada a fazer, dada a taxa de desemprego reinante. (...)O controle do câmbio então impediu que os apavorados alemães enviassem dinheiro ao exterior, e quem tivesse uma renda crescente deixava de gastar muito na compra de coisas importadas. (...) Em fins da década de 30, havia emprego para todos e preços perfeitamente estabilizados. Isso constituía, no mundo industrializado, um feito inteiramente inédito." John Kenneth Galbraith (1982).

[1] Pesquisador no Grupo de Investigação do Desempenho Espetacular. ECA-USP.

[2] John Maynard Keynes, (1883-1946) economista britânico que defendia a garantia de pleno emprego para a mão-de-obra, graças a uma redistribuição dos lucros, via intervenção do governo, fazendo assim o poder aquisitivo dos consumidores crescer proporcionalmente ao desenvolvimento dos meios de produção.

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