Uma
praça, na definição mais básica, é um
lugar público, acessível a todos os transeuntes,
em
cujo
entorno
visualizam-se moradas, casas comerciais e, atualmente, grandes edifícios. Pode estar
situada nos centros de uma grande metrópole ou de um bairro periférico.
Historicamente,
é um espaço planejado e marcado para a vida pública nas cidades. As praças na
Idade Média e no Renascimento eram instaladas nos centros das áreas de maior
densidade populacional e quase sempre com uma presença religiosa, por exemplo,
a igreja. Com raras exceções, as atividades comerciais determinavam o seu
dia-a-dia, como também, reuniões, encontros, festas e feiras, à imagem das
“ágoras gregas”.
Além
das pessoas comuns, artistas, artesãos, políticos, entre outros, faziam parte do
cotidiano deste “equipamento urbano”, desde sempre, mais popular de uma cidade.
“Civitas”,
“Cité” ou “Urbs” são os termos estudados por Jacques Le Goff (Le Goff 1988)
para analisar a origem das cidades ocidentais e verificar as semelhanças entre
as contemporâneas e as medievais.
As
cidades, originalmente, caracterizaram-se por
servir de locais de troca de artigos agrícolas,
artesanatos e também do poder político. Assim, as cidades tornaram-se centros
urbanos e espaços privilegiados para diferentes grupos sociais, como também,
para inúmeras instituições públicas e políticas que
se
formavam
à
medida que
elas cresciam demográfica e estruturalmente.
A
praça enquanto espaço público tornou-se essencial e presente em qualquer cidade
européia desde a Alta Idade Média, pois nela eram inicialmente concretizadas as
relações sociais entre indivíduos de diferentes grupos e regiões.
Caracterizava-se, assim, a origem de uma sociabilidade marcadamente urbana.
Se
as cidades têm as funções de troca de mercadorias, de produção de informação,
de desenvolvimento cultural e, acima de tudo, de centralização do poder (Le
Goff 1988), a praça é o espaço que possibilitará a realização destes papéis
sociais.
“...
a língua da cidade vai trazer dois tipos de inovação muito importante. De um
lado, a linguagem dos artesãos, a linguagem dos mercadores, e, de outro, a
linguagem sobre a qual Bakhtin insistiu, a da praça pública”
(Le Goff 1988: 60).
A
partir do séc. XVII, as cidades européias, essencialmente Londres e Paris,
começaram a passar por um longo período de reestruturação em seus desenhos
urbanos em função do amadurecimento do novo viver e pensar a sociedade, do
crescente fluxo migratório do campo para a cidade, dos espaços vazios não
construídos e necessários para abrigar os novos moradores, da arquitetura que
privilegiou a beleza estética e o próprio desenvolvimento econômico que
culminaria mais tarde na Revolução Industrial. Assim, a idéia medieval e
renascentista de praça enquanto um espaço de concentração de pessoas e
atividades comerciais e artísticas é contrariada.
“As
grandes places urbanas não eram feitas para concentrarem todo tipo de atividade
das ruas circundantes; a rua não deveria ser um pórtico para a vida da praça. (...)
a praça deveria ser um monumento a si mesma, com atividades restritas
acontecendo em seu meio, atividades constituídas principalmente de passagem e
de transporte”
(Sennettt 1988: 75).
A
praça deixou assim de ocupar o centro da cidade, mesmo porque com o crescimento
urbano a própria cidade perdeu um centro exclusivo para ganhar inúmeros outros.
À praça foi
destinado um sentimento idílico. Os ingleses, por exemplo, tentaram “preservar
as impressões do campo” (Sennett 1988), tornando-as arborizadas e
floridas,
assemelhando-se mais com um jardim.
Já
os parisienses passaram a freqüentar cafés, teatros e grandes parques para
suprir a ausência das praças públicas nos moldes renascentistas.
À
luz de Baudelaire (1821-1867), “a forma
de uma cidade muda mais depressa, lamentavelmente, que o coração de um mortal”(Le
Goff 1988: 143).
Inúmeras
praças acabaram sendo substituídas por parques, verdadeiros pulmões verdes das
futuras metrópoles, mas estes não assimilaram as suas antigas funções sociais.
São as ruas medievais, velhas, estreitas, assim como as novas, largas e
modernas que, apesar do papel utilitário, acolhem os acontecimentos humanos
antes só vistos naquele espaço público.
A
rua passou a funcionar não só como uma artéria de meios de locomoção e de passagem
de pedestres, mas como um ente urbano capaz de animar o anonimato e a
impessoalidade destes fluxos.
Durante
o século XIX, as reformas urbanas empreendidas nas cidades européias, por
exemplo, Viena, tentaram preservar o compromisso com a estética barroca.
Entretanto, os arquitetos inverteram o sentido quando desenharam os edifícios
ao longo de um plano horizontal. Desta forma, foram criadas as largas avenidas.
Apesar
do espírito “frio” das cidades planejadas entre as paredes dos escritórios em
oposição “... as formas livres de
organização antiga e medieval do espaço urbano: ruas e praças irregulares, que
não surgiram na prancheta, mas in natura” (Schorske 1988: 80), estes novos
projetos de urbanidade não foram suficientes para matar a sociabilidade desenvolvida
nos espaços públicos, seja, a praça, a rua ou o parque.
Segundo
Argan, há uma forte oposição entre a cidade ideal, o modelo perfeito, clássico
e artístico, e a cidade real que reflete as dificuldades e contradições do
mundo inseridas num processo histórico que determina a sua forma jamais acabada
(Argan 1995). Neste sentido, a cidade real nunca corresponderá aos modelos
ideais.
Baudelaire
na França, Poe na Inglaterra e João do Rio no Brasil, cada um em seu tempo,
saborearam a rua como jamais outros revelaram.
A
rua para eles significou muito mais do que um lugar de passagem. Ela estava lá
para ser vivenciada, observada, experimentada e amada.
Baudelaire
declara “ódio ao domicílio” e “paixão às viagens pelas ruas parisienses”. A rua
representa a liberdade em oposição ao enclausuramento. O autor acaba
experimentando a solidão do mundo moderno. (Baudelaire s/d).
Poe,
a seu modo, observou de perto e de longe diferentes transeuntes pinçados em
meio
à
multidão, segundo os trajes, os semblantes e as expressões fisionômicas
(Poe 1986). Chegou a seguir vários deles desde o centro até a periferia
londrina movido por uma curiosidade obsessiva em determinar os trajetos
realizados por estes cidadãos comuns.
“O
estranho se deteve e, por um momento, pareceu imerso em reflexões; depois, com
evidentes sinais de agitação, seguiu em rápidas passadas um itinerário que nos
levou aos limites da cidade, para regiões muito diversas daquelas que havíamos
até então atravessado. Era o mais esquálido bairro de Londres; nele tudo exibia
a marca da mais deplorável das pobrezas e do mais desesperado dos crimes” (Poe 1986: 138).
Para
o brasileiro João do Rio, “... a rua é um
fator de vida das cidades, a rua tem alma!” (Rio 1997: 47). E esta alma é
reveladora por todos aqueles que direta ou indiretamente participam e constróem
a visualidade, as vezes, em cores, outras, em preto e branco, do asfalto.
Foram
ciganos, negociantes ambulantes, cocheiros, carregadores, jardineiros,
prostitutas, tatuadores, pedintes, religiosos, loucos, mercadores de livros,
pintores, operários, jovens, entre muitos outros, que através dos seus sons e
cheiros singulares despertaram interesses nestes escritores que “perambularam e
vagabundearam com inteligência” (Rio 1997) por diferentes ruas das suas cidades.
Entre
ruas, becos e vielas, estes flâneurs
exercitaram a arte de flanar.
“Flanar
é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da
observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à
noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à
esquina, seguir com os garotos do lutador do Cassino vestido de turco, gozar
nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas” (Rio 1997: 50).
Nada
impediu estes flâneurs de observarem o movimento social das ruas. Nem mesmo a
iluminação, artificial ou natural, que segundo Benjamin (Benjamin 1991)
interfere no espírito das pessoas e também na apropriação que fazem da cidade.
Poe
frisa que conforme o dia avança a luminosidade é outra (1986). Por tal motivo a
iluminação, tão esperada e desejada pela população urbana, acaba produzindo um
sentimento de segurança. Até o meio do século XIX, a noite era realmente
escura.
Para
Benjamin, a flânerie só foi relevante
em Paris, porque as reformas urbanas de G. E. Haussman, prefeito da cidade, a
partir de 1859, com o alargamento das ruas que as
transformou em grandes
avenidas, preservou, de certo modo, intactas as passagens.
“A
passagem ocupa uma posição intermediária entre a rua e o interior de uma residência.
(...) A rua se torna moradia para o flâneur, que está tão em casa entre as
fachadas das casas quanto o burguês entre as suas quatro paredes” (Benjamin 1991: 67).
Baudelaire
com certo olhar alegórico cultuou a solidão em meio
à
multidão encontrada nas
esquinas de Paris por meio das passagens que o afastava das ruas movimentadas.
Quando estas
sucumbiram
ante
a
velocidade,
ao ritmo acelerado dos meios
de locomoção, a flânerie encontrou a
morte.
“...
aqui na praça você sabe muito bem com quem pode falar, caso contrário está
perdido...”
(Frequentador da República 1996)
Se
o “viajante antigo” - nautas, corsários, desenhistas, estudiosos, necessitava
cruzar, por exemplo, os oceanos para encontrar o “outro”, o diferente, o
exótico, o “viajante moderno” não
precisa ir muito longe e nem sair da sua própria cidade (Rouanet 1993). É com
este espírito comum a ambos - o
estranhamento
-
que a cidade torna-se o local de
observação e exploração.
As
cidades modernas caracterizam-se, essencialmente, pelo grande fluxo e
rotatividade de pessoas das mais diversas origens que circulam por seus espaços
onde manifestam as suas culturas. O espaço público é por excelência o lugar da
manifestação da diversidade cultural.
Daí
estas
cidades
serem
multiculturais
e
em
muitos
casos
cosmopolitas,
pois,
entre
outras
particularidades,
ouvem-se
os
sons
de
diferentes
línguas.
A
diversidade cultural é uma característica singular somente encontrada nas
metrópoles. Assim, as cidades desde sempre funcionaram como
ímãs, não só o
desenvolvimento econômico e industrial foi e é capaz de determinar este
aspecto, mas, principalmente, a possibilidade do diferente, do acaso, do
imprevisto, da surpresa tornam-se fatores proeminentes ao deslocamento humano.
Contudo,
contraditoriamente, a cidade ao mesmo
tempo que exerce certo poder de atração, também repele. O homem urbano passa a
viver sob uma forma antagônica: a cidade desperta curiosidade, como também a
sensação de uma possível ameaça, contrariamente, fascínio e
medo convivem
simultaneamente.
“...
cidade grande, as pessoas que passam pela ruas não se reconhecem. Quando se
vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam
ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas
ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se
desviam, procuram outros olhares, não se fixam” (Calvino 1991: 51).
Não
só o homem torna-se vítima, mas a própria cidade sofre com este antagonismo,
uma vez que em função de uma ordem e de um progresso planejados tecnológica e
politicamente, o espaço público possível e cultural esvazia-se. As pessoas
acabam não se relacionando, o isolamento na multidão, à luz de Baudelaire. No
século XX, o sentimento de medo
instala-se entre as diferentes sociedades.
Neste
fim do século XX, a rua ganha um outro sentido: o perigo. As relações sociais,
portanto, entre humanos são desenvolvidas em lugares criados para este fim. Sob
luzes artificiais e um forte esquema de segurança, o dia passa e o “transeunte”
transformado em “cliente” não percebe a noite chegar. Os “shoppings centers”
substituem as praças públicas por praças de alimentação, os coretos por
quiosques de grifes badaladas, as ruas por alamedas e passagens com vitrines
estrategicamente colocadas para impactar o futuro consumidor.
Todas
as relações sociais são previsíveis nestes templos de consumo construídos em
vários pontos das cidades. Cada um deles é freqüentado por uma classe social
distinta. As diferenças culturais só são possíveis desde que expostas como
artigos colocados à venda. O mercantilismo - a compra e venda - acaba por
pontuar as relações humanas e,
conseqüentemente, a diversidade cultural.
“A
legibilidade de uma cidade se expressa por sua cartografia, por sua organização
espacial, pelos lugares e pelos não-lugares por onde circulam seus habitantes” (Rezende 1994: 67).
As
cidades e seus espaços são organizados segundo uma “ordem social” imposta
politicamente. Contudo, há gaps que
não seguem estas imposições políticas e assim são
moldados segundo os seus
próprios habitantes que formam grupos nos bairros, no trabalho, na escola,
definidos a partir das identidades culturais quase sempre estruturadas social e
economicamente.
Os
estudiosos da vida social com instrumentos de análises construídos pelas
ciências humanas e suas áreas específicas, por exemplo, a antropologia,
procuram por estes “pedaços” (Magnani 1993)[1]
nas cidades capazes de revelar tipos de sociabilidade comuns a seus
participantes e desconhecidos aos olhares dos estrangeiros, como escreveu
Claude Olievenstein.
Qualquer
lugar público, genericamente, é demarcado por diversos grupos sociais. Com seus
comportamentos e códigos que estruturam linguagens culturais transformam estes
lugares em espaços. Esses espaços, ainda públicos, constituem uma quase
identidade criada
dia
a
dia por seus freqüentadores/usuários. Assim, o lugar
enquanto “coisa física”, um ente que faz parte da arquitetura urbana oficial,
transforma-se num espaço social cuja existência vincula-se, exclusivamente, às
ações humanas e
às suas narrativas que o tornam vivo.
“...
o espaço é um lugar praticado. Assim a rua geometricamente definida por um
urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres”
(Certeau 1994: 202).
Cruzando,
caminhando ou contornando um lugar público, os cidadãos de uma cidade qualquer
acabam “escrevendo” um texto urbano singular segundo as suas próprias histórias
de vida e que fazem ou farão parte de
um espaço plural marcado por individualidades, subjetividades e, também, pelo
coletivo.
Assim,
a construção do cotidiano nas cidades está marcada por diferentes linguagens
simbólicas que são expressas por meio de códigos, quando comuns conferem uma
identidade e,
conseqüentemente, o estabelecimento de uma rede social, a
sociabilidade, entre os pares. Este fato acaba definindo um pedaço circunscrito num espaço urbano
também específico.
Segundo
Magnani, o que difere o pedaço do bairro do da cidade é
que
“... os freqüentadores
não necessariamente se conhecem - ao menos não por intermédio de vínculos
construídos no dia-a-dia do bairro - mas sim se reconhecem enquanto portadores
dos mesmos símbolos, que remetem a gostos, orientações, valores, hábitos de
consumo, modos de vida semelhantes” (Magnani 1993: 50).
Seguindo
o pensamento do antropólogo, um espaço específico, por exemplo, a Praça da
República em São Paulo, torna-se um possível “território” social. Entretanto,
este lugar já reconhecido por espaço público pode ser demarcado por vários
grupos com suas distintas linguagens simbólicas, daí um mesmo espaço poder
abrigar inúmeros pedaços.
Aqui
na nossa pesquisa, a Praça da República é um espaço público de referência aos
seus freqüentadores/usuários. É uma referência enquanto um ente urbano capaz de
orientar o cidadão comum nos inúmeros trajetos possíveis na área central e na
direção da periferia. Apesar de se constituir como um lugar de passagem para a
maioria dos pedestres, é apropriada por vários grupos sociais que
lhe
confere
vida e identidade.
À
luz de Sergio Paulo Rouanet, “viajar é preciso” (Rouanet 1993) daí propomos
aqui uma viagem/inserção ao centro da cidade e à Praça da República,
especialmente, espaço público “marginal”, através de uma “bricolagem” de
histórias de vidas narradas e imagens fotográficas captadas ao longo da
pesquisa.
[1] A categoria “pedaço” foi elaborada pelo antropólogo José Guilherme Cantor Magnani em suas pesquisas e estudos em sociedades complexas para descrever e explicar um tipo particular de relações sociais seja nos bairros da periferia e/ou centros urbanos de uma cidade. Ver em: Magnani, José G.C. Quando o Campo é a Cidade: Fazendo Antropologia na Metrópole, in: Magnani, José (org). Na Metrópole. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Fapesp, 1996.