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O voyeur e as brechas do real - Análise de uma fotografia de Brassaï - I André Luiz da Conceição Louzas |
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Paris foi o grande tema das imagens de Brassaï (1899-1984). Sintonizado com a produção das vanguardas européias do início do século 20, o fotógrafo de origem húngara revelou a cidade nos mais variados aspectos, dos desenhos anônimos rabiscados em paredes às grandes personalidades da vida cultural da capital francesa.
Embora não fosse oficialmente alinhado ao surrealismo, Brassaï manteve uma colaboração intensa com os integrantes do movimento, expondo vários de seus trabalhos na revista Minotaure, editada pelo grupo na década de 30, além de incluir suas imagens em algumas das principais obras do escritor-agitador André Breton, como Nadja e L’amour fou (1).
Uma das principais obsessões do fotógrafo é a noite parisiense, apresentada em obras como Paris after dark (2), com imagens realizadas no início dos anos 30. Ao comentar esse trabalho, Graham Clarke assinala a capacidade de Brassaï perceber a metrópole francesa como um “território de ligações ilícitas e prazeres privados”. “Tudo está em fluxo, um espaço psicológico da imaginação que tem pouco a ver com a arquitetura da cidade” (3).
Uma das mais conhecidas imagens desse livro mostra um grupo de vedetes que espera para se apresentar no palco do teatro Folies Bergère. Outras fotos de Paris after dark expõem cenas de espetáculos noturnos parisienses, mas, por sua complexidade, essa foto representa uma síntese da visão peculiar e inovadora de Brassaï.
<< Em vez de obedecer à dinâmica horizontal/vertical da maioria das fotos, essa imagem se caracteriza por uma estruturação oblíqua, marcada por um eixo formado pelo espaço onde estão as artistas. Um dos elementos que caracterizam esse eixo é a linha escura – provavelmente um vão entre o piso do palco e a moldura do enorme espelho – que sobe do lado esquerdo inferior para o canto direito superior da foto, imprimindo à imagem uma sensação de ascensão. A linha escura divide a imagem em dois blocos, que formam duas figuras geométricas de estrutura muito semelhante (quadriláteros irregulares), embora estejam em posições invertidas. Esse eixo oblíquo é também reforçado pela distribuição das vedetes e de seus reflexos no espelho.
O eixo é cortado por duas linhas quase paralelas – provavelmente, duas cordas que sustentam a estrutura do palco – que descem da esquerda para a direita e, por sua vez, dividem a imagem em três blocos, dos quais o bloco do terço superior e o do terço inferior formam quadriláteros irregulares de caracteríticas muito semelhantes entre si e também em relação aos quadriláteros formados pelo corte da imagem feito pelo eixo oblíquo. >>
Essa hegemonia estrutural da grande reta ascendente e das duas paralelas descendentes, porém, é relativizada por outras linhas, como as formadas pelas paredes do espelho, que correm em direções peculiares e formam triangulações visuais com as cordas e o grande eixo. Da mesma forma, as pinturas do cenário, as figuras das mulheres e seus reflexos no espelho estabelecem uma enorme dinâmica visual, que “questiona” a lógica geométrica presente nessa foto.
NOTAS
(1) Sobre a presença da fotografia nas revistas surrealistas, ver o ensaio de Dawn Ades, “La photographie et le texte surréaliste”, publicado no livro Explosante fixe. Paris, Centre Georges Pompidou/Hazan, 1985.
(2) BRASSAÏ. Paris after dark. London: Thames and Hudson, 1987.
(3) CLARKE, Graham. The Photograph. Oxford: Oxford University Press, 1997, pág. 92.
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