Agudás – os “brasileiros” do Benin

Milton Guran*

contece que são baianos.” Assim, Gilberto Freyre descreveu os “brasileiros” do golfo do Benim, na costa ocidental da África.[1] De fato, essa região da África constitui um exemplo único de implantação de uma cultura brasileira – no caso, baiana - fora de nossas fronteiras, pois não se trata de uma colônia de brasileiros, como acontece em muitos países, mas de todo um grupo social que se reconhece como brasileiro, e utiliza essa condição para se articular com o conjunto da sociedade.[2] 

Os “brasileiros” do Benim, Togo e Nigéria, também conhecidos como agudás, nas línguas locais, são descendentes dos antigos escravos do Brasil que retornaram à África no século passado e dos comerciantes baianos lá estabelecidos nos séculos XVIII e XIX. Possuem nomes de família como Souza, Silva, Almeida, entre outros, festejam N. S. do Bonfim, dançam a “burrinha” (uma forma arcaica do bumba-meu-boi), fazem desfiles de Carnaval e se reúnem freqüentemente em torno de uma feijoadá ou de um kousidou. Ainda hoje é comum os agudás mais velhos se cumprimentarem com um sonoro “Bom dia, como passou?” “Bem, ‘brigado’” é a resposta. 

Foram esses “brasileiros” que implantaram a cultura ocidental na região, fizeram as primeiras construções em alvenaria, incluindo a primeira igreja católica, e chegaram mesmo a impor o português como a primeira língua ocidental de uso corrente naquela costa africana. A tal ponto foram culturalmente importantes, que as primeiras escolas criadas pela missão católica francesa, em meados do século XIX, ensinavam em português. 

Excluídos da sociedade africana ao serem vendidos como escravos, esses africanos, a partir de sua experiência de vida na própria escravatura, retornaram como hábeis artesãos e instruídos comerciantes para a mesma sociedade que os havia penalizado. O processo de reinserção social desses retornados na sociedade que os havia excluído, em que antigos escravos se únem aos negreiros que os haviam vendido para,  juntos, constituírem a classe social que domina a economia de toda uma região, aparece como um dos mais peculiares fenômenos de “engenharia social” da diáspora africana.

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* Doutor em Antropologia pela École des Hautes Études em Sciences Sociales (França), mestre em Comunicação Social pela UnB (onde lecionou) e fotógrafo, é atualmente professor no Curso de Comunicação Social da Universidade Gama Filho (RJ) e pesquisador associado do Centro de Estudos Afro-asiáticos da Universidade Cândido Mendes (RJ). É autor de Linguagem fotográfica e informação (1ª ed., 1992; 2ª ed., 1999), entre outros títulos.

[1] Gilberto Freyre, “Acontece que são baianos”, in: Bahia e baianos, Salvador: Fundação de Artes, 1990 (1ª ed. In: Problemas brasileiros de antropologia, Rio de Janeiro: José Olympio, 1962).

[2] Sobre o processo de construção da identidade “brasileira” nesta região da África, ver: Milton Guran, Agudás – os “brasileiros” do Benin, Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Ed. Gama Filho, 2000.