João, por Gabriel Pereira

Minha relação com João sempre foi complicada. Éramos dois de nós. Nunca conseguimos entender um ao outro verdadeiramente, embora fôssemos tão parecidos. Após perdê-lo, no entanto, sofri. Por que mil fios me ligavam a ele e quando estes foram amputados foi como se uma intervenção cirúrgica tivesse sido operada. Quando perdi João vivenciei o colapso do universo. É que confundíamos os nossos íntimos, nossas subjetividades. Mas depois comecei a me dar conta de que tais dores não eram as de operação cirúrgica, mas de parto. Dei-me conta de que os fios cortados tinham me alimentado e que estava sendo projetado para uma nova consciência. Carregava, agora, João dentro de mim: éramos inseparáveis. Fui tomado enfim por uma vertigem, misto de liberdade e aprisionamento. Surgiu de tais sentimentos a minha necessidade de organizar esta exposição, de clarear estas memórias que aprisionei por tanto tempo.


Na primeira parte, encontram-se as fotografias que tirei de João, enquanto vivo e buscávamos narcisicamente representar a nossa morte. Na segunda parte, pode-se ver as fotografias que João, fanático por sua imagem, tirou do seu próprio suicídio utilizando-se de uma câmera com timer. Das mais de 400 fotos, 20 foram selecionadas e expostas. Ao lado destas, encontram-se algumas notícias sobre a morte de João que eu coletei. Por fim, na pequena vitrine, pode-se ver algumas fotos de infância que coloco talvez somente como um pequeno capricho. Gostaria de agradecer pela ajuda a todos os colegas e especialmente ao Prof. Fernando de Tacca, que me incentivaram a quebrar com a caixa-preta na qual mantinha estas fotografias e me ajudaram na preparação desta exposição. Como diria Vilém Flusser, "Espaço, aqui estão as minhas dores.". Gabriel Pereira


Por que denominamos a fotografia de “fotoggrafia”? Por William Henry Fox Talbot não saber grego ou, ao que parecece, não saber o suficiente. Pelo menos é o que aventura Vilém Flusser sobre o notável cientista britânico que cunhou o nome do novo procedimento. O prefixo foto- deriva de fos, que significa luz, porém teria sido mais correto soletrar “fàos”. Dessa forma, estaríamos mais próximos de faiein e fainein, termos que deveriam ser traduzidos como “aparecer” e não como “brilhar”. (...) “Fotografia”, portanto, significa literalmente “escrita aparente”. O que nos leva, por extensão, a uma “escrita das aparências”. Joan Fontcuberta


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