PAÑUELOS
Fernando de Tacca
Depois da vitória dos movimentos populares em dezembro de 2001, na Argentina, eles tornaram-se mais organizados e ocuparam as ruas. A Praça de Maio é o local onde afluem todas as manifestações, uma espécie de ponto de encontro. A Praça de Maio é hoje território livre da manifestação política e ocupada constantemente. Toni Negri, no livro Multidão, dedica uma atenção especial sobre a Argentina, tendo como ponto de partida a revolta de dezembro de 2001. Nela, muitos trabalhadores assumiram as próprias fábricas e os debates políticos criaram uma rede de assembléias populares de bairros. Para Negri, os ativistas de todo o mundo olham para a Argentina como uma fonte de inovação e também de inspiração, e para ele a Argentina é “... um dos laboratórios da sociedade pós-moderna”.
Todas as quintas-feiras lá estão elas, infalivelmente há 30 anos, sempre às 15:30 horas. As madres juntam-se em fila, ombro a ombro, e dão três voltas na Praça de Maio em frente da Casa Rosada. O acontecimento político da dor pelo desaparecimento de seus filhos, primeira manifestação pública contra a ditadura militar, continua como reivindicação da vida e dentro dos novos momentos da política. Todas se cobrem com um lenço branco, os pañuelos, como são chamados os panos brancos que cobrem as cabeças das “Madres de
A história das madres se estendeu para as abuelas e ambas são lutas pela questão da identidade, pela não aceitação de um passado opressor. Histórias que marcam a história da Argentina até os dias de hoje sendo constante assunto de mídia, principalmente quando a Associação “Abuelas de Plaza de Mayo” localiza uma criança filha de pais desaparecidos ou mortos pela ditadura e consegue o reconhecimento legal dessas crianças adotadas geralmente por militares Ao localizar as crianças, hoje adultos, começa um longo e duro trabalho de reconhecimento de uma identidade perdida. São histórias de busca pessoal e luta política diária pelo direito à identidade. Os pañuelos são marcas indiciais desse movimento que vive de uma lembrança memorial longínqua das fraldas de seus bebês bordadas à mão e se tornaram um símbolo contemporâneo de luta por justiça social, liberdade e pela vida. Encontramos esse símbolo em muitos espaços da cidade, cristalizado em pedras portuguesas no próprio chão da praça, em grafittes nos muros, em cartazes, e sempre nas cabeças das madres como identidade de um elo perdido de suas vidas. Os pañuelos vivem e permeiam o cotidiano como marcas doloridas de busca da verdade e símbolo de uma trágica identidade.
Pañuelos
Resumo
Os pañuelos são marcas indiciais da história das Mães da Praça de Maio, movimento que vive de uma lembrança memorial e se tornaram um símbolo contemporâneo de luta por justiça social, liberdade e pela vida. Encontramos esse símbolo em muitos espaços da cidade, cristalizado em pedras portuguesas no próprio chão da praça, em grafites nos muros, em cartazes, e sempre nas cabeças das madres como identidade de um elo perdido de suas vidas. Os pañuelos vivem e permeiam o cotidiano como marcas doloridas de busca da verdade e símbolo de uma trágica identidade social.
Diários Portenhos
O ensaio “Pañuelos” faz parte de minha pesquisa sobre manifestações culturais na cidade de Buenos Aires quando assumi a Cátedra de Estudos Brasileiros na Universidade de Buenos Aires, por indicação da Universidade Estadual de Campinas. Durante minha estadia foram publicados cinco artigos no Jornal da Unicamp, acompanhados por ensaios fotográficos. Um dos artigos foi publicado na Revista Brasileira de Sociologia da Emoção (RBSE, v.4, n.10, João Pessoa, GREM, 2005), e um portfólio escolhido foi publicado no site da ABA -Fotoetnografia.
A exposição Diários Portenhos foi apresentada no FOTORIO (junho/2005), e na Galeria de Artes da Unicamp (setembro/2005) e Espaço Cultural Casa do Lago (Unicamp, abril/2006). Diários Portenhos e os artigos/ensaios podem ser visualizados no seguinte endereço: http://www.studium.iar.unicamp.br/19/05.html
Fernando de Tacca é fotógrafo, doutor