| Os bonecos nascem, de brincadeira
A gênese dos bonecos do Elias é reveladora sobre a função que eles acabariam desempenhando. Ele mesmo conta que fez o primeiro boneco, no final da década de 1970, a pedido de uma menina, Andréia, que sabia da habilidade do artista em confeccionar bonecos - desde os anos 60 Elias é o responsável pela fabricação do "Judas" malhado na Semana Santa.
A gestação dos bonecos como um elemento lúdico está mais do que clara. Fabricante ocasional de bonecos de barro na juventude, em função da habilidade adquirida na olaria, Elias evoluiu para a produção dos bonecos de madeira e pano, inicialmente "de brincadeira".
Brincadeira que é, de fato, uma legítima manifestação crítica em relação a alguns dos postulados mais caros da sociedade industrial, fundada no racionalismo e no produtivismo. Os velhos, os marginais, os loucos, as crianças - todos, enfim, que não produzem, são rotulados de disfuncionais pela sociedade tecnoindustrial. O jogo pelo jogo, a arte pela arte, parecem condenados como algo improdutivo pela lógica da sociedade capitalista tecnoindustrial, questão que tem gerado muita controvérsia entre os críticos de arte e demais teóricos do assunto.
Por sugestão de uma criança, o ex-metalúrgico Elias faz um primeiro boneco "de brincadeira", materializando a dimensão do lúdico que repudia o funcionalismo produtivista típico da sociedade industrial. Elias Rocha materializa a denúncia da alienação e da perda da sensibilidade com seus bonecos fincados nas margens do Piracicaba, como uma denúncia da poluição das águas do rio. Com seus bonecos, ele ressuscita "a nostalgia do reino".
Elias afirma: "Tenho saudades do sossego que era a rua do Porto, onde as pessoas podiam deixar a casa aberta que ninguém roubava, era um lugar tranqüilo, um paraíso..."
Com essa definição, ele exprime a percepção das transformações sociais que sacudiram o seu reino, com a transformação da Rua do Porto não somente no espaço privilegiado para o viver comunitário. Piracicaba em geral, e a Rua do Porto não poderia ficar de fora, sentiu diretamente os efeitos da urbanização acelerada, do crescimento populacional e da industrialização desordenada, como fenômenos típicos do século 20.
A arte dos bonecos também é a recuperação da nostalgia do rio limpo, onde se nadava, pescava e bebia água à vontade. Elias tenta resgatar a ligação entre o ser humano e o seu meio ambiente, mobilizando a população contra a degradação do rio Piracicaba.
No caso do rio Piracicaba, o sonho coletivo é pela libertação da poluição, manifestação concreta de sua escravização à lógica da sociedade industrial-tecnológica. Realmente é um sonho que povoa a memória e o imaginário coletivo, simbolizado na arte de Elias, entre outras formas, pela doação de roupas, por uma parte da comunidade, para que os bonecos possam ser "vestidos".
E os bonecos estão em outro momento fundamental para a religiosidade popular, o Natal que marca a esperança na renovação, como a arte de Elias reflete a esperança na recuperação do rio Piracicaba. Com seus bonecos, o artista passou a montar um dos mais curiosos presépios da cidade, nas margens do rio e no espaço da Casa do Povoador, outro marco histórico importante para Piracicaba.
A representação e a significação dos bonecos confeccionados por este artesão tornaram-se uma linguagem expressiva de resistência, ao mesmo tempo, antropológica e artística, com características lúdicas, de dimensões ambientais, incorporadas à tradição e ao patrimônio histórico, turístico, artístico e cultural de Piracicaba. São elementos significativos deste universo lúdico de "elaboração" de um novo imaginário social.
A partir da década de 90, os bonecos tornaram-se fonte de inspiração para vários artistas piracicabanos e suas diferentes manifestações artísticas como: a fotografia, o vídeo, as artes plásticas, a literatura, a dança, o teatro, a poesia e a música.
Registro alguns fatos significativos que ocorreram, recentemente, na vida de Elias: o primeiro, uma homenagem prestada pela Irmandade do Divino Espírito Santo, da qual Elias é membro ativo há mais de 50 anos, escolhendo-o como o Festeiro do novo milênio da Festa do Divino. O segundo, partiu da Prefeitura Municipal de Piracicaba, com a publicação de um livro contendo a tese de Dissertação de Mestrado "Os Bonecos do Elias - A participação desses elementos de folkmídia na publicidade e propaganda institucional de Piracicaba", do publicitário Maurício Bueloni. O terceiro, o lançamento do vídeo de Nordahl C. Neptune "Os Bonecos do Elias dos Bonecos", que resultou tanto para o autor como para o artista numa "Moção de Aplausos" protocolada pelo vereador Ari Pedroso Júnior, na Câmara de Vereadores, e, finalmente, o prêmio "Destaque Ambiental", na categoria cidadão preocupado com o meio ambiente, outorgado pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba (Comdema).
O resultado final dessa pesquisa constará de uma dissertação, acrescida de fotografias e acompanhada por um vídeo sobre o artista e sua obra, na visão de seus conterrâneos.
Encontra-se em fase de desenvolvimento um site na Internet, trazendo os trabalhos acadêmicos publicados sobre o artista, bem como outros temas relacionados à pesquisa - Cultura Popular e Multimeios.
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