Carnaval, etnografia e fotografia: Dimensões rituais na obra de Arthur Omar

 Por João Martinho de Mendonça

Apresentação

 O presente texto faz parte de um ensaio desenvolvido para o curso "Fotografia e Ciências Humanas", ministrado no Departamento de Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp pelo Prof. Dr. Fernando Cury de Tacca (1o sem/2001). Nesse período, pude utilizar as idéias de David Tomas sobre o "ritual fotográfico" (junto à obra fundamental de Vilém Flusser sobre a fotografia) para pensar nas abordagens fotográficas de Arthur Omar (junto às formulações textuais de Roberto Da Matta sobre o Carnaval).

 

Antropologia da face gloriosa[1]
 

Dois propósitos servirão de fios condutores nesta incursão pela obra homônima de Arthur Omar:  

  1. Apresentar sumariamente o conteúdo do livro mostrando como o trabalho fotográfico aí exposto relaciona-se ao sentido ritualístico[2] da fotografia, da etnografia e do carnaval brasileiro.
  2. Enfocar algumas proposições escritas pelo autor oferecendo como contraponto textos de um antropólogo do carnaval e de um filósofo da fotografia (Roberto da Matta e Vilém Flusser).

 Não se propõe uma aproximação estética, o que já está posto no texto de Ivana Bentes "Arthur Omar: o êxtase da imagem" (parte integrante do livro em pauta). Essa autora procura, também, tecer conexões e reflexões acerca de vários outros trabalhos do autor.

Trata-se aqui de pensar no sentido propriamente etnográfico e ritualístico das fotografias tomadas no carnaval. Os textos de Arthur Omar são tidos como parâmetros que permitem essa aproximação. São eles "Teatro de operações: ritos em torno do zero" (conjunto de textos curtos) e "Foto-gnose" (pequeno artigo). Aparecem antes da seqüência das "faces gloriosas", constituída por 161 fotografias em grande formato (uma por página) acompanhadas de um pequeno título abaixo da imagem (os títulos e os textos encontram-se também vertidos para o inglês). A rigor, apenas 70 fotografias correspondem plenamente ao sentido da abordagem proposta. São aquelas nas quais o foco e os contornos não oferecem muita nitidez, gerando imagens bastante diferenciadas dos retratos comuns.

Na "apresentação"[3] encontram-se sintetizadas as principais idéias norteadoras do trabalho que aparecem mais desenvolvidas nos textos do autor acima mencionados. Trata-se de definir o que são as faces gloriosas, qual o projeto (e os meios) para a exploração das mesmas, qual o método de abordagem empregado e quais os resultados alcançados:

"A antropologia da face gloriosa é um projeto de exploração exaustiva do rosto humano, em seu transe carnavalesco. (...) São faces que vivem atitudes de passagem, correspondendo a sentimentos que estão acima do normal, evocações de períodos míticos e selvagens. (...)

A antropologia da face gloriosa procura estudar ‘cientificamente’ estes sentimentos, à maneira de uma antropologia debruçada sobre o bárbaro, o difuso, o transversal da nossa realidade de brasileiros. Mas como são gloriosos (os sentimentos), é necessária uma ciência ligeiramente diferente do normal para abordá-los. Daí a fotografia. (...)"

O gesto básico da nossa pesquisa é retirar cada face do seu contexto original, e deixá-la viver por si mesma, com sua carga de ambigüidade e mistério. (...) Nesta antropologia, quanto maior é o trabalho técnico de dilaceração dos contrastes, explosão da granulação, recorte e superposição das camadas, reenquadramento sucessivo através de recopiagens e aberração de espaço circundante, tanto mais arcaica é a música que se faz ouvir através do enigma visual resultante."

 Identificar "faces gloriosas" significa, para Arthur Omar, entrar "em fase" com elas tornando-se (o fotógrafo) também glorioso:

"(...) uma face gloriosa, a reagir por sim-patia ultra-veloz, vibrando no mesmo registro que o seu objeto. O ato fotográfico como gnose. Uma foto-gnose."

O resultado é um mergulho fotográfico numa multidão de rostos em plena manifestação carnavalesca.

"(....) Na revelação de cada foto, uma larga margem de Brasil se revela e se cristaliza definitivamente. Dando-se à contemplação sob a forma de uma face enigmática. (...) O Brasil é a soma das faces gloriosas que ele possa sustentar. (...)". 

Deve-se notar, ainda, que no fim desta apresentação é feita uma menção à Santa Teresa d’Ávila (como especialista em faces gloriosas). Trata-se de pensar a galeria de retratos da "antropologia da face gloriosa" como se fosse uma das moradas da alma (comparada pela santa a um castelo com vários aposentos ou moradas cuja sucessão indica aperfeiçoamento espiritual) onde as imagens fotográficas representariam estados ancestrais perdidos...


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[1] OMAR, Arthur. Antropologia da face gloriosa, São Paulo : Cosac & Naify Edições, 1997. (As demais referências completas dos autores doravante utilizados encontram-se no final.)

[2] O esquema dos rituais aqui utilizado se origina da obra de Arnold Van Gennep, retomada por Roberto da Matta e por David Tomas. Fernando de Tacca adotou o mesmo para abordar o trabalho fotográfico de José Medeiros acerca de um ritual de iniciação no Candomblé (ver Studium 7).

[3] Omar, Arthur. p. 7.