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Divagações

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Renato Salgado de Melo Oliveira
Sheyla Cristina Smanioto Macedo
Luana Pereira Lopes
Fernanda Pestana

Pactos e demônios de um jogo sem regras

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Divulgar ciência é uma profissão de fé, profissão de fato – promessa de fidelidade.[1] Há que se fazer um acordo, um contrato – tão rígido que é impossível não quebrá-lo: quem pode, afinal, garantir que com as ruínas dos fatos se construa um levante de fiéis? Que com ruínas de fatos, pregos, rastros e memórias cansadas se construa algo mais que a cena do tão comum drama da palavra que, infiel, deixa o dado a desejar? Isto é, que se possa transmitir fielmente, mesmo que não se saiba com clareza a quem se deve essa fidelidade; e ainda que se saiba que mesmo as instâncias que chegam como se vindas de um pacto com a verdade, como o fotográfico, têm seu pacto com a cor e com a luz.

Ainda assim, lá está a promessa – pairando sobre os restos como moscas.

A promessa de fidelidade ao fato, afinal de contas, só se faz possível se, mesmo diante das traiçoeiragens da linguagem, fingimos que ela não está ali. Isto é, fingimos que a linguagem não é mais uma problemática potencial e sim algo que já está dado e determinado. Que a linguagem é só o cadáver de um problema morto, enterrando-se em algum manual.  E fingimos quando deixamos que as mensagens galguem sobre as palavras para chegar o mais rápido possível ao significado, como se diante de uma massa imóvel: trabalhando com os clichês, sem questioná-los.

É preciso falar da criação como traçando seu caminho entre impossibilidades [...] A criação se faz em gargalos de estrangulamento [...] Um criador é alguém que cria suas possibilidades e impossibilidades, e ao mesmo tempo cria um possível (DELEUZE, 1992, p. 167).

A promessa de fidelidade ao acontecido, afinal de contas, só se faz possível se não vemos a própria fotografia como acontecimento; se vemos, nela, não as potências diabólicas da criação, mas a mediação do pacto de fidelidade que a faz servir ao propósito do registro. Assim, desse ponto de vista, a fotografia seria mais a morte do acontecido do que o acontecimento; seria, portanto, mais a testemunha, do que uma superfície atravessada por potências de morte.

Entre levar a linguagem e a fotografia ao limite ou ignorá-las como problemática política potencial, muitas opções acontecem. A força de tensioná-las a fim de conhecê-las por seus limites acontece na medida em que esses limites não possuem a convicção de uma linha – não sendo apenas aquilo que define os possíveis, mas uma espécie de acontecimento da impossibilidade. O limite surge, apenas, quando desafiado – ele, de certa forma, é inventado e desbravado na forma de um pensamento-com: irrompe como a arte moderna que, impossível, aconteceria na "surpresa daquilo que é sem ser possível, daquilo que deve começar no extremo, obra do fim do mundo" que encontra seu começo ali onde não mais existe e onde não há condições para a sua existência (BLANCHOT, 2005, p. 156).

O profissionalismo que toma a linguagem como instrumento de trabalho parece desconsiderar a fatal constatação de que o instrumento sofre a obra, mas nunca completamente; o profissionalismo que toma a fotografia como testemunha inequívoca do acontecimento desconsidera que a fotografia acontece; o amador se proporia a pensá-las, a linguagem e a fotografia, com elas, enquanto faz. Se a promessa de fidelidade, esse profissionalismo, deixa a relação tão firme e determinada, então o amador surge não como revés, mas como alguma sorte de borda, o externo de uma aliança. Seus ossos, o extrapolamento sutil das formas instituídas pela força.

A infidelidade, afinal, é comprometida com algo que não a ordem: não se trata de uma facilidade a que se entrega como se a um hobby, mas de uma conquista do que não se permite capturar. Trata-se, talvez, de uma paixão que se contenta hobby, por considerar a sua diminuta importância quase que necessária para a sua potência de criação. Os profissionais investem no contrato: garantia bilateral acerca dos desejos institucionalizados, já o amador a entrega: ação pela irreverência, quase que completo desacato, carta sem remetente. O amador se joga. "É preciso lixar a parede, pois sem um conjunto de impossibilidades não se terá essa linha de fuga, essa saída que constitui a criação, essa potência do falso que constitui a verdade" (DELEUZE, 2000).

Talvez o contrato seja necessário, mas o contrato é um acordo firmado entre sujeitos delimitados, firmes, tendo em vista o cumprimento de uma obrigação; e que sujeito e que firmeza resiste ao amor – ao afecto? E, além disso, a que resiste o amadorismo?, feito todo como resistência à profissionalização (tomada aqui como conceito que se pretende delineando no caminho obtuso deste texto), mas sem a perturbação de um revés.

Profissionais e amadores à mesa, o jogo é o mesmo: imagens, sons e palavras que não se constrangem com as bordas da carta, ou os traços das cores. "NÃO TEMOS REGRAS!" Deliram as cartas, pois há as das cores e das sombras. Seria esse então um movimento de entrega? E se entrega, a quem? Ou o quê? Se tudo é aposta, seria possível um jogo sem dados? Para o profissionalismo, dificilmente, já que esse insiste em algo dado, ao passo que para o amadorismo, talvez, ainda dará.

O contrato é um pacto – o amor, uma traição (os sujeitos não sobrevivem ao amor): o amadorismo, incerta afirmação da diferença. sobe

Notas

[1] Este texto foi elaborado a partir do trabalho "Divulgação científica amadora: pactos e demônios de um jogo sem regras", apresentado no RedPop (Rede de popularização da ciência e da tecnologia na América Latina e no Caribe), realizado na Unicamp em 2011.

Olhe bem com quem anda estabelecendo seus pactos

Na mesa, cartas marcadas por imagens e textos de biotecnologias (notadamente as discursivas) arrematam suas apostas. Nos textos inventados pelo grupo de pesquisa multiTÃO: prolifer-artes sub-vertendo ciências e educações a partir destas cartas, outro e mesmo jogo afirma o sem-regras incapaz de cercear alguma determinação de jogo e o caos que potencialize diferentes relações com as imagens-clichês da biotecnologia. Assim, o jogo se faz nas cartas e nos dizeres, fazendo-se de – fingindo sempre, deixando inquietos; o jogo se mancha nas conversas, nos gestos, nos lances dos jogadores que inventa, nas ocasiões que nós inventamos (experimentações); o jogo se refaz nas fotografias de fotografias de fotografias – no incansável mise-en-abîme.

Queríamos um jogo que suscitasse a percepção de que imagens-palavras-sons não são apenas meios e fins de in(de)formação, mas personagens intensos da divulgação e educação científicas. Imaginamos jogá-lo com professores e alunos e despertar o interesse da escola para os aspectos éticos e estéticos das intervenções das biotecnologias/mídias na vida. Desejávamos um jogo que escapasse às regras já dadas do que é jogar, aprender, ensinar. Que desorganizasse nossas formas de pensar as interações entre escolas, mídias e universidades, que propusesse contágios e contaminações desubstancializantes, que escapasse à política representacional (DIAS et al, 2008, p.3).

Algo nele ficou, das nossas vontades, dos nossos intentos de fazedores-pesquisadores? Algo nele ficou de si? Provavelmente não. Diante dele, perguntamo-nos: quais tipos de acordo suas propostas insinuam, se o fazem? Contratos de ensino ou pactos demoníacos? Para quem o jogador vende sua alma? Um jogo que se propõe sem regras pactua sem cláusulas, constitui um abuso?

Diante de sua superfície, perguntamo-nos: é fotográfica? É lisa, áspera, suave, monstra?

Não conhecemos o vento, não conhecemos o pacto, mas o estrago e o afago que eles fazem; não tentaremos defini-los, pois não cabem em definir, mas percorrê-los pelos incômodos neste artigo-narrativa em que nos propomos explorar a relação jogo/jogador, texto/leitor através do jogo-maquinaria de divulgação científica Bios-tecnos-dados, desenvolvido no contexto do projeto de pesquisa – Escritas, Imagens e Ciências em ritmo de fabulação: o que pode a divulgação científica?(Proc. CNPq n. 478004/2009-5)[2].

Texto em que pretendemos, por um lado, pensar os caminhos do grupo com o jogo – cujo tom parece bambear entre certo fascínio (pela proposta de uma desautorização do jogo pela abolição de regras) e incerta angústia; por outro lado, pretendemos pensar os pactos que esse jogo possibilita/invoca na força de suas propostas textuais e, notadamente, fotográficas.[3]  Trata-se da experiência de pensar com o jogo – de jogar com as traições possíveis na escrita do/com o pensamento – que se faz no tatear desconcertado do museu de intensidades, imagens e sons – jogos, jogadas, jogadores-possíveis – que as cartas constituem.

Explorando a relação jogo/jogador, perguntamo-nos: o jogo também joga? Seu pacto é o de uma entrega, de uma disponibilidade possíveis? Ou é a impossibilidade o que está em jogo? (Trata-se de um contrato branco?) E perguntamos aos textos do grupo, ao jogo, às jogadas, aos jogadores-possíveis – que embolados num mesmo baralho entre imagens, palavras, amor, sons, traições, assumem esse pacto por um jogo sem dados, desarmado e, por isso, amador.

Não sabemos se o contrato tem o branco do papel fotográfico, ou o da fotografia.

Perguntamos ao jogo, mas ele fala demais: tem a memória manca de performances, peças teatrais de rua, jogo de dados em escolas, acontecimentos fotográficos, expectativas, monstros, todos feitos de cor. Das memórias e conversas fotográficas, capturamos a fragilidade sob a proposta de multiplicar pela proliferação as atividades anteriormente desenvolvidas pelo grupo. Fragilidade. A câmera coloca os momentos no formol, para que fiquem; mas os momentos vãos: o fotográfico e o digital colocam em jogo a falta, e não a presença – o jogo se faz fotográfico.

Tudo o que o jogo faz, afinal, é constantemente propor, como quem dá à escolha cara ou coroa, imagem ou texto, tornando-os inseparáveis: quem escolhe é o acaso, e o acaso não quer cisão – se não por acaso. Mas essa sua tagarelice incomoda os que, porventura, pretendam entendê-lo; muitas vezes diante dele, e só conseguimos perdê-lo – parece que ele não deixa conter: dispersa, tornando-se outras coisas que não jogo, que não papel, que não...  Será que, de alguma forma, procuramos – nas fotografias tornadas monstras pela edição – a foto de família, a fotografia-lembrança, a foto publicitária de outdoor?

Nas imagens, as memórias são desfeitas em alguma sorte de edição. Só são memórias se as quisermos assim. Mesmo o olhar que trouxe as fotomontagens não é de memória: busca-se o acontecimento fotográfico, a potência da fotografia para fabular acontecimentos. E a memória que fica, e mesmo a mais sólida memória que fica, é diabólica: é memória, fabulação? Esse espelho, esse véu, aconteceram? Esse monstro aconteceu? Ou tratam-se de acontecimentos que estão por vir, pulverizando memórias futuras? Essas luzes, esses dados? Monstruosidades de uma memória inexistente e fabulosa?

As imagens diluem-se na mescla entre fotografias e efeitos digitais que reconfiguram o olhar para realidades novas, monstruosas, e colocam em jogo o pacto fotográfico como testemunho da verdade e da memória. Superfícies em cores, formas, recortes, resquícios de vida, de morte, de humano, que permitem pactos demoníacos.

As imagens provocam – sensações, texturas, asperezas, ruídos, ideias, vazios. Provocam a tal ponto, que chegam a se exercer violentamente: colocam em jogo o próprio jogador. Isso não tem algo de violento?

Essas imagens – foto-montagens – provocam. Aspereza, maciez, ruídos, ideias, memórias de palavras tão violentas que colocam em jogo o próprio jogador. Buracos cavados, lógicas de consumo, produção de novos conhecimentos, ficções, humano, sensações, futuro, artes, ciências, nada. Seco, árido, cru, de sentidos profusos, sem-sentido. Tanta coisa.

Será o caso de limparmos a mesa como o escritor que, diante da folha de papel em branco, precisa desvencilhar-se de clichês, formas, dados, dadas para, enfim, poder escrever? Estou dizendo sobre as dificuldades que o grupo de pesquisa responsável pela elaboração de certo artefato tem em lidar com ele, o que pode soar estranho, mas ser potencial. Será o caso de limparmos a mesa, no gesto de quem tenta conquistar a palavra que se perde no meio de tantas cartas, abóboras, alices, espelhos...? Ou de continuar a proliferação fotográfica, esperar que o fotográfico mantenha no ar a questão que, embora não capturemos, divague entre pensamentos e ciências, e  provoque novos desdobramentos e criações?

Mas mesmo essa conquista tem o tom de uma jogada: essa limpeza é feita com o corpo, com o suor, com a sua própria impossibilidade; essa conquista é uma narrativa de si, acontece enquanto eu conto. A proposta de pensar com o jogo não aparece na forma de uma contra-carta (no verso das fotografias, como as demais propostas de jogo); aparece apenas, poderíamos dizer, nessa ausência que não lhe impõe limites: todo o jogo convida ao pensamento com o jogo, desde que convenha reavaliar o que seria pensar-com.

A dificuldade em transformar sua proposta em algo como a investigação de suas maquinarias (anteriores) e de suas consequências (posteriores) parece sempre colocar os jogadores/pesquisadores na ironia de se perderem em uma escrita que não quer dizer/significar, em fotomontagens que multiplicam sensações e potencializam significações não dadas, mas outras, alheias, jogadas ao vento e capturadas na maré da divagação científica.  Trata-se de uma escrita desejante-de-si e de uma política imagética que a colocam na estranha relação em que algo como o pensamento pode surgir a qualquer momento, embora insista incansavelmente em ser desejo-de; estranha sensação de que o jogo foge ao olhar que quer pensá-lo, fazendo do pensamento uma escrita-desejante e uma imagem-divagante transformando a relação – profissional? – em amadora ao se tornar possível apenas na aproximação que se dá pelos afectos.

Não parece que se trate de um amor-de-autor do grupo em relação ao jogo (do medo de que ele, de repente, se desmanche). A contrapartida inevitável deste amadorismo que nos põe no limite é uma angústia – força que faz arrancar do jogo, cortá-lo, rasgá-lo na força da montagem fotográfica (como temos feito em oficinas e em ensaios fotográficos com as cartas do jogo). Esse deslocamento, que nos faz buscar o jogo-papel, parece potente ao desdobrá-lo em suas potências: jogo-papel, jogo-pedagogia, jogo-pensamento, jogo-fotografia – mas sempre jogo?

Há uma busca por desdobrá-lo em novas superfícies que ressecam o pensamento sobre a própria fotografia, dissecam luz e cor na criação de um espectro em memórias despedaçadas: de fazê-lo papel. No ensaio Cores Secas, seria quase nunca jogo, se não por uma maquinaria/pensamento que coloca em jogo componentes da própria imagem – luz, reflexos, pigmento; o jogo, afinal, acontece com as cartas, mas elas apenas o faíscam e o falham.

Diante disso é que propomos uma mudança de perspectiva: se não podemos olhar o jogo de frente, talvez valha a pena pensá-lo desde seus afagos e estragos, afinal. Desde os pactos que ele agencia. sobe

Notas

[2] Desenvolvido por um grupo de pesquisadores e artistas vinculados ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

[3] Fazemos ao leitor um convite para que olhe as imagens das cartas do jogo bios-tecnos-dados e a leia as escritas que as acompanham disponíveis no site http://www.labjor.unicamp.br/biotecnologias/calcadao/?page_id=929

Frente e verso: como praticar o amadorismo

A oferta do jogo é colocada como um pacto de aprendizagem. Confie, parece tudo brincadeira, mas no fim você irá se surpreender com o tanto que eles aprenderam. O profissional não só oferta o jogo como pacto, mas tem nas regras a garantia de sua eficiência, a possibilidade do próprio profissionalismo do jogo. O jogo se joga assim, se ganha assado, pode isto, mas não é permitido aquilo e não se esqueça de...

O profissional faz do jogo, através das regras, a garantia em minúsculas letras no fim do contrato: os jogadores pensam que estão se divertindo, mas nem imaginam o quanto disso é aprendizagem, o quanto aprender no jogo pode ser perigoso (se o limite é a "aprendizagem"). Sua qualidade é, portanto, agir subrepticiamente: mal esperam os jogadores e lá estão os conteúdos prontos a lhes comerem o ócio; lá estariam. Cuidado, ou o lúdico transforma tudo em útil.

O profissional tem a elegância do terno para propor um pacto que faz, da relação de seriedade entre jogo e jogadores, algo de demoníaco. Há, neste pacto, a sedução por aquilo que parece justificar o jogo. Jogue para aprender... algo chama; finja que.

O sortilégio do pacto profissional está na relação entre os signatários e na fidelidade do acordo a que se propõe. Neste pacto o profissional se propõe a divulgar a ciência com fidelidade à verdade, enquanto o jogador se deixa à mercê desta verdade. Uma troca de confianças que concede ao profissional o poder da fala e da verdade, e para o jogador os benefícios do conhecimento. O demoníaco desta relação, no entanto, está na traição do profissional em relação à confiança do jogador; afinal, as regras favorecem o poder de fala do profissional no apagamento do jogador (o jogador joga o jogo, e não com o jogo).

E de tal forma que o pacto está entre o profissional e o seu contratante (escola, revista, governo...), legitimado por aquilo que compreendemos como política pública. Uma política que se efetua mais em direção a um público dado, do que pela invenção por e pelo público. Os jogadores, diante do jogo, apenas atuam estas políticas – no limite das regras e dos interesses, impossibilitados de inventar seus próprios limites, isto é, de jogar com o jogo.

O amador está na impossibilidade de estabelecer o pacto do profissional. É quando o jogo não se faz pelas regras nem ao menos deseja a eficiência ou o profissionalismo. Sorte de um acaso, e não o revés de um modelo. O amador, portanto, não nega ou impede o pacto, apenas não compartilha de suas garantias. O que move o amador não é a técnica do profissional, e de tal forma que as regras advindas desse jogo não estão dentro dos mesmos termos de garantia, embora também não se trate de uma supremacia da técnica, mas sim das formulações nas quais se estabelecem os artigos do pacto.

O amador apenas joga, o profissional joga para. O amador se afirma não pela sua fidelidade e legitimidade diante da verdade e da técnica, mas sim por amor. Um amor que subverte o contrato, ainda dentro da lógica da traição demoníaca, mas não por dar voz aos indivíduos que foram silenciados, e sim por movimentar o pacto para um lugar sem regras e sem sujeitos. Da ausência das regras se faz o fim das garantias e do termo do jogo como ferramenta da técnica de um profissional; por outro lado, da ausência dos sujeitos se faz a impossibilidade de confirmar papeis dentro de um contrato, pois já não se pode limitar o jogo a seus agentes.

 Tal como não se pode dar voz aos silenciados, investe-se em forças – estragos e afagos – de uma potência-amor. Fora de uma relação de amantes, porém por um agenciamento amador. Investe-se na invenção do jogo, o que talvez se constitua como um abuso; aceitando esta deixa, caminhamos por entre conceitos na reinvenção deste jogo e na suspeita de que, mais uma vez, tenhamos pactuado com ele. sobe

As cartas

As cartas se dividem em: a) com dados fazendo pose; b) com dados embalsamados; c) amestrados; d) monstrinhos; e) promessas; f) fabulosos; g) nem tanto; h) incluídos nessa classificação; i) que se agitam feito loucos; j) inumeráveis; k) desenhados por um pincel finíssimo de pêlo de camelo; l) apagados em seguida; m) que ainda não entendemos; n) que nem de perto parecem cartas.

Os pactos se dividem em: a) para cartas sem regras; b) para cartas com regras complicadas demais para jogar; c) se é mais interessante apenas olhar a fotografia; d) pactos ilegíveis; e) que não servem para assinar acordos; f) que possuem erros de concordância gramatical; g) que não cabem em um envelope do correio; h) que não sabemos porque estão ali; i) inclassificáveis; j) impossíveis; k) interessantes; l) mas nem tanto; m) que lembram alguma história de infância; n) que nos devoram sem que haja a mediação de um enigma; o) ou de um advogado norueguês.

Apenas mais uma nota

Tínhamos toneladas de gigas de fotos – imagens capturadas por máquinas desatentas em inúmeras interferências, jogos, atividades desenvolvidas pelo nosso grupo de pesquisa. Estavam todas lá, à mercê de um arquivo. O que faríamos com elas? Se elas sempre voltavam para contar algo que havia acontecido – ao menos era que essas fotos diziam –, e para isso se utilizavam de imagens que nenhum de nossos olhos viram naquele momento, e mesmo assim emergiam lembranças comungadas.

Alguns de nós entramos no grupo de pesquisa depois que algumas atividades já haviam sido feitas. Porém, aquelas fotos compartilhavam uma memória quase que "coletiva", de onde fundávamos uma experiência mútua, afinal como nos ensinou uma incerta pessoa:

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
(PESSOA, 2002: 292).

Fizemos a realidade de tudo isso sem fazer nada disso, e agora precisávamos trazer dessas fotos algo que não fosse aprisionado pela memória, encontrar nas / pelas fotos aquilo que elas tinham de acontecimento. Pois esse acontecimento se dá justamente fora do momento registrado pela fotografia, um lapso que não pode ser fixado por sua química ou por sua computação. Uma intensidade do falso que também poderia ser compartilhada, porém, não mais pela memória mesma, mas algo outro.

Por isso optamos por proliferar o acontecimento, buscar a sua repetição infinitamente, não para registrar, ou fixar sua força, mas para esvaziar as linhas, cores e sombras da correspondência com o real. Apostamos em fotografar, modificar, rasgar as imagens, para que as suas sobras e ruínas viessem a jogar. Entre palavras, imagens e sons, em um jogo que não busca uma correspondência certa, ou ilustrativa:

O DNA está no banco dos réus acusado de invasão de propriedade, pois estaria contaminado material genético de outras espécies. Cada jogador assume um personagem (policias – glóbulos brancos; advogados – retículos endoplasmáticos; juiz – neurônio; réu – DNA; vítima – transgênicos; arma do crime – RNA mensageiro; etc) e utiliza as cartas como provas que incriminem ou absolvam o réu e para contar uma história. O julgamento deve ser realizado em 5 rodadas.

Estava escrito no verso de uma das cartas: o julgamento deve ser realizado em 5 rodadas, mas nada define o que é rodada. As imagens das cartas e os sons do CD podem ser invocados como provas? Mesmo quando insuficientes como registro? Evidências sem laços representativos com o real. O que podem?

As ruínas das imagens também desgastam os usos profissionais da fotografia (didática, prova, testemunhal...), possibilitam o encadeamento de outras forças que não operam pela representação de uma verdade exterior à imagem, e sim pelos afectos de suas linhas, cores e sombras que imprimem no mundo uma realidade da ordem da criação e da invenção.

Convidam a um estranho pacto com a fabulação. Olho e, a princípio, vejo cenas de irrealidade: montagens fotográficas, alarmantes. Mas às vezes não: simples modificação de cor. Ao invés de nos seduzir por alguma aposta em retratar a realidade, as cores e intensidades se apresentam já como potências do falso: acontecem como um estranho "pacto de irrealidade" em que vamos nos surpreendendo ao constatar a possibilidade de certas luzes e sombras ou, ainda mais, a incerteza do que é possível e do que não é. sobe

Referências Bibliográficas

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo (Cinema 2). São Paulo: Brasiliense, 1990.

DELEUZE, Gilles. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

DIAS, Susana et al. Cartas fora do baralho. Revista Sbenbio. 2010.

PESSOA, Fernando. Poesia/ Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes.  São Paulo: Companhia das Letras, 2002.