SELF-PORTRAIT WITH WIFE AND MODEL (1981)
De Helmut Newton

Beatriz Lefèvre[*]

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

 

 

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Paulo Leminski [1]

 

Este exercício mostra a trajetória de leitura de uma imagem que envolve três etapas: a do despertar, ou seja, o que a fotografia provoca no espectador, geralmente à primeira vista; a da observação, que deriva de um olhar mais atento e detalhado do que a fotografia oferece; e a do conhecimento, que se torna possível à medida que se tem ou se adquire (motivado pela própria fotografia) outras informações sobre o referente e/ou sobre o fotógrafo.

A imagem, encontrei-a em um catálogo da exposição Us and them de Helmut Newton e Alice Springs que esteve no MAM de São Paulo em maio de 2000. Na ocasião, eu não conhecia os fotógrafos, nem seus trabalhos, e a escolhi exclusivamente porque nela encontrei a síntese de um tema que vinha estudando: a mídia.

Essa fotografia retrata a mídia ao desnudar o processo de construção de imagens e evidenciar o contraste entre o mundo das imagens e o mundo real. No espelho, encontra-se o mundo da mídia: mundo das imagens construídas (a modelo), dos construtores de imagem (o fotógrafo) e da alta rotatividade (sugerido pelas pernas que se insinuam no cenário). Essa segunda modelo ainda está na sombra, mas já se oferece: os pés prontos para caminhar pelo espaço da mídia. Seu sapato, com um salto altíssimo, é o pequeno detalhe que a diferencia da modelo que está no centro, no auge. O mundo da mídia vive da substituição permanente de imagens, assim como o mundo do consumo, da substituição permanente de produtos. 

Fora do espelho, fora da mídia, vemos o corpo da modelo em primeiro plano, reduzido em sua exuberância, muito distinto da versão construída para a mídia; e uma mulher, entediada, que assiste passiva à construção das imagens. No último plano da imagem, há uma porta sobre a qual uma placa anuncia a “saída” e lá fora vemos o mundo real, abarrotado de carros e prédios, símbolos da falta de espaço e da correria das grandes cidades; mundo real que retira da mídia seus modelos, seus sonhos e seus desejos, todos eles construídos, como a imagem que vemos nessa fotografia.

Na mídia, vemos imagens de produtos e pessoas, imagens construídas segundo objetivos vários, que se transformam em padrões de beleza, de comportamento, de sonhos e de anseios. O universo da mídia distancia-se do mundo natural e o substitui no que ele oferece de melhor: hoje nos relacionamos mais com a mídia do que com nossos pares, com os quais mal conversamos; nossos modelos estão na mídia, mais do que nas gerações que nos precederam; nossos desejos, os encontrarmos nos out-doors, mais do que em nós mesmos. A vida real é (torna-se) por demais feia, pobre, corrida e sem glamour quando comparada às imagens criadas para a mídia.

A fotografia de Helmut Newton não diz tudo isso, até porque as imagens não dizem coisas tão abstratas, mas evidencia, com a força expressiva das imagens, a dimensão do contraste que distancia o mundo da mídia do mundo real. 

Essa leitura da imagem de Helmut Newton reflete o que a fotografia despertou em mim à primeira vista. Por isso a escolhi. Mas para o exercício aqui proposto não era suficiente e procurei então outros caminhos de leitura. Para tanto passei a observá-la com atenção, tentando livrar-me dessa primeira interpretação e concentrar-me nos elementos que o fotógrafo fornecia: os componentes da imagem e seu título. 

Em Auto-retrato com esposa e modelo, o fotógrafo aparece no ato em que está fotografando em um estúdio. Não parece retratar a si mesmo. É um auto-retrato construído de modo a gerar dúvida: afinal ele está fotografando a si ou à modelo? A fotografia cria a ilusão de que uma outra imagem está sendo produzida. Mas não, o que está sendo fotografado é a imagem que vemos. 

Toda imagem é passível de interpretação, de decodificação, mas algumas se impõem pelo que mostram, por seu componente denotativo, e mal nos lembramos do fotógrafo que a fez; e outras parecem ter sido feitas para provocar questionamento (porque foram feitas, como o foram ou o que se pretende com elas?) e automaticamente remetem ao seu autor, às intenções que o motivaram. 

Nessa fotografia, a provocação não está apenas na relação entre a imagem e o título. A presença do fotógrafo na imagem e o fato de estar usando uma capa de chuva dentro do estúdio; o campo criado pelo espelho; as duas versões que vemos do corpo da modelo, dentro e fora do espelho; e as pernas da segunda modelo que se insinuam espelho adentro, como se não houvesse um corpo (ainda tentamos, por entre as pernas da primeira modelo, identificar esse corpo, mas não conseguimos) são elementos que causam estranhamento e/ou dificultam a compreensão da realidade denotativa da imagem (a cena retratada). Em sua própria constituição, portanto, essa imagem traz elementos que instigam o espectador a um olhar mais atento e inquisitivo. 

Quase tudo nessa fotografia conduz ao fotógrafo: o título, o fato de estar em um estúdio no ato da fotografia, e o questionamento que a imagem incita, que nos remete às intenções do fotógrafo. No entanto, a estrutura da fotografia gira em torno do espelho e mais especificamente da imagem da modelo, que ocupa o seu centro. Ela domina a cena por sua beleza; pelo efeito da iluminação sobre seu corpo; pela pose assumida; assim como pela moldura formada pelo espelho e pelo fundo branco. 

A imagem da modelo refletida no espelho, além de central, mantém uma relação de contraste com os demais personagens retratados, que a cercam. O contraste, aliás, é anunciado como elemento estruturante da imagem pelas duas peças de roupa que vemos jogadas ali no chão: uma branca sobre o chão mais escuro, outra preta, ao fundo, sobre o chão branco. As duas peças contrastam entre si, assim como o fotógrafo vestido com sua capa de chuva, protegido, contrasta com o corpo nu da modelo, completamente exposto, que contrasta por sua vez com o da mulher ao lado do espelho, toda vestida em tons escuros, encolhida, com ar entediado; e também com o seu próprio corpo, imagem direta, não refletida, que aparece em primeiro plano. Neste, vemos a modelo de costas, desfocada, a luz levemente estourada. Esse corpo não tem o apelo daquele que está no espelho. São duas personagens, a moça que empresta seu corpo e a imagem que surge, imagem construída para a fotografia. O contraste é o elemento que Newton utiliza para relacionar a imagem construída da modelo com os demais personagens.

Nesta fotografia, Newton não apenas nos incita a investigar os elementos que a constituem (ao provocar estranhamento e dificultar a compreensão da cena), como ainda nos mostra diretamente a construção de uma imagem (da modelo), processo análogo à criação de qualquer imagem fotográfica (toda fotografia é imagem construída) e ao mesmo tempo etapa desta. Iluminação, pose, figurino (nem que seja apenas um par de sapatos!) são parte do processo de construção da imagem da modelo e também da fotografia que se fará dela. O fotógrafo é aqui retratado como um construtor de imagens. 

Em seu auto-retrato, portanto, Newton não se limita a mostrar-se fisicamente, ele apresenta a concepção que tem de si mesmo, enquanto fotógrafo. Essa percepção, motivada pela leitura atenta da própria imagem, confirma-se no texto que abriu a exposição do MAM. Nele Helmut Newton afirma: “Eu vejo a verdade e a simples espontaneidade nas fotografias de Alice Springs. Quanto a mim, reconheço a manipulação e o aspecto editorial das minhas fotografias.” [2] É o que ele nos mostra em seu auto-retrato.

Naquela exposição, pôde-se conhecer um pouco de Helmut Newton e de sua esposa, Alice Springs, o que possibilitou um passo além na leitura dessa imagem. 

Newton e Springs são casados há muito tempo (mais de 50 anos) e ela passou a fotografar influenciada pelo marido. Na exposição há uma sucessão de imagens feitas pelos dois em diversos momentos, íntimos até: em hotéis, em hospitais, em casa etc. Helmut Newton e Alice Springs fotografam e se fotografam permanentemente. A fotografia perpassa a vida do casal. Não é a toa que Alice Springs está presente no auto-retrato de Helmut Newton. Mais do que isso, a fotografia que vemos traz o espectro de um funil (que se fecha da esquerda para a direita da imagem) que leva à Alice Springs. Ela não está no centro da imagem, mas o desenho da fotografia conduz o olhar para ela. Springs assiste à cena como assiste na vida à atividade do marido fotógrafo. Há uma relação de voyerismo entre os dois que é retratada nesta imagem: Alice observa Newton fotografando e ele a fotografa. Alice é também modelo para Helmut Newton, que mostra assim o outro lado da sua fotografia: não o profissional, a fotografia de moda, cuja bela modelo é o centro, mas a fotografia que acompanha sua vida pessoal e da qual Alice Springs é o centro. Auto-retrato com esposa e modelo: será que o título refere-se à esposa e à modelo ou à esposa e modelo Alice Springs?

>Sobre a cabeça de Springs, vê-se uma porta aberta e, sobre esta, uma placa indica a saída. Alice Springs é o caminho que conduz a fotografia de Helmut Newton para fora do estúdio, para fora do mundo da moda. 

Em seu auto-retrato, Newton evidencia-se como um construtor de imagens; afirma que a fotografia é para ele mais do que uma atividade profissional; nos ilude sobre o papel de destaque da modelo e conduz nosso olhar para Alice Springs, sua modelo preferida.


[*] Beatriz Lefrèvre é editora e mestranda em Multimeios, IA, Unicamp


[1] Leminsky, Paulo. Melhores poemas, Editora Global, São Paulo, 1986.

[2] “I can see the truth and simplicity in the portraits of Alice Springs. As for myself, I recognise the manipulation and editorialising in my photographs.”