Militão Augusto
de Azevedo:
Um olhar particular sobre a sociedade paulistana (1862-1887).
O cenário
Na segunda metade do século XIX, a capital imperial conta com um crescimento dos estúdios fotográficos e, sobretudo com a grande expansão cafeeira; vários deles são instalados no Vale do Paraíba e na cidade de São Paulo. Em um momento em que os elementos da vida burguesa são difundidos com rapidez e uma nova força surge dos escombros da antiga ordem, as representações de status ganham importância diante de uma nova realidade que acena para a possibilidade de ascensão social. Forma-se assim uma sociedade "[...] em que as relações sociais estão sujeitas a freqüentes mudanças no tempo e no espaço; em que predomina uma variedade muito grande de critérios de julgamento; em que as demarcações sociais não são intransponíveis e a comunicação entre os grupos é uma regra [...]" (Souza,1987:123). Assim, a partir de 1877, principalmente após a ligação por ferrovia entre São Paulo e Rio de Janeiro, os novos costumes da capital imperial se difundem com maior facilidade. Para a população das cidades do Vale do Paraíba, e posteriormente da cidade de São Paulo, nota-se a necessidade de registrar a prosperidade vivida e, ao mesmo tempo, é possível perceber, em diferentes regiões, a influência da moda, da arte e da cultura européia, sobretudo francesa.
O fotógrafo
Miltão Augusto de Azevedo está entre os fotógrafos que mais se destacaram nesse momento, tendo nos deixado um rico acervo, hoje devidamente organizado e disposto na área de documentação do Museu Paulista [1]. Atuando a partir de 1862, quando da popularização das cartes de visite, ele é responsável por uma rica produção através da qual avaliamos, em detalhes, a riqueza do panorama social da cidade de São Paulo no século XIX. Nascido em 1840 no Rio de Janeiro (veio a falecer em 1905 em São Paulo) Militão inicia sua atividade fotográfica ainda na capital imperial, quando provavelmente trava "[...] conhecimento com os proprietários do estúdio Carneiro & Smith [...] ainda nos anos 50" (Kossoy,1978:17). Tendo desenvolvido paralelamente as atividades de ator e de fotógrafo, Militão atuou na Companhia Joaquim Heleodoro (1858-1860), mas foi a vinda da Companhia Dramática Nacional, onde trabalhou entre 1860-1862, que o levou a se mudar para a capital paulista, quando esta "[...]se estabelecia na cidade para uma temporada e da qual Militão participava como ator" (Carvalho e Lima, 1998:111). Em 1869, faz parte da companhia João Caetano (Grangeiro,1993:149).
A experiência no teatro tem influência decisiva no modo de Militão fotografar. Enquanto outros fotógrafos dedicam-se prioritariamente aos retratos, o grande mercado da época, notamos que ele exerce uma liberdade criativa ao eleger a paisagem urbana como objeto de seus registros. Essas fotos que não tinham um fim mercadológico, já que as fotografias de paisagens com fim comercial se expandem apenas no final do século XIX, e mais efetivamente no início do século XX, com o advento dos cartões postais. Nota-se, assim, como característica fundamental do seu trabalho, sobretudo nas paisagens de 1862, o que Lima e Carvalho chamam de o olhar de um "[...] visitante aprendiz de fotografia e não de um profissional contratado por uma instituição ou empresa" (Lima e Carvalho, 1998:111).
As fotos tiradas em 1862 foram usadas posteriormente num dos mais importantes documentos existentes a respeito da cidade de São Paulo no século XIX, o Álbum comparativo de vistas da cidade de São Paulo. Fruto do reaproveitamento de paisagens urbanas que não foram vendidas pelos ateliês de Carneiro & Gaspar e Photographya Americana, bem como de devoluções de fotos enviadas a outros ateliês instalados em outras capitais do país, o Álbum comparativo de vistas da cidade de São Paulo confronta registros fotográficos tirados entre 1862 e 1887 que mostram várias localidades da cidade e suas transformações urbanas. Para Lima, o Álbum comparativo "[...] pode ser considerado um exemplo da percepção do discurso baseado na idéia de progresso que iria justificar as intervenções urbanísticas na cidade nos anos subseqüentes" (Lima, 1991:68).
Paralelamente às paisagens urbanas, já a serviço do ateliê Carneiro & Gaspar, Militão é responsável por milhares de retratos. Segundo Kossoy, os retratos de Militão "[...] denotam a visão crítica de um fotógrafo que vai além do simples ato repetitivo de operador da câmera, ao retratar os mais diferentes tipos humanos de uma sociedade em formação e constituem um documentário único da paisagem urbana de São Paulo da época"(Kossoy,1978:12). Sobre os retratos, o autor considera, ainda, que estes "gravaram democraticamente os tipos dos diferentes estratos sociais"(Kossoy, 1980: 51), fornecendo "um farto arquivo visual de tipos da época [...]" (Kossoy,1978: 08).
Fruto da atividade profissional fotográfica mais popular e mais rentável no século XIX, estes retratos chamam a atenção pelo fato de, em muitos casos, os retratados serem registrados com sua indumentária habitual e em poses que denotam maneiras cotidianas. Militão registra os mais diferentes tipos sociais, num período em que a fotografia, e sobretudo as cartes de visite, ainda estão a serviço da construção simbólica e da afirmação social dos segmentos emergentes, no campo e nas cidades. Isto é: podemos considerá-lo um fotógrafo diferenciado no tocante ao uso da carte de visite, já que retrata inúmeros personagens comuns da urbe paulistana, como escravos, estudantes, padres, soldados, músicos, atores, colonos, políticos, entre outros.
O ateliê
Estudos recentes apontam que o Photographia Americana, criado em 1875 por Militão, tinha uma clientela mais popular que a clientela dos demais estúdios instalados em São Paulo nesse período. Segundo Lima, o preço cobrado pelas fotos era um dos mais baratos de São Paulo: "uma dúzia de retratos era vendida no Photographia Americana por 5$000, o equivalente a duas camisas para homem ou cinco passagens para a Penha".[2] A própria localização do ateliê de Militão, defronte à "[...] Igreja do Rosário, freqüentada pela população negra [...] na então rua da Imperatriz, 58" (Carvalho e Lima, 1998:116), talvez explique a grande quantidade de negros fotografados, bem como a forma em que estes aparecem nas fotos, não como escravos, mas como cidadãos da cidade de São Paulo. Inúmeras cartes de visite mostram ainda artistas de teatro e coristas, retratados, de modo geral, quando da passagem por São Paulo para as apresentações.
Descontente com o desempenho do seu estabelecimento, Militão coloca-o à venda no ano de 1884, alegando, como mostra sua correspondência com amigos, a falta de "[...] um profissional retocador, além de um gerenciamento melhor - coisa que seu gênio acanhado atrapalhava" (Grangeiro, 1993:158-9). Em outras cartas, Militão salienta que "[...] lhe falta um sócio que compense sua timidez, alguém que lhe ajude a 'tocar' o negócio" (Grangeiro, 1993: 159). Enfrentando sérios problemas comerciais, acaba por liquidar o Photographia Americana "[...] quando em outubro de 1885 enviou ao procurador da Câmara Municipal e ao coletor de Rendas Gerais o aviso de que estaria fechando [...]" seu estabelecimento, após 10 anos de atividade (Grangeiro,1993:163). Após o leilão dos equipamentos e móveis de seu ateliê, parte para a Europa.
É interessante observar que é após essa viagem que ele tem a idéia de produzir o Álbum comparativo, possivelmente influenciado pela febre das vistas urbanas e dos álbuns mostrando as cidades européias. Ao vender o Álbum comparativo, segundo ele sua obra prima, Militão de Azevedo, em carta a seu amigo Portilho, diz: "[...] como Verdi despedindo-se da música escreveu seu Otello, eu quis despedir-me da photographia fazendo o meu" (Grangeiro, 1993:164).
Marcelo Eduardo Leite - mestrando em Sociologia na Unesp/Campus de Araraquara SP (bolsista FAPESP).
[1] A coleção “Militão Augusto de Azevedo” é formada por um acervo de mais de 12.000 fotos; em 1996 esse material foi adquirido dos herdeiros do fotógrafo pela Fundação Roberto Marinho e pela Rede Globo e depois foi doado ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo.
[2] Anúncio do ateliê Photographia Americana publicado no jornal Correio Paulistano de 21 de abril de 1876, apud Solange Ferraz de LIMA (1991), op. cit., p. 75.
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