O
nome
das
coisas:
algumas
considerações
sobre
a
leitura
de
fotografias
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Nomes
se
dão
às
coisas |
Nomes
se
dão
aos
deuses |
Nomes
se
dão
às
doenças |
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*Trecho da música Nome das coisas, de André Abujamra |
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Sobre a leitura de fotografias, iniciaremos pela boa e velha questão: Existe a verdade fotográfica? Enquanto representação simbólica, o quanto podemos confiar no real da fotografia como forma de apreensão do mundo?
Tal questão, debatida quase que exclusivamente no campo da semiótica, é central para aqueles que trabalham com a fotografia do ponto de vista da informação que vai ser tratada e transformada em conhecimento.
As possibilidades de manipulação antes e depois da realização do registro, como o arranjo da cena a ser fotografada e a trucagem feita no laboratório, forjando assim o real segundo interesses específicos, bem como a visão de mundo do fotógrafo levando à construção de um sentido, são pontos sempre levantados com relação à objetividade da imagem fotográfica. O historiador Peter Burke, frente ao descompasso entre a heurística do documento textual e a do documento fotográfico, continua apontando a necessidade de técnicas de “crítica à fonte” (BURKE, 2001, p.13) para o estabelecimento de uma diplomática para a fotografia (BURKE, 1992, p.31).
Por outro lado, se nos voltarmos para o leitor, temos que ter em conta que "a recepção das imagens depende essencialmente de nosso conhecimento do mundo, sempre individual, diferente de uma pessoa para outra, e não possuindo traços de codificação" (SCHAEFFER, 1996, p.98).
Contudo, estamos considerando o processo de recepção como o ato de ‘nomear coisas’. E para nomear coisas, antes de mais nada, é preciso reconhecê-las. Quando realizamos a leitura de fotografias buscamos sempre este reconhecimento, apenas aparentemente natural. Segundo F
rancastel: “Fisiologicamente, o olho humano é naturalmente o mesmo desde as origens da espécie; ele não é um sentido isolado e só se vê aquilo que se conhece. (...) Não se percebe, não se diferenciam senão coisas que correspondem a experiências determinadas pelos níveis da cultura” (FRANCASTEL, 1982, p.68-9).A legenda
que acompanha a fotografia permite um primeiro reconhecimento do assunto fotografado. Nesta direção, Leite assinala: “quando não se conta sequer com uma legenda verbal identificando as personagens, o ano e o lugar do acontecimento, a fotografia pode ser um elemento mudo, além de propiciar decodificações ambíguas” (LEITE, 1988, p.86).Tivemos oportunidade de ver, há alguns anos atrás, uma exposição de fotografias do italiano Oliviero Toscani, criador das campanhas publicitárias da BENETTON. Dirigidas a um público específico, as imagens, ampliadas em enormes painéis, não possuíam legendas. Algumas delas haviam sido alvo de polêmicas, como a do rapaz aidético terminal com expressão de Jesus Cristo.
Visto que as imagens não possuíam nenhum texto verbal, somente as pessoas que sabiam tratar-se de um jovem aidético conseguiam alcançar o sentido da mensagem: jovem + AIDS + martírio = Santo.
Desta maneira, mesmo nos casos em que a fotografia prescinde de uma legenda, podemos ver, reconhecer e nomear coisas.
Aumont, ao abordar a relação entre imagem e sentido, aponta: “Toda representação é relacionada por seu espectador - ou melhor, por seus espectadores históricos e sucessivos - a enunciados ideológicos, culturais, em todo caso simbólicos, sem os quais ela não tem sentido” (AUMONT, 1995, p.248).Porém, com relação às
fotografas recolhidas nas instituições-memória, existe uma maior dificuldade na leitura, por vezes mesmo com a presença da legenda.Estamos tomando por instituições-memória os lugares destinados à preservação e manutenção da memória do homem (BRITO, 1989). Caracterizadas pelos arquivos históricos, bibliotecas, museus e centros de documentação, as instituições-memória abrigam
conjuntos documentais que foram produzidos para fins distintos, mas que, ao serem recolhidos nesses lugares ganham uma outra condição: a de que foram selecionados para perdurar no tempo. Tais conjuntos encontram-se fora de um contexto de circulação original, assim, leitor e fotografia não compartilham o mesmo tempo histórico, as mesmas referências sócio-culturais, o que dificulta a sua recepção imediata.Para as fotografias do passado no mais das vezes é preciso recompor o elo da cadeia que se perdeu ao longo dos anos. A dificuldade no reconhecimento daquilo que a fotografia mostra pode levar a equívocos na leitura, como por exemplo ver na imagem o que não existe e vice-versa.
Neste sentido, tivemos uma experiência interessante com uma fotografia da coleção do jornalista Geraldo Sesso Júnior, que integra o acervo do Centro de Memória-UNICAMP. No verso da fotografia a legenda informava: Largo do Rosário, Campinas, 1885.
Sabíamos que a edificação à direita da imagem era a Igreja do Rosário, demolida em 1956 para o alargamento da R. Francisco Glicério. Observamos, à esquerda, a torre da Catedral e, espalhados pelo Largo, homens e meninos. Agora, atentemos ao homem em primeiro plano, carregando o que num primeiro momento percebemos ser um saco.
Numa das exposições realizadas pelo Centro de Memória fomos buscar mais informações sobre o Largo em questão, para melhor inseri-lo na história da cidade. Durante a pesquisa, deparamos com a mesma fotografia publicada no jornal Correio Popular de Campinas, de 25 de julho de 1978. A matéria, intitulada O Largo
do Rosário no tempo e na memória, trazia o seguinte texto:“Largo do Rosário, em 1885, vendo-se ao fundo a Igreja do Rosário sem as duas torres, que haviam sido demolidas por se acharem em ruínas. Ao centro, o elegante chafariz de colunatas, cuja água provinha da nascente do Tanquinho (Largo do Pará). Antes da instalação do serviço de águas nesta cidade, além dos poços caseiros, a água era fornecida pelos chafarizes dos Largos do Rosário, Teatro, Matriz Velha e Carlos Gomes; ou pelas bicas (...)”.
Assim ficamos sabendo que o pequeno chafariz, o qual havíamos apenas percebido de relance, simplesmente realizava, com outros existentes na cidade, o serviço de abastecimento de água para a população, sendo que o homem em primeiro plano carregava na verdade uma botija. (De posse dessas informações, perguntamo-nos por que tínhamos visto um saco nas costas do homem. A sua roupa surrada, a barba comprida... quando nos lembramos de uma antiga imagem de infância, a do ‘homem do saco que carregava criancinhas’, o qual, segundo nossos pais e avós, viria nos pegar se não fôssemos ‘bonzinhos’).“Os textos revelam aos leitores sua própria imagem” (VILCHES, 1997, p.9).
Em última instância, o ato da leitura de fotografias deve levar em conta as condições de produção do registro e de recepção do signo, para que na busca de algo que possa ser tomado por “verdade fotográfica”, não sejamos levados pelo sentido de ilusão da representação.
* Responsável pela Área de Documentação Iconográfica do Centro de Memória-UNICAMP e mestre pelo Departamento de Biblioteconomia e Documentação ECA/USP.
Referências Bibliográficas
AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas : Papirus, 1995. (Ofício Arte e Forma).
BRITO, Mariliza E. Memória e cultura. Rio de Janeiro : Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, 1989.
BURKE, Peter. Como confiar em fotografias. Folha de São Paulo, São Paulo, 4 fev. 2001. p.13-14. Suplemento Mais!
_______. Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro. In: ______. (org.). A escrita da história : novas perspectivas. São Paulo : Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992. p.7-37. (Biblioteca Básica)
FRANCASTEL, Pierre. A realidade figurativa: elementos estruturais de sociologia da arte. São Paulo : Perspectiva, 1982. (Estudos, 21)
LEITE, Miriam Moreira. A fotografia e a ciências humanas. Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, n. 25, 1988. p. 83-90.
SCHAEFFER, Jean-Marie. A imagem precária: sobre o dispositivo fotográfico. Campinas : Papirus, 1996. (Campo Imagético)
VILCHES, Lorenzo. La lectura de la imagem: prensa, cine, televisión. Barcelona : Paidós, 1997.