O caso Flávio Pesquisa de Fernando de Tacca

5 - A família Gonzalez e o menino Ely-Samuel
O Cruzeiro - 07 de outubro de 1961

A revista O Cruzeiro já havia enfrentado a revista Paris Match, em 1951, em embate sobre uma questão envolvendo a cultura religiosa afrobrasileira, localizada territorialmente em Salvador, BA, ao produzir uma reportagem sobre Candomblé em contraponto à da revista francesa, e decidindo entrar em cena e colocar um debate inicialmente nacional, afinal, as fotografias haviam sido realizadas no Rio de Janeiro e a família em questão era branca, e o fotógrafo negro, procurando uma situação similar nos EUA. Depois da experiência de 1951, agora o enfrentamento acontece com Life, umas das revistas nas quais O Cruzeiro também se espelhou na sua reformulação efetivada com a entrada de Jean Manzon no começo dos anos 40, dando início ao fotojornalismo moderno no Brasil, e também como um lugar para a própria fotografia moderna como mídia massiva.

A revista O Cruzeiro, tomada pelas dores nacionais, envia Henri Ballot[1] aos EUA para fazer uma fotorreportagem de encomenda editorial da revista, ou seja, as imagens mostram uma família portorriquenha muito pobre vivendo em um cortiço, e o recorte, o ângulo e a própria montagem da reportagem pela revista brasileira é uma cópia da narrativa fotográfica da Life.

A capa da revista O Cruzeiro já demonstra uma ação belicista ao fazer um carimbo com os dizeres “Repórter Henri Ballot descobre em N. York um novo recorde norte-americano: MISÉRIA”. A palavra vem acentuada em caixa alta e ainda em negrito. As muitas reportagens em jornais cariocas, algumas polêmicas nas publicações de Life, aliadas a uma situação de sentir-se invadido pela imprensa internacional, como no caso de Paris Match, criaram as condições para a resposta brasileira. Acentua-se que nesse momento a revista O Cruzeiro já não vivia uma situação financeira muito boa, principalmente pela experiência não bem sucedida de realizar uma edição em espanhol, com gastos muito elevados e endividamento que, segundo Flávio Damm[2], deveu-se à ausência de verba federal prometida por Juscelino Kubitschek, o que fez a direção da revista se lançar na aventura de produzir uma mídia internacional. Interessava ao presidente Juscelino uma ampliação da visibilidade brasileira na America latina, mas a falta de apoio fez o projeto ser muito custoso e sem vida longa.

No diário publicado em O Cruzeiro, assim como fez Parks em Life, Ballot relata que visitou muitas famílias miseráveis antes de chegar à casa de Gonzalez, que lhe é indicado por Stanley Ross, gerente do jornal El Diario de Nueva York, um periódico editado em espanhol e que atinge uma população de “quase um milhão de portorriquenhos”. Ballot diz que Ross conheceu Assis Chateaubriand e a revista brasileira, e diz: “Então, veio buscar um ‘Flávio’ em Nova York? Você teve uma boa ideia. Aqui encontrará coisas bem piores do que no Rio, em matéria de favela. É bom que estes fatos sejam conhecidos. Talvez ajude a resolvê-los”.

A reportagem brasileira tentar refazer os passos de Parks no Brasil: é escolhida uma família branca pobre, latino-americana, e os ângulos e os elementos da cena são muito similares. Repete-se também a publicação de um diário de Ballot, como fez Parks. O mais interessante é a intencionalidade da revista em lembrar ao leitor da existência da reportagem da Life e publicar no correr da matéria, em pequenos boxes, as reproduções das páginas da revista norte-americana. A superposição redunda em mais circularidade das mensagens na afirmação das teses de O Cruzeiro, a saber, também existem brancos miseráveis na América. A capacidade de se fazer o mesmo trajeto editorial reafirma a revista pautada pela imagem e pelo seu fotojornalismo moderno. A direção da revista opta por um espelhamento em relação à reportagem da Life e uma fórmula de se aproximar de um determinado e consagrado conteúdo visual e narrativo como lugar de confirmação do próprio nascimento de O Cruzeiro, ou seja, olhando sempre para as revistas mais notáveis do cenário internacional como referências importantes para sua própria legitimização.

Assinado como “A Direção”, o texto de introdução à reportagem lembra as edições de Life, a própria manifestação “editorial” no começo da reportagem da revista norte-americana, e lembra a vinda de Parks, a indicação do foco na miséria de uma favela do Rio, dizendo que a miséria não é uma exclusividade brasileira e enviando o repórter Henri Ballot para fotografar uma “favela” em Nova York:

A revista Life, em suas edições (Doméstica, Internacional e Espanhola), publicou, nos meses de junho e julho, uma reportagem focalizando a miséria na América Latina. Como ambiente, foi escolhida uma favela do Rio de Janeiro e, desta favela, uma família nordestina. Não podemos negar aqui a existência das favelas cariocas. Conhecemos o seu drama e seu problema. Mas a miséria não é exclusividade nossa. A revista O Cruzeiro enviou o repórter Henri Ballot a Nova York. Como ambiente, ele escolheu um slum (favela) de Manhattan e, deste slum, uma família portorriquenha”. E ainda explica didaticamente: “Para os leitores que não viram a reportagem de Life, queremos esclarecer que seguimos, propositalmente, o mesmo roteiro e mesma paginação daquela revista. Para melhor compreensão, reproduzimos em fac-símile, ao lado das várias fotografias de Henri Ballot sobre os slums, as páginas daquela publicação americana sobre as favelas cariocas”.

Reforçando a dualidade, de certa forma, na tentativa de ser complementar, apresentam na página da direita os perfis dos dois fotógrafos, com fotos de Parks carregando uma criança e Ballot em meio a três crianças. Sobre Parks o texto fala das reportagens anteriores no Brasil e da polêmica nos EUA, e acrescenta de forma veemente:

A reportagem de Gordon Parks teve grande repercussão nos Estados Unidos, onde se manifestou grande escândalo, acompanhado, muito à moda americana, de uma campanha para arrecadação de fundos para ajudar a família Silva, posta em foco pelo repórter Parks. Em sua reportagem para Life, Gordon Parks escolheu um dos casos de miséria mais aguda encontrados em nossas favelas: uma família de nordestinos vindos do Rio, com oito filhos menores, cujo pai se encontrava em estado de invalidez, em consequência de acidente de trabalho. Parks, além de tudo, pegou um dos membros dessa família e levou-o para exibição nos Estados Unidos. Como se a miséria fosse exclusivamente nossa. Não é. Em Nova York, em Chicago, e em outras cidades dos EE.UU. e de outros países, existem casos iguais – ou piores – de que os relatados por Gordon Parks. Vejam como, na América do Norte, também a miséria bate recordes.”

Não apresentam um perfil dos trabalhos anteriores de Parks, e o fazem com Ballot, assim, parece que Parks foi um fotógrafo oportunista, que a matéria no Brasil seria a mais importante de sua carreira, em suma, não dizem nada sobre Parks fotógrafo, primeiro negro fotógrafo de Life. E apresentam o seguinte perfil de Ballot:

O repórter Henri Ballot que, apesar do nome, é brasileiro, do Rio Grande do Sul, foi enviado pelo o Cruzeiro aos Estados Unidos, a fim de fotografar e recolher elementos sobre as favelas (slums) de lá. Demorando-se um mês e meio em Nova York e passando a maior parte desse tempo hospedado em plena área dos slums nova-iorquinos, Henri Ballot regressou com um acervo de fatos e fotografias realmente impressionante. Sua vida e sua missão de repórter o têm levado aos pontos mais distantes do Universo. Desde o Pólo Sul ao Oriente Médio, até às selvas do Brasil Central e América do Sul, Ballot e sua câmara têm feito para O Cruzeiro coberturas audaciosas, algumas com risco de vida (revolução no Líbano, revolução e terremotos no Chile etc.). Mas, apesar de toda a sua tarimba profissional, o contato direto com a miséria humana, em seus aspectos mais degradantes, a visão de crianças dormindo com baratas passeando pelo corpo, as noites passadas em claro, porque os percevejos e as pulgas não o deixavam dormir – tudo isso o deixou mais impressionado do que o silvar das balas no Líbano, do que o perigo das selvas brasileiras, e mesmo do que o próprio aspecto da terra se abrindo em crateras no Chile

Na forma apresentada, com a comparação entre os dois fotógrafos, Ballot é elevado a uma condição heroica pelos trabalhos anteriores, pela sua audácia e talvez pela sua independência jornalística (o que não ocorre, pois estava o tempo todo atrelado a uma pauta da direção de O Cruzeiro, com um layout rígido a ser seguido), ou ainda porque a sua experiência junto à família portorriquenha teria sido mais intensa do que o vivido por Parks, que sabia-se que se hospedava em hotel no bairro de Copacabana; assim, Ballot teria tido uma vivência mais forte e inclusiva, pois viveu como eles vivem nos slums. O texto também critica a ação humanitária de Life e Parks, colocando-a no rol de atividades da ordem do espetáculo midiático ao exibir Flávio nos EUA.

Na página seguinte, a diagramação é a mesma do box da Life em destaque, e na imagem central podemos ver o famoso edifício do Empire State, símbolo da grandiosidade nova-iorquina, fazendo um contraponto com a estátua do Cristo Redentor. Se Parks veio ao Rio de Janeiro, nossa cidade então mais cosmopolita, Ballot fotografa em Manhattan, perto de Wall Street e da Broadway, no coração de NY. Impactando com os arranha-céus, uma criança chora agarrada a uma janela, criando a sensação de desespero de uma possível queda. Ballot descreve a família como imigrante fugindo das duras condições de vida nas plantações de cana em seu país; o pai, Felix Gonzalez, com 53 anos, ganha a vida lavando carros e a família é sustentada pelo emprego da filha mais velha, de 19 anos, costureira em uma oficina. Continua a descrição com depoimento do pai, dizendo que os filhos não saem na rua e ele já pediu a internação de uma filha, por estar envolvida com gangues ligadas ao tráfico, por isso seus outros filhos somente brincam no corredor e no pátio interno no prédio, segundo Ballot “... onde se acumula lixo de todos os vizinhos”.

Na continuidade comparativa, uma página dupla enche o quadro de crianças em um quarto apertado, como simulacro da mesma imagem do barraco de Flávio, mas quem aparece cuidando das crianças é a mãe. Diz o um pequeno texto logo acima do box de Life: “... é apenas um quarto em que todos se amontoam à noite, entre pulgas, baratas e percevejos”. O texto induz mais ainda para uma situação incontrolável, de total abandono, muito mais miserável que a vida no barraco da favela brasileira.

Fotos das crianças comendo no chão, andando pelo corredor, e uma menina mais velha com um bebê, fazem alusão à vida retratada de Flávio, e o texto torna-se mais duro e um tanto pessimista, colocando nos ombros das crianças uma infalível condição de fracasso perante um sistema “impetuoso”:

A mãe cansada da luta diária contra a miséria, a invasão de ratos e insetos, a queixa contínua dos filhos com fome, já foi vencida pelo desespero. O pai, esmagado por uma civilização impiedosa, só tem a última esperança de receber um dia a ajuda que a cidade dá aos necessitados. Para estes dois seres vencidos, os filhos seriam uma razão de viver. A Providência até hoje parece abandoná-los neste último sonho. Maria Esther está internada na “Wassica State School”, Ana Cecília já se acha presa pela mesma engrenagem que abateu o pai, e ganha um salário irrisório. Restam os menores.

Ely-Samuel tem nove anos mas a aparência de quatro. O seu corpo magro de subnutrido é recoberto de feridas, roído de baratas que invadem sua cama cada noite. Na sua testa, um esparadrapo esconde a mordida de um rato. Quase não sabe sorrir. Quando se diverte é jogando bola ao lado das latas de lixo, num pequeno quintal sem sol. Sua magreza e sua apatia deixam crer que ele sofre de uma profunda anemia. O handicap de ser portorriquenho já pesa bastante nos seus ombros fracos. Se, porventura, ele conseguiu vencer a doença, não vencerá a sociedade. Sua triste condição de lousy puerto-rican (portorriquenho piolhento) o relegará a um plano secundário.”

O texto acima introduz, junto com outras passagens, a polêmica foto de Ballot que será publicada como contraponto da famosa foto de Parks. Na permanência do espelhamento a página dupla mostra o pequeno Ely, citado como doente, frágil, atacado por insetos e ratos, a brincar em meio a latas de lixo e, ao seu lado, com o corpo virado na mesma direção que estava Flávio, o mesmo menino deitado em sua cama com o corpo com três grandes baratas a passear livremente. A leitura entre o lixo e as baratas não indicam a condição de morte próxima, mas de uma morte lenta e dolorosa, asquerosa e peçonhenta. O texto que acompanha a foto com uma legenda diz o seguinte:

No ‘apartamento’ em que vive a família Gonzalvez, em Nova Iork, as baratas passeiam, de noite, sobre o corpo subnutrido do menino Ely-Samuel. Na testa, um esparadrapo esconde a marca de uma mordida de rato. Seria o caso, talvez, de trazê-lo ao Brasil, para uma última tentativa de salvar esta criança condenada à morte por subnutrição. Não foi fácil conseguir esta foto.

Talvez por não conseguir uma foto tão expressiva como o olhar em desesperança de Flávio, ao lado de imagem mortuária, as baratas tornaram-se elemento de fácil impacto negativo sobre o leitor, uma fórmula de fechar a reportagem com força imagética, mas levando para a sensação brutal, e não para a criação de personagem, como fez Parks do menino Flávio. Não temos um personagem efetivo na reportagem de Ballot, tudo parece um tanto mis-em-scène, para mais do que em Parks, que tentava se anular na neutralidade da máquina. Em Ballot, não temos como não encontrarmos o fotógrafo como participante da cena, de alguma forma interferindo, pela crueza e talvez pela insensibilidade. Os leitores de O Cruzeiro não se sensibilizaram e não enviaram donativos para a campanha proposta por Ballot, nem a revista O Cruzeiro fez uma valoração da proposta.

Em meio ao remake brasileiro a foto vai resultar em muita polêmica sobre a ética do fotojornalismo e os escrúpulos do fotógrafo em retratar, ou em manipular, como publicou depois Life, uma criança para produzir uma foto chocante. O exagero de Ballot pode ter ido além de uma simples revanche para entrar no campo da discussão moral e das fronteiras da irracionalidade ao mostrar uma foto de uma criança aparentemente dormindo com o corpo tomado por baratas que estariam passeando asquerosamente pela sua pele. Em seu livro “Flávio” [3], Gordon Parks inicia sua fala sobre o caso com uma expressão: “Mas em todo galho de árvore pousam alguns corvos furiosos”[4], para em seguida afirmar que a revista Times Magazine vai ao encontro da família Gonzalez que depõe sobre a manipulação de Ballot. Diz Parks que O Cruzeiro, de forma raivosa, depois da publicação de Life en Español, fabricou a história de Flávio, e acusou o próprio Parks de comprar um caixão e colocar uma mulher viva dentro dele (não sabemos de onde veio essa informação de Parks, pois nada é dito na reportagem de O Cruzeiro). A afirmação mais dura com relação a Ballot é quando Parks diz que Time Magazine descobriu depois de investigações que o fotógrafo brasileiro fez a foto posada da criança fingindo que dormia e colocou as baratas no corpo e até mesmo passou no seu rosto e ainda também forçou a foto da criança chorando na janela[5]. Parks diz que O Cruzeiro não precisaria ir muito longe para ter uma história genuinamente trágica como a da favela da Catacumba, bastava ir ao Harlem, ou em Chicagos’s South Side. Parks ainda completa, quando Time publica suas descobertas sobre a manipulação, a revista O Cruzeiro ficou quieta e não se manifestou. A mesma versão de Parks é também anos depois reafirmada por Vicki Goldberg[6]. Sobre o fato de haver pagamento para a família Gonzalez denunciado pela revista Time, não podemos deixar de lembrar que Parks também alimentou a relação com as crianças brasileiras dando-lhes moedas de baixo valor, e ele até mesmo se queixou que depois não conseguiu mais se livrar das crianças pedindo... ”american ...money....money”.

De fato, a revista Time Magazine publica na edição do dia 20 de outubro de 1961 uma matéria com o nome “A imprensa: Vingança carioca”, na qual relata a matéria de O Cruzeiro, com muita rapidez, somente 13 dias após a edição da revista brasileira, e abre de forma jocosa dizendo “O Brasil não achou nada engraçado se ver retratado no estudo de cinco partes sobre a América Latina realizado pela revista Life na primavera passada”. Em seguida relata os fatos, a ida de Parks ao Brasil e o fato de ter fotografado a miséria “...dentro de uma distância de dez minutos de carro da linda praia de Copacabana”. E completa fazendo referência a uma vingança brasileira, carioca, como diz o título: “Contudo os brasileiros foram picados pelas verdades da câmera da Life e, na semana passada, nas páginas da revista O Cruzeiro (de circulação de 700.000 exemplares), a maior revista de imagens do país, eles estavam colhendo a rica satisfação de terem retaliado na mesma moeda”.

Time Magazine relata a forma especular em que a matéria de O Cruzeiro é apresentada em relação à Life, como uma imitação precisa da performance de Parks. Completa colocando em dúvida, ou melhor, afirmando posturas antiéticas por parte de Ballot; mesmo indicando que o lugar era infectado por insetos, a polêmica imagem foi montada e posada:

A foto de Ballot dos oito Gonzales abarrotados em um barraco de único quarto teve o mesmo impacto das imagens de Parks dos favelados amontoados em seus barracos cariocas. O fato foi que a fotografia mais comovente de Ballot – a de Ely-Samuel, frágil filho de oito anos de Gonzales, dormindo num colchão imundo e com aparentes baratas em seu corpo – havia sido posada. O fotógrafo capturou e distribuiu baratas com esse objetivo. Ainda assim, a imagem não é uma distorção da realidade: no apartamento de um cômodo dos Gonzales, o fotógrafo Ballot encontrou uma interminável oferta do seu rastejante suporte fotográfico. Grande jogada em O Cruzeiro (“ História de miséria nas favelas de Nova Iorque”), o ensaio fotográfico de Ballot teve 14 páginas, com um texto em anexo que sustentava uma nota de indignação...Apesar da montagem pela qual pagou a família Gonzales para posar, O Cruzeiro mostrou seu ponto”.

Não aconteceu nenhuma resposta de O Cruzeiro para a matéria de Time, o que de certa forma é uma aceitação da versão norte-americana, e a direção da revista brasileira tão ocupada em responder a Parks, em criar uma tensão sobre a existência da miséria em muitos lugares, inclusive no coração de Manhattan, se silencia e não sai em defesa de seu fotógrafo enviado como representante do olhar latino-americano sobre a pobreza de Nova York. Como a própria revista Time Magazine anunciou, O Cruzeiro já tinha realizado seu intento, a vingança carioca a Nova York havia sido concretizada.

Segundo seus familiares[7], Henri Ballot chegou a receber telegramas de parabenização da imprensa soviética pela reportagem, teve sua estadia nos EUA controlada e vigiada, e não conseguiu apoio de autoridades do Harlem para realizar seu trabalho jornalístico. A questão se encerra e Henri Ballot sofrer consequências de suas polêmicas imagens sobre a miséria nos EUA aguçadas pela denúncia sobre a sua possível postura anti-ética denunciada por Time, e em seguida será proibido de entrar novamente no país. Nesse momento, após o macarthismo da década de 50, vivia-se um clima tenso com a guerra fria e a frustrada tentativa de invasão da Baía dos Porcos (17 de abril de 1961), que vai resultar no conhecido episódio “crise dos mísseis” em Cuba, no ano seguinte, e Henri Ballot pode ter sido então considerado um “agente comunista”.

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[1] Filho de pai francês, Ballot nasceu no Brasil na cidade de Pelotas em 1921, mora na França desde os dois anos de idade. Participa da Segunda Guerra, cai prisioneiro dos nazistas e com o fim da guerra volta para o Brasil no final da década de 40, quando começa a trabalhar na revista O Cruzeiro.

[2] Em entrevista no Rio de Janeiro.

[3] PARKS, Gordon. Flávio. NY: W W Norton & Company INC, 1978, página 91.

[4]But every tree branch harbors a few angry crows”.

[5]To get the other child to cry, the photographer had threatened to shove it out the window”.

[6] The Power of photography - How photographs changed our lives, Abbevile Press, N.Y., 1991.

[7] Informações de entrevista por internet com sua filha Veronique Ballot (atualmente morando na França).