Na Argentina, o controle sobre as minorias teve diferentes destinatários: por um lado, teve como alvo a população indígena com a conquista do “deserto” (do qual os nativos eram os povoadores). As fotografias variavam de acordo com os propósitos das missões. As estritamente militares os representavam com signos de submissão ou como personagens belicosos. As fotos de caráter religioso tentavam prestar contas para as congregações de origem. Costumavam mostrá-los em clássicos dípticos de “antes” e “depois”. Imagens carregadas de elementos que denotavam uma transição da selvageria para a salvação. Por outro lado, a noção de “minoria” também remeteu a certa parte da população imigrante, no marco das preocupações higienistas e idéias vinculadas à degeneração da raça. Inquietações acerca da natalidade e mortalidade encontram o médico, deputado, senador e ministro do Interior Guillermo Rawson discutindo com as teorias de Bertillon que, nessa época (fins de 1870), já tinham ultrapassado a fotografia e estavam em voga em congressos sobre demografia.
Até aqui, tentamos percorrer alguns momentos significativos do protagonismo da fotografia na construção de ideologia no século XIX. Apesar de as referências terem sido focadas no caso francês, o processo de modernização moldou formas similares, tanto em países centrais como periféricos, um referencial de modernidade. A maneira como os setores dominantes fizeram uso da técnica fotográfica e de seus produtos para construir hegemonia, por fora e por dentro do Estado, foi uma constante que admitiu poucas diferenças.
Já que estamos diante de uma prática historizada que atravessa todos os setores sociais, os interesses de classe dos setores subalternos levaram-nos a prestar atenção na fotografia. Quando o capitalismo gerou o grande desemprego e a onda migratória da Europa para a América (entre 1870 e 1890), começou a produção de fotografia de caráter documental. Tinham como finalidade dar a conhecer às “grandes massas” os problemas enfrentados pelas “minorias” de excluídos. Primeiro as fotografias de Jacob Riis
Jacob Riis, Jersey Street, mãe italiana e seu bebê. Nova York, c. 1890.
Lewis Hine, Dia e pagamento, (s/f). e as de Lewis Hine depois , para não retrocedermos às de Thompson, mostravam os sofrimentos de crianças e mulheres. Como dizia Lewis Hine: “Podemos ter idéias divergentes quanto à utilização exata desses documentos, mas, sem dúvida, ninguém pode se opor a que utilizemos todos os suportes publicitários possíveis com o objetivo de coletarmos um grande sustento popular”.[8]
Com o aparecimento da fotografia documental operava-se uma resistência. Mas, além disso, colocava-se outra questão de grandes implicâncias éticas, morais e políticas: o que fazer com essas fotos?
Foram apontados alguns exemplos relativos à fotografia de minorias no século XX, com o objetivo de abrir a discussão em outros níveis. Não que se trate de questões originais, já que, basicamente, estariam retomando certos tópicos do século XIX, mas de atualizações à luz das transformações culturais vinculadas à dinâmica do capital.
De um lado, a indústria cultural e o perigo que ela implica no sentido indicado por Adorno: sua capacidade para prever e reabsorver toda produção crítica. Assim, é o caso de perguntarmos se ainda existe a possibilidade de a fotografia documental estender seu objetivo solidário aos problemas reais de minorias também reais, em meios massivos e hegemônicos. Ou se apenas uma fotografia de caráter alternativo poderia alcançar o objetivo. Neste último caso, pode-se mencionar, ao menos, três inconvenientes: a) a circulação dessas imagens dependeria dos meios econômicos das próprias minorias ou de seus aliados ideológicos; b) a internet como suporte faria sua circulação depender de meios capitalistas e c) freqüentemente estas fotografias têm como destinatários as próprias minorias.
Nan Goldin, Nan un mes depois de estar apanhando, 1984.
Richard Billingham, imagens do ensaio “Ray’s a laugh”, 1996.
Richard Billingham, imagens do ensaio “Ray’s a laugh”, 1996.Por outro lado, um fenômeno que envolve a fotografia de caráter artístico. Imagens díspares como as de Nan Goldin (em que fotografa as seqüelas dos golpes que recebeu da companheira – ou as de Richard Billingham (o ensaio sobre sua família, “Rays a laugh” – , ao menos, duas características comuns: a exacerbada auto-referência e – o que é mais importante – certo deslocamento que produziram por meio do discurso da crítica. Trata-se de um novo “documentalismo” que apresenta como problemas gerais alguns que correspondem a certas minorias (como é o caso de Billingham), e, além disso, é produzido com explícitas ambições de consagração no meio artístico.
Finalmente, outra série de fotografias em que as minorias são estetizadas em imagens publicitárias, como as publicadas na revista Flaunt , no ano 2000, para uma produção de J. Lindeberg [9]. A cor dos olhos do garoto cego fotografado combinava perfeitamente com os tons da camisa. Na nota em que se fazia propaganda dessas peças de vestuário, os leitores eram convidados a doar dinheiro ao asilo no qual o jovem retratado vivia.
fotógrafo desconhecido, Camisa de rayon, revista Flaunt, Alemanha, 2000. O menino fotografado é um aluno de uma escola para cegos da India. Em outra linha, Phil Borges[10] retrata a “People of indigenous cultures”, em imagens com altíssimo tratamento plástico, as quais são expostas e comercializadas por meio de galerias de arte e, inclusive, bancos de imagens.
Então, a prática fotográfica e seu estudo ou utilização por áreas de produção de conhecimento conseguiram superar os usos históricos de dominação sobre as minorias?
[8] Lewis Hine: “Sobre a fotografia social” (1909) em Du bon usage de la photographie. Photo Poche, Centre National de la Photographie, Paris, 1987. pg. 116
[9] Uma referência a esse tema pode ser obtida em Silvia Pérez Fernández: “A presença do feio, o descomposto e o sinistro na fotografia”, em III Jornadas de Fotografia y Sociedad, Facultad de Ciencias Sociales, UBA, Buenos Aires, 2003. Formato CDRom.
[10] Pode-se consultar o site www.philborges.com